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Opinião

Um oásis chamado futebol

Após assistir ao programa Profissão Repórter, da Rede Globo, consegui constatar a real situação pelo qual passa a Venezuela. Nação com grave crise política, econômica e social, o que proporciona à população daquele país qualidade de vida que beira à miséria. Quem tinha um bom emprego e uma boa casa, hoje está sem teto, morando em postos de gasolina na estrada e vivendo de carona, sem rumo, em busca de chegar a alguma grande cidade do Brasil, como São Paulo ou Rio de Janeiro.

Na Venezuela, um padeiro ou um cozinheiro, por exemplo, ganha, por mês, o equivalente a R$ 20. Isso mesmo. Após 30 dias de trabalho. Por esse motivo, é razoável entender o porquê de tanta gente cruzando a fronteira do Brasil, entrando pelo Estado de Roraima. Diariamente, são cerca de 800 venezuelanos, incluídos aí crianças e idosos, que buscam, muitas vezes, somente algo para matar a fome em terras tupiniquins. É de cortar o coração, principalmente ao ver os pequenos envolvidos nesta situação.

Em meio ao caos social, político e econômico, uma nação falida, vê-se um oásis, que são os clubes de futebol. Com a crise do petróleo, não há outro lugar para se prosperar por lá. Os clubes não nadam em dinheiro, é verdade, mas apresentam uma saída para quem tem talento no esporte. Assim, há uma chance em um país afundado em dívidas, inflação galopante, moeda fraca e muito desemprego. O futebol melhorou muito na Venezuela. La Vinotinto, o selecionado local, cresceu nos últimos anos e deixou de ser a pior equipe de futebol do continente, posto que era seu historicamente. Hoje, a Bolívia detém essa inglória. É um avanço.

Clubes como Deportivo Lara e Monagas, que estão nos grupos de Corinthians e Grêmio na Libertadores, respectivamente; Zulia, Caracas e Carabobo, os dois últimos líderes do Campeonato Venezuelano, têm uma boa estrutura e sobrevivem graças a investimento estrangeiro. São empresários que sustentam os clubes em troca de revelações para o futebol, a fim de serem vendidas para o exterior. O Deportivo Lara, próximo adversário do Timão na Libertadores, tem plenas chances de classificação à fase de mata-mata, inclusive.

O meia Otero, que defende atualmente o Atlético-MG, é bom exemplo de alguém que fugiu do caos e venceu por meio do esporte. Revelado pelo Caracas, clube que atuou por sete anos, o atleta é de uma safra de bons jogadores que surgiram na Venezuela nos últimos anos. Saiu da terra natal em 2016, em meio à crise. Assim como o meia Guerra, do Palmeiras, que também surgiu na popular equipe da capital para brilhar no Atlético Nacional, da Colômbia. Guerra, aliás, foi eleito o melhor jogador das Américas, em 2016.

Mas, infelizmente, a solução de todas as mazelas da Venezuela não está no futebol. Poucos chegarão lá. Evidentemente, os meias de Atlético-MG e Palmeiras ajudam no que podem para aliviar a dor de seu povo. Mas é preciso mais. É necessário, principalmente, que se tenha responsabilidade com a gestão pública para mudar esse cenário de penúria. Os nossos vizinhos têm a nossa torcida. Não somente para que se descubram novos Oteros ou novos Guerras, mas que, principalmente, o povo volte a ter dignidade.

Erivan Monteiro é jornalista e cronista esportivo

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