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Opinião

Não é de hoje

Acho engraçado a Rede Globo dizer que “o Brasil conheceu o futebol feminino” após a Copa do Mundo da França. É muita pretensão da Vênus Platinada afirmar que graças a ela, com a indiscutível visibilidade, o futebol feminino foi “descoberto” pelo torcedor brasileiro. Menos. Quem acompanha o time de Marta, Formiga e Cristiane sabe que elas e suas companheiras vêm brilhando com a camisa canarinho há muito tempo.

A equipe feminina é nada menos que tricampeã nos Jogos Pan-Americanos (2003, 2007 e 2015) e vice-campeã na edição de 2011; vice-campeã mundial em 2007; sete vezes campeã da Copa América. Os que conhecem a trajetória lembram com carinho a fantástica final dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, quando, no Maracanã lotado, o Brasil bateu as norte-americanas e ficou com a medalha de ouro. Goleamos as rivais por 5×0 diante de mais de 67 mil pessoas. Era uma quinta-feira, meio-dia, sol a pino e um roteiro perfeito para a glória.

Foi o ápice de uma batalha por reconhecimento da modalidade que começou em 1979. Até essa data, as meninas eram proibidas de jogar futebol. No começo, as jogadoras não recebiam salários, apenas patrocínios. Muito diferente das norte-americanas, que, na década de 1970, já jogavam com regularidade o “soccer” nas escolas públicas e universidades.

Por isso, devemos ter mais respeito com a seleção brasileira feminina. Não é de hoje que a Rainha Marta, eleita seis vezes a melhor do mundo, grita aos quatro ventos por mais apoio. Houve uma melhora por imposição da Conmebol, que a partir deste ano exige que todas as equipes que disputam da Libertadores tenham times femininos.

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol), assim como a Rede Globo, só aparece na boa. Gostaria de ver a CBF organizando um Campeonato Brasileiro Feminino de verdade, colocando, por exemplo, os duelos nas preliminares dos jogos do masculino; gostaria de ver a maior emissora do país transmitindo as competições femininas e financiando os clubes, assim como faz com os times masculinos. Já seria um bom começo.

Não podemos deixar passar mais uma oportunidade. Isso já deveria ter iniciado em 2007 com o título do Pan no Rio. Mas, nunca é tarde. A geração da Marta, da Formiga e da Cristiane está saindo de cena e há necessidade de renovação. Vamos vê-las em ação apenas mais uma vez, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no ano que vem. A busca por novos talentos passa diretamente por investimentos pesados. Enfim, esperamos que os engravatados pensem o futebol feminino no Brasil com mais responsabilidade e acertem desta vez. Para o bem deste esporte.

Erivan Monteiro é jornalista e cronista esportivo

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