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Opinião

Querer e subir

*Capa: Fábio Mendes

Em 2011, quando o XV de Piracicaba venceu pela quinta e última vez a Série A2 do Campeonato Paulista, fui assessor de imprensa do clube ao longo da pré-temporada. Vi, pouco a pouco, o nascimento de um elenco vitorioso. A verdade é que, naquele ano, o clube não havia se preparado exatamente para subir; o objetivo era estabelecer-se na divisão de acesso após longo período no ostracismo da Série A3. A sintonia que habitava o Barão da Serra Negra levou o XV mais longe do que o planejado: propositalmente ou não, o perfil de quem chegava encaixava-se ao de quem ali estava. Foi assim no campo e nos bastidores. Eu vi.

Naquela época, quando o discurso de profissionalização do futebol não frequentava tanto Piracicaba, o ambiente gerado no vestiário foi fundamental para o êxito. Os caras gostavam de jogar bola (juntos) pelo XV. É razoável relembrar que boa parcela do plantel campeão em 2011 chegou ao clube em 2009. A direção, idem. A sintonia concebida no vestiário foi tamanha que, com o andar da carruagem, expandiu-se para as arquibancadas, o que no futebol é possível somente com os resultados. As vitórias resgataram a conexão entre o XV e os piracicabanos. A impressão era de que a agremiação saltaria de patamar.

Esportivamente, não saltou. Esportivamente. Ao contrário, o XV passou a conviver com a falta de protagonismo e recuou um degrau com a nova queda para a Série A2. De quebra, não subiu o trem do Campeonato Brasileiro, que passou em 2016 com o título da Copa Paulista, mas foi embora em 2017 ainda na primeira fase da Série D. As consequências ficaram evidentes: o Alvinegro isolou-se, perdeu base e lideranças, e naturalmente a sintonia escapuliu do Barão da Serra Negra. O efeito dominó se concluiu, na visão do colunista, com a perda de identidade, causada, em boa parte, pelos maus resultados.

Hoje (19), começa o projeto capitaneado pelo empresário Arnaldo Bortoletto, que gerou expectativa acima da média devido aos investimentos prometidos nas eleições para a diretoria executiva, em novembro do ano passado. O pleito, por si só, rompeu com a mesmice. Na véspera da estreia, perguntei ao presidente sobre o objetivo e ele não fez qualquer cerimônia para responder a tarefa do XV em 2019: conquistar o acesso. Gostei da expressão que veio com a resposta. Pelos relatos que colhi, uma vez que pouco o conheço, Bortoletto é um sujeito muito bem intencionado. Mas, como é de praxe, entendo que a nova direção terá de passar por um período de adaptação.

Em Limeira, as caras novas do XV, em campo e na cúpula executiva, começarão a sentir verdadeiramente como funciona o clube. A montagem do elenco (ignore a reunião política envolvendo os R$ 700 mil orquestrada por Adílson Maluf) cumpriu com o que era previsto após as eleições: o grupo é competitivo, qualificado e possui capacidade para brigar pelo acesso à elite do futebol paulista. A contratação de Tarcísio Pugliese, agradável ou não, foi coerente com a proposta do departamento de futebol. Vieram 19 reforços, sem contar o retorno de jogadores emprestados. Para encaixar, pode levar tempo.

O XV de 2019 não é parecido com o XV de 2011, mas poderá ser. Porém, é necessário criar um ambiente que favoreça a sintonia, para que as lideranças surjam naturalmente e a hierarquia seja respeitada, sem favorecimentos. É claro que uma equipe ruim não mudará de patamar apenas pela sintonia, mas o XV de Piracicaba não é uma equipe ruim. A gestão profissional é sempre bem-vinda, mas não pode ser engessada pelo viés da transparência. O futebol ainda é um jogo de humanos, e o desenvolvimento dessas relações humanas, internas e externas, pode ser fundamental para atingir o objetivo.

Em 2019, será preciso interpretar a realidade do XV, mais pressionado do que em 2011, para fomentar um discurso capaz de gerar compromisso. Afinal, o capaz, quando quer, está mais perto do poder. O XV, ninguém duvida, é capaz.

Leonardo Moniz é editor de conteúdo do LÍDER

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