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Futebol

‘Jogo pelo meu filho, pelo sonho da minha família’

Érison, atacante do XV de Piracicaba, relata experiências dentro e fora de campo

*Capa: Elcio Fabretti

“Eu não ligo muito para o que dizem ou o que pensam. Já joguei no meio da favela e lá a pressão é gigante. Lembro que fiz dois gols numa semifinal pelo Vila Nova, contra o Morro, lá em Cosmópolis. Fui comemorar na torcida do Morro e miraram o rojão em mim, tive de sair correndo. Muitos que falam de nós, não sabem quem somos. O que a gente já passou, poucos conhecem. Normal. Para entender a batalha de um jogador, tem que sentir na pele. Emocionalmente, é difícil demais. A verdade é que você precisa estar focado 100% no trabalho para aprender, caso contrário, não aprende. Por isso, escuto muito, sei que tenho muito para aprender.

Nasci em Campinas, mas desde pequeno vivo em Cosmópolis. Fui criado apenas pela minha mãe. Nunca tive contato com meu pai, ele não foi presente desde que nasci. Em casa, sou o mais velho de cinco irmãos – tenho dois irmãos e duas irmãs, todos mais novos. Desde molequinho eu gosto de jogar bola, velho. Minha mãe conta que quando eu era criança, me levava ao mercado e eu sempre ia com a bola. Sem bola, eu ficava bravo. Gostava tanto de futebol que tenho uma cicatriz no lado esquerdo do rosto da época que era garoto. Lembro que a bola caiu do outro lado de uma cerca e eu fui pegar, mas tinha um cachorro que veio me morder. Aí, minha mãe foi tentar me puxar e eu rasguei o rosto…

Érison chegou ao XV de Piracicaba no fim de 2017 e foi artilheiro na base do clube (Foto: Michel Lambstein)

Sempre gostei mais de bola do que os outros garotos. Não tinha preguiça de jogar, saía da escola e já estava na rua de casa ou no campinho. Com o tempo, comecei a fazer algumas peneiras: Portuguesa, fui para Ponte Preta como lateral-esquerdo, Novorizontino e Mogi Mirim me dispensaram, também não deu certo no Grêmio Barueri… A verdade é que não tive base. O primeiro lugar que eu pude aprender como funciona o futebol foi no XV de Piracicaba, e isso que cheguei já no sub-20. Cheguei no fim de 2017. Estava jogando na várzea da minha cidade, a Copa Internacional, que é um dos campeonatos mais chamativos. Uma pessoa me viu e pediu para o Lê, que é o meu empresário, para fazer mais uma avaliação. Nesse teste que eu fiz, fui bem e acabei parando na Inter de Limeira. Fiquei duas semanas lá, eles queriam continuar comigo, mas apareceu o XV e decidimos que era o melhor caminho para mim. O XV é maior.

Na época, o técnico era o Diego Favarin, que gostou de mim. O Diego me chamou para conversar, me explicou como funcionava e disse o que ele queria. Ele me cobrava bastante (risos). No começo, foi muito difícil para mim, porque eu nunca tive isso, essa questão da disciplina de atleta. Eu ficava olhando os companheiros fazerem as atividades antes para aprender e ir aprimorando. Agora, uma coisa eu deixo claro: sempre fiz o máximo que pude para poder melhorar domínio, finalização, os passes, a movimentação… Nunca dei menos do que 100% nos treinamentos. Eu sou chato, não tem bola perdida nem nos treinos.

‘Minha infância foi humilde, mas nunca reclamei. Vi a batalha da minha mãe. Um dia, vou dar uma casa para ela’

Mas, o começo no XV de Piracicaba não foi simples. Fiquei dois ou três dias e decidi voltar para minha casa. Falei para minha mãe que não queria mais jogar bola, que futebol não era o que eu pensava. O Diego veio atrás de mim, meu empresário me ligou e eles conversaram comigo. Voltei. Cara, lembro que no último dia das inscrições para a Copa São Paulo, o Ramon (Bisson, coordenador de futebol do XV) estava indo para São Paulo e teve de me encontrar na pista para eu assinar os documentos e jogar (risos). O Diego me ligou na resenha e me convenceu a voltar. Depois disso, nunca mais quis sair.

Aos poucos, ganhei meu espaço. Fui o artilheiro do XV nos dois últimos anos no Paulista Sub-20. Em 2019, fiz minha estreia no profissional contra o Nacional na Série A2. Agora, em 2020, estou recebendo mais oportunidades e sei que preciso aproveitar bem. O gol que fiz contra o Atibaia me deixou muito feliz. Entrei no final e o Daniel (Costa, meia) colocou uma bola que não tenho nem o que falar, foi fenomenal. Veio na minha cabeça, certinho, e eu só tive o prazer de empurrar para dentro mesmo. Foi uma puta sensação boa.

O primeiro gol profissional de Érison foi marcado na vitória sobre o Atibaia (Foto: Gustavo Muniz)

Depois, teve o jogo contra o Red Bull. A gente estava ganhando por 2×1, o Giba (Gilberto Alemão) fez o gol, mas o Kadu tinha sido expulso. Com um homem a menos, eu sabia que tinha que ajudar na marcação. Corri, heim? No último lance, quando o Mota ‘quebrou’, eu sabia que a bola viria pra mim. Arranquei e vou te contar: quando o goleiro do Red Bull saiu, pensei em encobrir, mas na minha memória veio o lance do Bruninho contra a Inter de Limeira, decisão do acesso, que ele cavou e o zagueiro tirou em cima da linha. Pensei nisso naquele instante e chutei por baixo, forte. Aí eu já meti um ‘Gabigol’ para comemorar. É um cara que eu admiro muito, canhoto e forte. Pra mim, é o melhor atacante do Brasil.

Contra o Juventude-RS, na Copa do Brasil, foi uma experiência enorme. Foda. O Mancha (Caio, atacante) sentiu e eu entrei no primeiro tempo. Teve um lance do jogo em que eu dei um bico na bola e o juiz disse que iria me amarelar se eu desse outro bico. Fiz isso e ele me amarelou. Depois, ele disse que eu mandei ele tomar no cu, ir para casa do caralho. Velho, não foi o que eu falei. Eu disse que ele estava de sacanagem e ele me deu o vermelho direto. Veio outro filme na cabeça, fiquei imaginando o quanto eu tinha prejudicado a equipe, estava muito nervoso. Entrei no vestiário e fiquei rezando sozinho. Eu sei que quando foi para os pênaltis, poderia ter ajudado a decidir antes de chegar nos alternados. Fiquei muito mal.

No dia seguinte, minha mãe me ligou e conversou comigo, os companheiros também me deram muito carinho. O Tarcísio (Pugliese, técnico) foi fora de série, cara. Ele é uma das melhores pessoas que apareceu em minha vida. O Tarcísio me falou para esquecer, que eu deveria me concentrar para fazer o melhor pelo XV. Ele me deu força demais e me escalou para começar jogando a partida seguinte. Lembro que ele me deu confiança e também quando ele falou que eu estava decidindo jogos e que isso não era a minha obrigação. O Tarcísio ajuda demais a gente que vem da base: Adame, David, Muriel, Samuel…

Érison entrou em campo acompanhado pelo filho, Pietro Miguel, contra o Sertãozinho (Foto: Elcio Fabretti)

E aí veio o jogo contra o Sertãozinho, o meu primeiro como titular. Entrei no campo com o meu filho, o Pietro Miguel, que vai fazer um aninho agora, no dia 7. Que sonho realizado, cara. Eu jogo por ele. Quero ser para ele o pai que eu não tive. Falo com o meu filho todos os dias, trabalho para dar uma vida melhor para ele, uma vida que eu não tive. Minha infância foi humilde, mas eu nunca reclamei. Vi a batalha da minha mãe, o quanto ela lutava sozinha. Um dia, eu ainda vou dar uma casa para ela. Meu sonho é esse. Ela foi faxineira, trabalhava do que podia para nos ajudar. As vezes, deixava de comprar coisas para ela e para casa, para me dar uma chuteira, porque no começo eu treinava de tênis. Eu ficava muito feliz. Minha mãe é a melhor pessoa do mundo e eu quero devolver o que ela me deu.

O meu maior sonho, sem dúvida, é o sonho da minha família, do meu filho. Faz cinco anos que estou junto com minha esposa, comecei a namorar aos 15 (risos). A gente se envolveu, ela é de Cosmópolis. Quando tive de vir para cá, ela ficou triste, mas entendemos que o futebol tem essa distância. O futebol exige sacrifícios, isso eu aprendi rápido. Mas, fica mais fácil quando você convive com um grupo muito forte, muito unido mesmo. Estou 100% feliz e focado no XV. A gente vai chegar esse ano, temos tudo para conquistar o acesso. O que já pensei no gol do acesso… Não faço ideia de como iria reagir. Antes de dormir, sempre penso nisso. Quem sabe?”

Érison, atacante do XV de Piracicaba

A relação de Érison com a bola rendeu uma cicatriz no lado esquerdo do rosto (Foto: Leonardo Moniz)

Érison Danilo de Souza, 20 anos, é atacante do XV de Piracicaba

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