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Opinião

O presidente, enfim, falou. E não contou a verdade

*Capa: Arquivo/XV de Piracicaba

Escrevi anteontem sobre a fraca gestão de Arnaldo Bortoletto na presidência do XV de Piracicaba, marcada pela ausência e pelas relações frias. Critiquei a maneira como demitiu Tarcísio Pugliese, pelo momento absolutamente inadequado e, principalmente, porque colocou as inclinações pessoais acima dos interesses do clube. Fiz o apelo, na coluna que pode ser acessada clicando aqui, para que Bortoletto se pronunciasse, uma vez que apenas o agora ex-treinador do XV havia contado sua versão.

Enfim, o presidente ‘abriu o bico’ na última quinta-feira (16) – e o fez de forma deselegante. Bortoletto não concedeu coletiva de imprensa, algo corriqueiro e adaptável à nova realidade, mas quebrou o silêncio com entrevistas para os veículos de comunicação em que se sente mais cômodo e que, provavelmente, julga mais relevantes, uma vez que os patrocina via Coplacana.

Bortoletto falou.

Mas, não é verdade que a decisão de demitir Pugliese foi tomada em conjunto com a diretoria. O presidente definiu a saída do treinador no dia 26 de junho, mas a rescisão do contrato foi anunciada com a nota oficial em 8 de julho. Entre a ordem para ‘dar baixa’ na carteira e o comunicado do desligamento, se passaram 12 dias em que a direção tentou convencer Bortoletto de que a decisão havia sido equivocada, mas a postura do mandatário foi irredutível.

Insisto que, ao assumir o cargo, o presidente prometeu que não tomaria medida alguma sozinho. Não cumpriu, mas ‘fiscalizar’ é bobagem do colunista… Na entrevista que deu para a rádio Jovem Pan News, Bortoletto foi questionado sobre a razão pela qual demitiu o técnico – se o problema foi financeiro, como divulgado em nota oficial, porque isso ocorreu apenas no quarto mês da pandemia? O presidente, então, afirmou que o contrato de Pugliese havia sido rescindido no dia 30 de abril. Estranhei. Se ocorreu em abril, porque ninguém divulgou? 

Apurei.

Não é verdade.

Explico.

Fato é que o presidente pretendia encerrar o vínculo do treinador desde que a Covid-19 paralisou a Série A2 do Campeonato Paulista, em março. Pugliese relutou, mas aceitou a rescisão e, em paralelo assinaria novo contrato, no qual passaria a receber 50% do salário que tinha. Por WhatsApp, no dia 3 de junho, às 14h25, o XV de Piracicaba enviou para o técnico a rescisão do contrato de prestação de serviços. Esse documento, repito, enviado no início de junho, ao qual tive acesso, tem a data de 30 de abril de 2020. A manobra está aí.

A indignação de Pugliese é porque ele assinou a rescisão e não recebeu o segundo contrato, previamente combinado. A multa para a quebra do primeiro documento, que foi parcelada em duas vezes e teve a primeira parcela paga, consistia em dois salários – o técnico abriu mão de férias e 13º proporcional, conforme apurado com o clube. Mas, porque o segundo contrato não foi enviado? Bortoletto falou para Pugliese que ele não estava trabalhando em razão da pandemia.

Pugliese, que argumentou que vinha concedendo as entrevistas solicitadas pela assessoria de imprensa, gravando vídeos para o clube, montando treinos virtuais três vezes por semana e participando de reuniões diárias com atletas – ações essas que estão documentadas – ficou puto ao ouvir do presidente que o trabalho do técnico é apenas no campo, algo parecido com o que Arnaldo Bortoletto falou na entrevista que deu à rádio Educadora. O final da história é conhecido.

Ontem (17), o XV de Piracicaba anunciou a contratação de Evaristo Piza para a reta final da Série A2. Terá pouco tempo para trabalhar, quase nada para treinar e nenhuma responsabilidade se perder. Afinal, não participou da montagem do elenco. À CBN Campinas, Piza deixou claro, com o perdão do trocadilho, que sabe onde pisa: “O que eu tenho que fazer aqui é não atrapalhar”. Bortoletto, em contrapartida, só tem a perder. Se o XV não conquistar o acesso, será apontado como culpado. Se o acesso vier, terá sido apesar da bobagem do presidente.

Leonardo Moniz é editor de conteúdo do LÍDER

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