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Piracicabanos se consolidam na arbitragem

Lucas Bellote e Fábio Baesteiro carregam o nome da cidade pelo país

Fábio Baesteiro e Lucas Bellote, assistente e árbitro da FPF
Fábio Baesteiro e Lucas Bellote: piracicabanos se consolidam no quadro principal da arbitragem (Foto: Líder Esportes)

Pergunte na rua para qualquer garoto se ele gostaria de ganhar a vida em um campo de futebol. Não será difícil encontrar respostas que revelam o sonho de ser jogador. Mas, nem todos se contentam com um par de chuteiras, camisa, shorts e meião, ou um par de luvas. Há ainda quem prefere um apito ou uma bandeira. Afinal, o jogo não começa e não acaba antes do apito. A ‘profissão’ de árbitro de futebol não é fácil e mesmo quando a atuação é impecável, é raro encontrar na arquibancada quem saia do estádio sem dizer um palavrão. Apesar das dificuldades, dois piracicabanos têm tido êxito na carreira.

A dupla trabalhou em conjunto no Allianz Parque, quando Palmeiras e Linense se enfrentaram pela Série A1 do Campeonato Paulista 2018

Lucas Bellote, 27, educador físico, é arbitro da FPF (Federação Paulista de Futebol) e foi indicado neste ano para integrar o quadro da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Fábio Rogério Baesteiro, 36, também é educador físico. Desde 2009, é árbitro assistente da FPF e, em 2011, chegou à CBF. A única diferença entre eles é a experiência: ambos começaram a carreira no mesmo local e nutrem uma paixão quase inexplicável pela arbitragem e, claro, pelas suas origens. “Não podemos esquecer as nossas raízes. Eu conheço 21 estados devido à arbitragem e quando dizem que um trio de São Paulo foi escalado, eu logo respondo que ‘é um trio do Estado de São Paulo, mas eu sou de Piracicaba’. A cidade é um celeiro de árbitros”, contou Baesteiro. “É bem legal levar o nome da nossa Piracicaba para frente”, completou Bellote.

Na última quinta-feira (15), a dupla trabalhou em conjunto no Allianz Parque, quando Palmeiras e Linense se enfrentaram pela sétima rodada do Campeonato Paulista. Antes do jogo, Bellote e Baesteiro atenderam a reportagem e, em pouco mais de uma hora de bate-papo, contaram sobre como escolheram a profissão de árbitro de futebol, quais as partidas que marcaram suas carreiras e os sonhos que esperam cumprir em campo. Eles também opinaram sobre o uso de tecnologia no esporte, revelaram cuidados exigidos pelo cargo e a estrutura que têm para trabalhar, além de cravar sobre como deve ser a postura do juiz. Confira:

INÍCIO

Lucas Bellote (LB): “No segundo ano de faculdade, recebi convite para realizar um curso em Piracicaba. Eu me interessei para ter uma melhor formação como educador físico, mas acabei me apaixonando. No curso, vieram para cá vários árbitros de fora, contando como era a arbitragem e o meio do futebol. Vi uma oportunidade de aplicar o conhecimento técnico que eu tinha. Fiz o curso em 2009. Meu primeiro jogo na FPF foi em 2013, uma partida do sub-13 entre São José dos Campos e Corinthians, isso como árbitro principal. Antes, fui quarto árbitro no Campeonato de Seleção de Ligas. Lembro que foi Jaboticabal e Jales, mas não teve o jogo, foi um W.O. No meu primeiro compromisso pela FPF, não teve jogo (risos)”.

Fábio Baesteiro (FB): “Iniciei aqui em Piracicaba no ano de 1999. Eu tinha 17 anos e, geralmente, nesta idade, você quer ser jogador de futebol, não árbitro. Virei árbitro assistente por acaso, meu pai viu a divulgação do mesmo curso em Piracicaba e fiz para conhecimento. Desde então, não parei mais. Comecei no futebol amador de Piracicaba e, depois, cheguei à FPF e mais tarde à CBF. Meu primeiro jogo atuando como árbitro assistente foi na base, sub-15 do Campeonato Paulista, entre Ituano e Palmeiras”.

JOGOS MARCANTES

LB: “O jogo que mais marcou para mim faz pouco tempo: a final da Copa São Paulo de Futebol Júnior, em 2018. Quando fiz o curso, o primeiro objetivo era apitar as partidas das categorias de base e, em termos de visibilidade na base, não há nada maior do que a Copa São Paulo no Brasil. Depois de cinco anos apitar uma final… O sentimento que tenho é de muito orgulho. Você começa a entender a grandeza da competição e das equipes que estavam na final (São Paulo e Flamengo)”.

FB: “No início da carreira, foram anos buscando trabalhar na primeira divisão paulista. Em 2009, eu estreei na Série A1 e meu primeiro jogo foi Palmeiras e Marília. No mesmo ano, participei de um Corinthians e Ponte Preta no Pacaembu: foi uma partida com televisão, estádio grande e bastante torcida. Isso marcou muito, pois houve algumas situações polêmicas e conseguimos acertar”.

Lucas Bellote, árbitro da FPF

Bellote foi o árbitro principal da decisão da Copinha entre São Paulo e Flamengo (Foto: Arquivo Pessoal)

POSTURA EM CAMPO

LB: “A convicção e a coragem devem fazer parte do perfil do árbitro, é uma escolha feita quando você decide seguir a carreira. Ao longo do tempo, nós recebemos orientações e suporte sobre padronização de comportamento e trabalho em equipe. Para ver um lance mais ‘fino’, é importante estar no melhor ângulo e assim tentar tomar a melhor decisão. O jogo segue e o pensamento deve estar sempre na próxima bola”.

FB: “Não apenas hoje, com um pouco mais de experiência, mas desde o início da carreira é importante para o árbitro ter um padrão de postura do começo ao fim do jogo. No lance, não existe a dúvida. É falta ou não é. A decisão e a atitude são do momento. Mais tarde, você assiste em um lance de TV com o tira-teima milimétrico, falta dentro ou fora da área… Mas, naquele momento, não. Isso não pode martelar na cabeça. Quando você toma uma decisão, tem que se agarrar a ela daquele instante ao fim da partida”.

TECNOLOGIA NO FUTEBOL

LB: “Sou a favor, com certeza. A tecnologia é bem-vinda. Alguns conceitos, porém, precisam ser afinados para que não se perca a dinâmica da partida. Eu entendo que o dinamismo do futebol não pode ser travado. É preciso evoluir bastante para que o VAR (árbitro de vídeo) possa atuar com mais agilidade e convicção. Além disso, é importante que os jogadores, torcedores e a própria arbitragem saibam exatamente o que está acontecendo no procedimento. Sou a favor, mas é importante estudar mais e deixar mais claro como serão as resoluções dos problemas”.

FB: “Fiz o curso do VAR pela CBF, ano passado. Há algumas propostas estudadas no protocolo a ser seguido pelo árbitro de vídeo. É questão de estudo e de realizar jogos-testes. A princípio, o jogo está rolando e, quando há uma situação de intervenção, o árbitro de vídeo aciona o principal. O problema é o tempo que isso leva para acontecer. A forma como vem sendo treinada no mundo é para que a partida não perca a dinâmica enquanto os árbitros de vídeo estudam o lance. Às vezes, passam 30 ou 40 segundos para somente depois tomar uma decisão. O árbitro de vídeo implica na quebra de cultura esportiva. Não é simples. Eu sou muito favorável, mas é preciso rever padrões do esporte”.

” O que nos escala para a próxima partida é o jogo de hoje. Se você não se dedicar, não vai viver isso de novo”

RESPEITO

LB: “Nós temos um respaldo importante da FPF e CBF. Cada vez mais, o arbitro é entendido como um dos personagens do meio do futebol pela imprensa e pelos torcedores. Todos que consome o futebol enxergam que para o esporte ser um produto melhor, é importante uma arbitragem mais qualificada. A profissionalização é o caminho para a excelência e para o desenvolvimento do potencial”.

FB: “O árbitro é mais respeitado do que antigamente, sem dúvida, desde o público aos jogadores, técnicos e dirigentes de clubes de futebol. Afinal, é um profissional que está em campo e que também precisa treinar, preparar-se, alimentar-se de forma correta para um esporte de alto rendimento. Não é qualquer um. Antes, não havia respeito do profissional. A tendência é melhorar e muito caso se confirme de vez a profissionalização da arbitragem”.

CAMINHO

LB: “O árbitro faz um curso na FPF, independente de sua formação acadêmica. Hoje, o curso dura pelo menos um ano. Ao ingressar, você percorre categorias de base: sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17. Isso ajuda a ganhar experiência e aprimorar o condicionamento físico. O formato da FPF se baseia em quatro pilares: físico, técnico, mental e social, que é algo que eles acreditam muito. Cada pilar é administrado pelos profissionais competentes. A partir do momento em que ele (árbitro) chega à Série A1, a federação pode indicar para a CBF, onde também há alguns estágios a percorrer: categorias de base e séries D, C, B e A. Os dez melhores do país são indicados para a Fifa, tanto assistentes como árbitros principais”.

FB: “Desde o início, tinha definido comigo que queria ser árbitro assistente. De 2009 para cá, faço parte do quadro principal dos árbitros assistentes do Estado de São Paulo. Em 2011, fui indicado para a CBF e desde então venho participando de jogos do Campeonato Brasileiro. Ano passado, além de trabalhar na Série A, participei da semifinal (Grêmio e Cruzeiro) e da final (Flamengo e Cruzeiro) da Copa do Brasil. Foi um momento único. É meu oitavo ano no quadro da CBF e lutamos constantemente para seguir em alto nível, o que é muito difícil. Pretendo seguir muito mais tempo, desde que o físico permita”.

Bellote e Baesteiro atuaram juntos na partida entre Palmeiras e Linense, pelo Paulistão (Foto: Arquivo Pessoal)

OBJETIVOS

LB: “Em 2018, cheguei à CBF. Um dos requisitos é ter nível superior e, assim, comecei com os estágios. Tenho 27 anos, faço 28 em abril, então acredito que posso atingir o máximo, o que vai depender dos resultados. O topo, claro, é o que todo mundo sonha quando começa a carreira: apitar uma Copa do Mundo. Mas para isso é importante ter humildade, colocar os pés no chão e batalhar muito. Chegar aqui não foi fácil e a tendência é afunilar cada vez mais. Mas o objetivo é chegar, sim, ao quadro da Fifa”.

FB: “Nós temos que saber das nossas limitações. São dez vagas para o quadro internacional. Dois anos atrás, a CBF tinha um ranking dos assistentes. De 280 auxiliares, eu era o décimo. Antes, almejava um passo um pouco maior, mas muitas coisas foram se modificando, algumas exigências apareceram para quadro internacional, então, eu entendo que, partindo do ponto que estou, se conseguir continuar trabalhando em alto nível, em campeonatos importantes, seria perfeito seguir assim ao longo da minha carreira. Nós temos um exemplo enorme em nossa cidade, como é o caso do João Paulo Araújo (ex-árbitro). Torço muito para que o Bellote consiga ir além do que o João chegou. O perfil, ele tem”.

MOTIVAÇÃO

LB: “Cada jogo precisa de um objetivo diferente. Se nós estamos na arbitragem do futebol, é porque gostamos de apitar, assim como sou educador físico e gosto de me manter ativo fisicamente. Para mim, estar em um campo de futebol atuando é uma motivação enorme. Além disso, eu tenho que focar em melhorar um ou outro aspecto, como a performance física, por exemplo. O principal é controlar a partida, o que sempre é um desafio. Não é ninguém olhando, a TV transmitindo ou estádio cheio. É pelo simples fato de amar a profissão de árbitro de futebol. A cobrança também vai aumentando”.

FB: “A arbitragem tem suas peculiaridades. O que nos escala para a próxima partida é o jogo de hoje. Se você não se dedicar da mesma forma para jogos de divisões diferentes, você não vai viver aquilo de novo”.

CUIDADOS

LB: “Desde que escolhemos a profissão, temos de criar uma imagem que transmita confiança. Nossa vida é privada em alguns aspectos, então não podemos deixar isso atingir o lado particular. Somos orientados sobre mídias sociais, como lidar com certas situações. Na FPF, não temos nenhuma restrição, mas temos de zelar pelo que fazemos, desde uma curtida inapropriada, um compartilhamento ou uma postagem de foto com alguém ao lado vestindo camisa de time. O cuidado tem que ser zelado”.

FB: “São coisas que fazem parte da cultura do futebol e a gente aprende a lidar com isso. De vez em quando, a gente encontra com torcedores no supermercado e eles querem tirar uma ‘casquinha’. Eu levo na boa, desde que seja saudável a brincadeira. Me diz quem não gosta de fazer um jogo com estádio cheio? É motivante, mas, em contrapartida, você é mais xingado (risos). Para o árbitro assistente, então, é ‘sensacional’ quando o alambrado fica perto (risos). Você está focado no jogo, apesar do barulho. Claro que uma vez ou outra você escuta, mas é cada pérola que sai (risos). O que nós precisamos é saber lidar com a situação para não atrapalhar na atuação. O importante é saber filtrar”.

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