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Na descida do morro, brota uma esperança: como o esporte está transformando o Tatuapé

Caldeirão e Selam realizam projeto que é abraçado pelos moradores do bairro

No Tatuapé, o esporte é uma ferramenta de inclusão e representa esperança para as crianças do bairro

“Pegue a Benjamin e vai embora. No final da rua, você vai encontrar um posto da Polícia. Pergunta lá onde fica”.

Foi o que disse para mim um senhor, próximo à Igreja dos Frades, quando eu falei que tinha de ir ao campo de futebol do Tatuapé. Na realidade, confesso que não sabia sequer onde ficava o bairro, aqui em Piracicaba (SP). Acordei cedo, peguei a câmera fotográfica e o gravador, botei a mochila nas costas e saí de casa caminhando rumo ao incerto. É o que geralmente acontece quando o aplicativo de GPS não funciona como deve – ou quando a internet do celular acaba. As informações que eu tinha não eram as mais animadoras para um sábado de manhã: minha pauta seria em uma área de vulnerabilidade social, em local de acesso complicado e condição de vida precária. Não pense que eu não estava animado. Sabia do projeto que vinha transformando a comunidade.

“Existe muito amor ali. A comunidade está super feliz com a mobilização das crianças. Elas ganharam medalhas nos Jogos Comunitários. Você vai gostar”. As palavras do Rodrigo Weber, 41, me deixaram empolgado. Weber é treinador, bacharel em esporte pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em esporte de alto rendimento pela Academia Brasileira de Treinadores, vinculada ao COB (Comitê Olímpico do Brasil). Ele é técnico desde 2003 e coleciona conquistas em competições universitárias e categorias de base. Apesar do currículo recheado, a informação mais importante para nós é que ele coordena e gerencia o projeto.

De camiseta amarela, a professora Sônia é quem organiza as atividades do projeto no bairro Tatuapé

Depois de uma hora de caminhada, tempo que teria sido consideravelmente menor não fosse a minha capacidade de errar a rota, cheguei ao Tatuapé – não sem perguntar antes, em mais duas padarias, onde é que ficava o tal campo. Desci o morro e saí na cara do gol. Mais alguns degraus abaixo e lá estava o campinho de areia em que é desenvolvido o projeto do Caldeirão Futebol Clube em parceria com a Selam (Secretaria de Esportes, Lazer e Atividades Motoras) e com a associação de moradores. Não se engane: apesar das duas traves e do cenário quase perfeito para o futebol de várzea, o que rola ali é atletismo.

No Tatuapé, o projeto começou há cerca de quatro meses. O programa oferece aulas gratuitas da modalidade e é financiado pela Prefeitura de Piracicaba, atendendo as determinações do Marco Regulatório (Lei Federal 13.019/2014). As aulas, na teoria, são destinadas para crianças a partir dos 6 anos de idade. Na prática, além do público alvo, é fácil encontrar criancinhas de 4 ou 5 anos correndo para lá e para cá, querendo participar das atividades. “São mascotinhos”, brincou a professora Sônia. Na realidade, o projeto é aberto para a comunidade: os pais também estão presentes, incentivando e ajudando na organização, assim como a associação de moradores do bairro.

Na teoria, o projeto é para crianças a partir de 6 anos, mas há vários ‘mascotinhos’ no campinho de areia

Antes de falar sobre a Sônia, preciso escrever algo que eu soube apenas quando estava finalizando a pauta e me preparando para subir o morro – o que não é moleza. Quando descia as escadas para ir ao campo, notei que tudo estava organizado, impecável. Fiquei surpreso. Mais ainda quando descobri que, na véspera da reportagem, as crianças haviam se mobilizado para limpar o campo. Puxa. Convenhamos, elas não iriam receber uma reportagem especial. Não escrevo para um veículo mega popular. “Eles se sentiram muito prestigiados. O pessoal arrumou a casa para recebê-lo e mostrar que ali estão pessoas de bem”, contou Weber, com um belíssimo cruzado no estômago de qualquer tipo de preconceito.

A professora Sônia é Sônia Soledade, 48, educadora física que mora no bairro Jaraguá e conduz o projeto do Caldeirão. Pouco a pouco, cavou um espaço no coração da criançada. Tudo começou com a divulgação de cartazes nas escolas próximas. Foi assim que um folder chegou às mãos de dona Nena, que viu um número de telefone e entrou em contato com Rodrigo Weber. As conversas frutificaram e após algumas visitas ao Tatuapé, ele lançou uma semente em forma de convite. A professora Sônia aceitou. No início, dez crianças participavam das aulas. Hoje, são 35 alunos cadastrados. Para Sônia, dá para dobrar esse número. Além de fundamentos do atletismo, a metodologia inclui atividades lúdicas. A queimada, por exemplo, contagia geral. Jogos de damas, dominó e xadrez são utilizados para aprimorar o desenvolvimento cognitivo e facilitar a socialização.

“Antes de vir aqui, eu era muito nervosa. Depois que comecei, fiquei um pouquinho mais calma”, contou Rafaele, de 10 anos

“As crianças criaram um espírito coletivo. Veja como elas ficaram felizes com as medalhas que ganharam nos Jogos Comunitários. Agora, fomos convidados para disputar o Circuito Regional de Atletismo, em Campinas. Vai ser a primeira vez que eles irão competir fora da cidade”, relatou Sônia. A expressão de felicidade no rosto da professora é reflexo do que se vê nos rostos das crianças enquanto correm, lançam e saltam no circuito montado no campinho de areia. Naquele momento, eu não estava mais trabalhando; estava aprendendo com a pureza de cada sorriso. De repente, uma menininha, da altura da minha cintura, chegou perto de mim. Sem esperar ou merecer, ganhei um abraço. Congelei.

O Michael, 12, começou a treinar dois meses atrás, mas é abusado. No bom sentido. A Sônia preparou um exercício para ensinar o lançamento de martelo e ele garantiu que, arremessando do meio-campo, acertaria os pneus atrás do gol. Fiz um desafio: se errasse, ele pagaria dez flexões. Foi bem engraçado contar até 10 com a criançada, enquanto o Michael descia e subia o tronco franzino. “Eu gosto de corrida e de queimada, mas um dia quero ser jogador de futebol. O atletismo vai me ajudar a correr em linha reta, falam que dá coordenação”, afirmou. No Tatuapé, o esporte faz a meninada sonhar.

A professora Sônia apita e a meninada corre em disparada: no final, são todos vencedores

A Julia, 12, está no sétimo ano do ensino fundamental, mas quer ser corredora. Nem sempre foi assim. “Eu estava na casa da minha avó, que é aqui perto, e vi que estava tendo um evento. Desci para o campinho ver o que era. Gostei, faz quatro meses que estou aqui. Eu queria ser desenhista, alguma coisa assim, mas descobri que sou boa no atletismo e agora quero ser atleta. Acredito que o esporte ajuda as pessoas, aqui todos são amigos”, disse. A Rafaele, 10, que é fã de corrida curta, vai ainda mais longe: quer participar das Olimpíadas. Ela revelou também que o esporte mudou sua personalidade. “Antes de vir aqui, eu era muito nervosa. Depois que comecei, fiquei um pouquinho mais calma”.

Enquanto a molecada se diverte, os pais observam na beira do campo. São vários testemunhos sobre o impacto transformador que o projeto do Caldeirão, entrosado com a associação de moradores, levou para a comunidade. “Ela era muito tímida, agora com o esporte está mais desenvolvida. Foi uma surpresa ela ficar em primeiro lugar no dominó nos Jogos Comunitários, a gente não sabia que ela tinha essa habilidade”, admitiu a funcionária pública Salvina Esteves, 49, mãe de Isabela, 8. “O esporte ajuda em todos os aspectos. Sou da associação dos moradores e vejo o que esse projeto está trazendo de positivo para a comunidade. Eles ajudam a cuidar do ambiente, participam da limpeza. A comunidade abraçou isso”, declarou.

As crianças saltam sorrindo porque não estão apenas se exercitando: estão vivendo uma esperança

O pintor Marcos Ferreira, 42, é pai de Marcos, 7, que participa do projeto há dois meses. Ele encontrou mais um ‘curioso’ benefício que a atividade oferece. “Como o meu filho está gastando mais energia, dá um pouco mais de sossego em casa (risos)”, brincou o pintor, antes de falar sério. “O esporte ajuda a tirar as crianças das ruas. O Marcos gosta muito. Nós somos do bairro e o campinho é o único lazer que nós temos. A molecada se sente bem e as famílias também passaram a se conhecer mais, estamos fazendo amizade. O esporte proporciona o bem-estar. Não sou fã de política, mas é um projeto da prefeitura que nós temos que elogiar. Espero que continue assim”, disse.

Atualmente, as aulas acontecem às sextas-feiras, das 16h30 às 18h, e aos sábados, das 9h30 às 12h. De acordo com a professora, é apenas o começo de um trabalho que busca o desenvolvimento da modalidade, aliado à inclusão social. O esporte é a ferramenta que conecta os dois objetivos. “Aqui, o esporte representa uma chance de ter um futuro. Dá para perceber a evolução, principalmente na parte de coordenação motora. O caminho é esse”, afirmou. “Para eles, é motivador. Para mim, é gratificante”, complementou Sônia. Para nós também, professora.

Os pais e a associação de moradores do bairro têm papel fundamental para consolidação do projeto

*Texto e fotos: Leonardo Moniz

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