fbpx
Basquete

‘O esporte abriu uma porta para acreditar nos meus sonhos’

Da infância pobre e agressiva à realização: a história de superação de Priscila Regina

Priscila Regina, educadora do Instituto Passe de Mágica
Priscila Regina dedicou 12 anos de sua trajetória ao Instituto Passe de Mágica, na Vila da Paz

*Fotos: Arquivo Pessoal & IPM/Divulgação

“Eu tinha um sonho: trabalhar para a Magic Paula. Quando estava com 10 ou 11 anos, comecei a jogar basquete por causa dela. Tem uma imagem que não esqueço: era BCN contra WNBA, um dos últimos jogos da Paula, e ela fez um passe brilhante para a Adrianinha. Depois, deu uma ‘estrelinha’ na quadra. Meu, quem dá uma estrela na quadra? Não foi a primeira imagem que eu tive, mas guardei a mensagem daquilo: a Paula ficou feliz e não foi porque fez a cesta, mas porque ela proporcionou a cesta para outra pessoa. Ela pode abrir o caminho para outras pessoas terem sucesso. O que eu mais queria na vida era ser igual ela.

Nessa época da estrelinha, eu já tinha uns 14 anos. Na minha adolescência, ficava muito na rua. Eu treinava no BCN Osasco e tinha uma técnica que fazia as estatísticas do time. A Paula jogava no adulto e eu no mirim. Eram horários e ginásios diferentes. Eu ia para o José Liberatti ver o treino dela, mas ficava pouco tempo. Não tinha ônibus.

‘As condições eram precárias: a bola do futebol era a mesma do vôlei, e também a que quebrava todos os vidros’

Nasci no São Domingos, no final do Butantã, periferia de São Paulo. Jogava basquete na escola e, quando chegava em casa, ia para rua brincar com os meninos. Eu era a única menina e tinha que ficar me protegendo a todo momento. Isso me fez extremamente violenta: pouco ouvia, saía na porrada, respondia muito as pessoas. Ninguém me dava um limite; minha mãe trampava o dia inteiro. Meus pais se separaram quando eu era muito nova. Eu sentia essa ausência. Minha mãe trabalhava em dois lugares e fazia curso para tentar algo melhor para os três filhos: eu, a Luana, minha irmã mais velha, e o Luan, que é o caçula.

Cresci na periferia: pensa num lugar com uma bola só, imagina a briga que dava. A minha bisavó, Idalina, criou todos os netos e bisnetos, e nos dava muito carinho. Todo mundo do bairro conhecia ela como a ‘senhorinha’ que benzia as pessoas. E eu ficava brava com isso: todo mundo ia lá falar com ela, pedir coisas, e ela não ganhava nada. Minha ‘bisa’ dizia que não precisava: se eles se sentissem bem, estava tudo certo. Foi um exemplo que tive de mulher: muito forte, mesmo sozinha quando ficou viúva. As condições eram precárias lá. A bola do futebol era a mesma usada no vôlei, na queimada e também a que quebrava todos os vidros da rua.

Priscila Regina, educadora do Instituto Passe de Mágica

Priscila Regina com educandos do Instituto Passe de Mágica no núcleo Vila da Paz, na capital paulista

Minha ligação com o basquete começou quando uma professora na escola disse: ‘Você é uma menina atlética, experimenta fazer um teste de basquete’. Quando soube que o teste era com uma professora e que jogavam só meninas, fui e passei. A mesma professora me falou algum tempo depois que ia rolar um teste na USP (Universidade de São Paulo), mas que lá era coisa séria, teria que jogar pra valer. Tá bom, fui. Era o PET (Projeto Esporte Talento), hoje Prodhe (Programa de Desenvolvimento Humano pelo Esporte). Passei também. Lá, conheci a Paula Korsakas, minha madrinha. No começo, porém, a gente teve uma relação bastante conturbada. Como eu disse, meu comportamento era violento, não tinha o costume de receber ordens. Na rua, não existe hierarquia. De repente, vou para um lugar que tinha regras de convívio. Saca?

A real é que eu jogava em um nível bacana e fiquei lá alguns anos, que se transformaram nos melhores com o tempo: estava perto de casa, conseguia ir para o clube jogar, tinha compromisso com o treino e assumia uma responsabilidade. Queria provar para a Paula Korsakas o que eu estava aprendendo. Por fim, ela se tornou a minha referência enquanto mulher. Minha mãe trabalhava demais, não tinha tempo. Nesse período todo, ela só me viu jogar uma vez. Os jogos eram muito importantes para mim, porque as pessoas me olhavam com respeito, sabiam que eu dominava algo. Foi aí que eu entendi o quanto o esporte é importante. Até então, levava uma vida em que o bem-estar social não existia.

‘Vim da periferia, sou mulher e sou negra, então ouvia direto a frase: ‘Aquela pretinha’ parece um touro’. Eu chorava’

Velho, olha como o esporte me tirou de onde vim e me levou para um espaço de educação! Falando em educação, eu tinha que estudar: sem nota, não poderia jogar. Como é que você acha que minhas notas eram? (risos) Ralei e as coisas foram acontecendo, passei a ser respeitada ali dentro pelo esporte que eu conseguia praticar. Mas, o processo foi complicado: vim da periferia, sou mulher e sou negra. Ouvia direto: ‘Aquela pretinha parece um touro’. Chorava. A Paula Korsakas explicava que falavam isso porque eu era forte, mas não via aquilo como positivo. Quando eu brincava com os meninos, eles também me consideravam um menino. Eu ficava com raiva. Sou menina!

No esporte, mulher e negra… Era foda. Me julguem pela minha capacidade, não pela minha raça! No Prodhe, havia mais meninas negras. O trabalho era voltado para periferia. O basquete abriu muitas portas, mas convivi com esses problemas. Nunca desisti. A minha bisavó me ensinou isso. Ela trabalhou anos e anos em ‘casas de família’ e dizia enquanto segurava uma xícara de café: ‘As pessoas vão falar que a gente não pode muitas coisas, mas você pode. É bom que eles percebam que você está lá, que existem coisas diferentes’. Que senhorinha sábia!

Priscila Regina, educadora do Instituto Passe de Mágica

A agressividade deu lugar aos sorrisos: o esporte transformou a vida e a rotina de Priscila Regina

Isso me fortaleceu. Segui. O basquete me deu uma bolsa de estudos num colégio particular em São Paulo. Fiz o terceiro ano do ensino médio nessa escola. Foi tenso. Era a única negra da sala e todo mundo sabia que eu era bolsista. Nas aulas de inglês, a professora zoava comigo, porque eu não entendia nada. A escola dava bolsas para atletas e deficientes, e foram os deficientes que me contaram o que estava acontecendo. O resto da sala ria. Nos jogos, as famílias dos times adversários me xingavam na arquibancada. Mas tive maturidade para entender que o problema não estava em mim: fui a cestinha e fiz o time ganhar títulos. Sofri, mas abri portas. Consegui colocar algumas amigas nessa escola. Tive a oportunidade. Lembra o que eu disse sobre a Magic Paula, sobre proporcionar oportunidades para os outros?

Então, quando eu joguei de verdade e fiz o teste para o BCN, estava ciente de que a mulher pode chegar aonde quiser e conquistar o respeito. A Magic Paula não é negra, não é da periferia, mas ela acolheu gente assim. Ela é diferente. Deixa eu contar: a Paula era brilhante. Eu assistia os vídeos dela, os passes e tentava repetir aquilo em quadra. Óbvio que dava tudo errado (risos). Minha técnica ficava louca comigo. Eu já sabia que não iria jogar com ela. Ao menos, queria trabalhar perto dela. Sabia que ela era de Piracicaba, tinha um projeto, e eu ia pra Pira ver se tinha trampo. Nada.

‘Na faculdade, vi um cartaz na parede com o logo da Paula: ‘Instituto Passe de Mágica’. Era fim de 2006, fui atrás’

O Prodhe me fez arrumar um trabalho: telemarketing na Paulista. Eu queria entrar na faculdade. Passei no Mackenzie, fiquei super feliz, mas vi o valor da matrícula e desisti. Liguei para a Korsakas e perguntei se eles davam bolsa lá, mas ela disse que não sabia como funcionava. Ganhava R$ 300 e a matrícula custava R$ 900. Nem fodendo. Fiquei mal e, sem eu saber, minha mãe conversou com a Paula Korsakas, que me ligou. Peguei a bike e fui. Cheguei e havia um cheque pronto. Falei para Korsakas que não tinha como pagar e lembro dela dizendo: ‘Faz a matrícula, um dia você me paga de algum jeito’. Consegui uma bolsa, que depois virou Bolsa Atleta. Foram quatro anos incríveis, mas o preconceito continuava existindo. Os professores me ajudavam muito; uma professora me esperava até a última aula para dar carona.

Na faculdade, um dia, vi um cartaz com o logo da Paula: ‘Instituto Passe de Mágica’, uma organização que promove o desenvolvimento humano por meio do esporte. Era fim de 2006, fui atrás. Fiz a entrevista, fui aceita. Eu vivia na expectativa de um dia a Paula aparecer. Minha chefe era a Vânia (Paulette) e a coordenadora, a Branca (Silva). Lembro que a Branca foi ver uma aula minha e foi a pior aula que dei na vida. Tremia! Na época, era auxiliar da educadora Ana Mota, que também jogou com a Magic, em um núcleo dentro do autódromo de Interlagos. Tenso! Tinha que brigar contra o povo da Fórmula 1. Os seguranças que trampavam lá não davam moral… A gente discutia porque tinha criança de 8 anos querendo ir ao banheiro e não podia. Acredita nisso? A pressão era grande, eram dois ou três meses sem aulas, não dava para guardar material. Eu sofria.

Priscila Regina, educadora do Instituto Passe de Mágica

Mulher, nega e no esporte: preconceitos quebrados no caminho da educadora do Passe de Mágica

Então, rolou uma reunião que o William (Boudakian, gerente de projetos do Instituto Passe de Mágica) falou que talvez a Paula viesse. Eu ficava fuçando no Orkut para saber se ela tinha agenda, se viria mesmo (risos). Começou a reunião. De repente, ela entrou na sala. Eu olhava e a Ana Mota me cutucava: ‘Dá uma segurada’ (risos). Nesse dia, a Ana Mota contou que precisava sair do projeto. Havia uma dúvida sobre quem contratar para continuar tocando o trabalho. ‘Como assim? A Priscila está lá, é competente e a gente permanece se a Priscila ficar’. Congelei. Cheguei em casa e chorava dizendo: ‘Mano, a Paula falou que só vai continuar o trampo lá se eu ficar! Sou competente! Vou trabalhar direto para ela’. Foi a primeira reunião com a mulher e ela fala que vai me contratar.

Eu tinha um monte de autógrafos dela e passou um filme na cabeça: quando eu via ela, o que eu fazia para ver ela treinar. De repente, estou num clube, numa escola, numa faculdade, num trampo, do lado dela, na organização dela, ela me elogiando. Surreal. Sabe aquela coisa de fazer três coisas na vida antes de morrer? Comigo é só plantar uma árvore que tá suave (risos). Em 2008, assumi o núcleo da Vila da Paz, em São Paulo, no meio da comunidade, numa quadra que não tinha nada. Era eu e a Amanda (Busch, supervisora), uma pessoa diferenciada. Imagina uma comunidade que ferve, que o tráfico é muito forte, e estavam lá duas mulheres dando aula. Foi aí que eu me meti.

‘O Instituto Passe de Mágica acredita no trabalho que faz. Sempre acreditou. É exatamente por isso que funciona’

A verdade é que o nome da Paula já era super respeitado lá. As mães deixavam as crianças participar porque era o projeto da Paula. Toda vez que ela vai, é um megaevento. Acho que ela nem tem noção de quanto é importante. A Paula transforma. São poucas organizações em que, quem está em cima, compreende quem está na ponta. Ela vai, visita, conhece. A Paula acha necessário conhecer. A sensibilidade do esporte reconstruiu a Vila da Paz. Isso nunca vai mudar, o legado já foi criado. Na comunidade, as pessoas mostram para as outras que elas são capacitadas.

As crianças ficavam ‘abobadas’ de ter por perto uma pessoa que ganhou uma medalha na Olimpíada. E essa pessoa sentava na roda, ao lado delas. A Paula não ficava em pé, ela queria estar como o outro, nunca acima. Foram 12 anos no projeto dela, cada dia um aprendizado novo. Nas pizzadas de fim de ano, eu pensava: ‘Quem será que vai sentar do lado da Paula? Se eu sentar, não vou beber (risos). Lembro que nos primeiros anos, eu sentava muito longe (risos). O garçom oferecia cerveja e eu pedia suco de laranja! Depois de três ou quatro anos, tomei uma cerveja e falei para Paula: ‘Preciso muito tirar uma foto com você’. Ela não sabia da minha admiração. Foi minha primeira foto com ela. Mais uma conquista.

Priscila Regina, educadora do Instituto Passe de Mágica

Magic Paula foi (e continua sendo) a maior fonte de inspiração da educadora Priscila Regina

Doze anos de Instituto Passe de Mágica. Caracas… Trabalhei com pessoas que têm olhares capazes de abrir os meus olhares. Trabalhei na Vila da Paz, onde eu via os caras separando drogas, violência contra crianças, oito pessoas dormindo num cômodo de madeira sem banheiro. Periferia. Não podia, por exemplo, falar para uma criança que era ruim fumar maconha. O pai é o herói dela, e possivelmente ele fazia isso sentado na sala. Se falo, crio um conflito. Era um jogo de cintura danado para fazer as crianças entenderem que aquele é um caminho, mas que também existem outros caminhos e eu estava lá para mostrá-los. O Instituto Passe de Mágica acredita no trabalho que faz. Por isso, funciona.

As vezes, as crianças chegavam na quadra carregadas de raiva e nosso olhar tinha que captar isso, entender que a raiva não era contra nós. A rua, com tantos problemas, era melhor que a casa delas. A carga era pesada. Nas aulas, as crianças estavam à vontade para expor esse comportamento. A gente não batia de frente: acolhia. Nunca estive lá para atrapalhar o tráfico; estava para ajudar as crianças. Nosso lugar era um espaço de direito de prática, de lazer. Aprendi isso com o William e a Paula. Minha história mostra que o esporte é para todo mundo. Me desliguei da organização em agosto desse ano com outra percepção de mim mesma: uma mulher muito mais sensível, que sabe exatamente de onde veio, com um olhar diferente para o outro. Ajudei e fui muito ajudada. Sem julgamentos. É isso que o Instituto Passe de Mágica sempre fez.

Ah… Sobre a Paula? Ela continua sendo aonde eu quero chegar”.

Priscila Regina da Silva Lourenço, 36, é educadora física e pós-graduada em psicologia do esporte. Coordena a Associação Hurra!, é co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, técnica do Magic’s Minas, treinadora da equipe masculina de basquete da Faculdade de Medicina da Unifesp e do time feminino da Faculdade FEI – Faculdade de Engenharia (São Bernardo do Campo).

Voltar