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Opinião

O exemplo de Kelly

*Capa: Marcio Rodrigues/Arquivo LBF

Paula Asbahr, amiga pela qual tenho apreço incalculável, escreveu que ao perguntar sobre a causa da morte de Kelly Cota, foi informada de que o coração da ex-jogadora de basquete estava muito grande, quando examinado. “Na verdade, o que não sabiam, é que ele sempre foi exatamente assim: grande”. As palavras de Paulinha não poderiam ser mais precisas.

Kelly não foi uma excepcional jogadora de basquete, mas foi uma pivô muito competente. Não por acaso, conquistou quatro títulos brasileiros e sagrou-se campeã sul-americana. Ao longo da carreira, defendeu equipes importantes: Americana, Santo André, São Paulo/Guaru, Vasco e XV de Piracicaba. Passou também pela seleção brasileira. As memórias que tenho na beira de quadra são de Piracicaba. Lembro bastante do quanto brigava no garrafão, suando a camisa, quase sempre com o número 15 às costas. Saudades do basquete no outrora mágico ginásio Waldemar Blatkauskas…

Apesar de saber quem era Kelly Cota, conhecê-la de verdade foi privilégio reservado para mim há quase um ano. No Instituto Passe de Mágica, iniciativa maravilhosa que Magic Paula criou em 2004 para promover o desenvolvimento humano por meio do esporte, descobri o coração que Paulinha Asbahr descreveu com perfeição: uma mulher forte, que cuidava, defendia e zelava pelas crianças. Kelly alimentava os sonhos, instigava a autonomia, transformava, sem exagero, trevas em luzes de esperança. Basta ouvir os relatos de jovens que foram impulsionados por ela e que decidiram deixar para trás o perigoso caminho das drogas.

A última vez que conversamos foi na sexta-feira (13), sorridente como sempre, conservando o olhar maroto que só os atletas têm – e que ela nunca perdeu. Num corrimão do ginásio poliesportivo do Vila Sônia, núcleo do Instituto Passe de Mágica e extensão de sua casa, me despedi sem saber que era o ‘adeus’. Na madrugada de terça-feira (17), à 1h20, em Piracicaba, Kelly Cota sofreu uma tromboembolia pulmonar e o enorme coração, certamente carregado de amor, parou de bater.

Nesse pequeno, mas intenso período de convivência, o que mais chamou minha atenção ao observar Kelly foi o respeito que ela tinha das crianças e adolescentes. Foi fantástico perceber os olhares fixos e atentos cada vez que ela dizia algo. Kelly não tinha um ‘jeito’ mais carinhoso ou menos ríspido; cativou o espaço que conquistou com seu próprio ‘jeito’ de ser. Lutava para que os jovens tivessem voz própria. Sempre com respeito, preocupada com o bem-estar do próximo, feliz porque era capaz de doar. Foi uma pivô com alma de armadora: sua jogada favorita, na vida, era dar assistência. Esse é o legado que Kelly, excepcional ser humano, nos deixa.

Aos 39 anos, Kelly cumpriu sua missão. Nós provavelmente nunca entenderemos a razão pela qual ela nos deixou tão cedo. Aqueles que a conheceram, porém, sempre a terão como inspiração para carregar as bandeiras que ela carregou. É nossa missão.

Descanse em paz, incrível Kelly Cota.

Leonardo Moniz é editor de conteúdo do LÍDER

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