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O cérebro na dispensa

O cérebro na dispensa - Cassiano de Santis

Nunca soubemos tanto sobre a obesidade – e nunca houve tantas pessoas obesas. Cada vez mais conhecimento é produzido, informações são divulgadas e opções para perda de peso são oferecidas, e mesmo assim os índices no Brasil saltaram de 12% da população em 2006 para 20% em 2018. É que não foi só o conhecimento que aumentou: também está muito mais fácil engordar.

Vamos admitir que não somos grandes consumidores de conhecimento, se precisarmos nos aprofundar nele – preferimos a informação mais simples. Mas, com tanta informação circulando, fica até difícil saber em que acreditar e o que fazer para cuidar da saúde. Por outro lado, temos alimentos ultraprocessados à vontade (e mais baratos que os naturais) e quase não precisamos sair da cama ou do sofá em nossos momentos de lazer, com redes sociais e séries para assistir.

Fica fácil perceber por que a população engordou tanto, e que vai continuar a engordar. Nós podemos produzir conhecimento sobre obesidade e emagrecimento, mas isso terá pouco valor se continuarmos produzindo também um estilo de vida sedentário.

Estilo de vida muitas vezes é uma questão de escolhas, e escolhas não são feitas pelo desejo ou pelo espírito: são feitas pelo cérebro, que reúne nossa história, o que está acontecendo ao nosso redor e dentro de nós para tomar a melhor decisão. Para isso, precisa receber todas as informações, selecionar as relevantes, descartar as demais e traçar uma estratégia.

Não custa lembrar que o cérebro é um órgão. Da mesma forma que o pulmão não nos deixa correr o dia todo e o estômago não nos deixa comer tudo o que queremos (felizmente!), há limites para a capacidade do cérebro tomar decisões. Quanto mais cansados estivermos, por exemplo, mais difícil é separar o joio do trigo (por isso temos ideias que parecem muito boas à noite, e descobrimos que são péssimas pela manhã).

Da mesma forma, quanto mais joio e mais trigo houver, mais difícil será separar, e maior o risco de não conseguir. Com tantas possibilidades de comidas pouco saudáveis – e muito saborosas – e de entretenimento sedentário, o pobre cérebro acaba se perdendo nos prós e contras. E o mesmo vale para o emagrecimento: os profissionais podem dizer que exige paciência e leva tempo, mas muitos rótulos de produtos prometem secar a barriga em uma semana.

Aí, vale uma regra: na dúvida, a tendência é escolher a recompensa imediata, mesmo que faça mal em longo prazo.

Sabemos e falamos muito sobre obesidade. Agora, precisamos fazer o mesmo com cérebro.

Cassiano de Santis é psicólogo especialista em Neuropsicologia

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