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IPM encerra atividades após 16 anos: ‘Missão cumprida’

Magic Paula publica carta emotiva sobre ciclo completado pelo Instituto Passe de Mágica

Instituto Passe de Mágica - Tiro de Guerra
O Instituto Passe de Mágica foi criado em 2004 (Foto: IPM/Divulgação)

Em carta emocionada, divulgada na última quarta-feira (23) nas redes sociais, a medalhista olímpica e campeã mundial de basquete, Magic Paula, anunciou o encerramento das atividades do Instituto Passe de Mágica, associação sem fins lucrativos fundada por ela em 2004. Foram 16 anos de atividades voltadas para crianças e adolescentes, utilizando o basquete como ferramenta para o desenvolvimento humano. O IPM gerenciou o total de sete núcleos, dois deles em Piracicaba – Tiro de Guerra e Vila Sônia. O conhecimento adquirido ao longo de quase duas décadas de trabalho será compartilhado através da cartilha digital ‘Metodologia Passe de Mágica’, que detalha estratégias e procedimentos utilizados, e será disponibilizada para download gratuito no site www.passedemagica.org.br. Confira abaixo a mensagem publicada por Magic Paula:

“Eu não saberia dizer qual foi o momento exato, mas tudo começou quando passei a me questionar em relação à aposentadoria e estava me preparando para fazer a transição de carreira. Na época, estava sentindo falta de minha vida pessoal, cansada, estressada, queria voltar a ser dona do meu próprio nariz. Não queria ser técnica, não queria estar envolvida em equipes competitivas, não queria ter a vida que eu tive como atleta. Mas, aos 38 anos de idade, passei a sentir que estava na hora de me preparar para a aposentadoria e ao mesmo tempo tinha a necessidade de retribuir o que o esporte me ofereceu. Ir embora para casa, simplesmente, era muito pouco. Eu não poderia deixar morrer o que o esporte me ensinou.

‘Acho que a pessoa Paula é melhor do que foi a jogadora, sobretudo pelo que aprendeu com o esporte’

Sou uma pessoa abençoada, pois todas as minhas escolhas sempre atrelaram paixão e responsabilidade. Na vida, há momentos em que inspiramos e outros em que somos inspirados. Enquanto jogadora, eu acompanhava muito a carreira do Senna. Não tinha fanatismo pelo piloto, minha admiração era muito mais pelo que ele representava para nós, pela postura, filosofia e resiliência, pela forma como ele conduziu a vida. Nesse momento, o Senna foi uma grande inspiração. O Instituto Ayrton Senna foi a maior referência. Eu sabia que não poderia fazer algo da proporção que ele fazia, faltava recurso para isso, mas comecei a pensar. E confesso que pensei bem pequenininho.

A princípio, a ideia do projeto era trazer as jogadoras que não tinham se preparado para o pós-carreira, que viviam com certa dificuldade, e mostrar o esporte para a molecada da mesma maneira que ele foi apresentado para nós. Começamos de uma forma muito empírica. A Branca, minha irmã, que também foi atleta de ponta, me ajudou bastante em um primeiro momento. Eu me perguntava: ‘O que o esporte me trouxe?’ Não vieram à cabeça os títulos, nem o fato de viver profissionalmente dele. A resposta era o aprendizado. Eu queria que as crianças brincassem, que elas entendessem o potencial do esporte como valor. Eu lembro de muitas meninas que começaram comigo no basquete e seguiram outros caminhos. Tenho certeza de que o esporte ensinou muito para elas também. Existe uma bifurcação no caminho e você precisa decidir, ou alguém decide por você, se tentará ser atleta de ponta ou não. Esses valores, no entanto, estão intactos em qualquer rota.

O IPM gerenciou sete núcleos, dois deles em Piracicaba: Tiro de Guerra e Vila Sônia (Foto: Divulgação)

Achava que bastava ir para uma quadra e desenvolver um trabalho com o que tinha vivenciado no esporte, mas sem pensar em uma metodologia nessa época. Simplesmente que as atividades por si só seriam de muito aprendizado. Não é assim. A responsabilidade é enorme. É social, mas funciona como uma empresa. Fomos aprendendo com o tempo e, na minha cabeça, o objetivo era chegar a seis núcleos num raio de 150 km de Piracicaba. Seis, porque esse era o limite para que eu pudesse participar de verdade do projeto, acompanhar, estar presente. Nunca quis uma espécie de franquia, optei por estar junto. O trabalho com número reduzido é por isso também: nosso projeto teria qualidade, teria presença humana, todos se conheceriam. E foi assim que fizemos.

A vida é um jogo e a função que eu tinha em quadra migrou comigo para fora dela. No basquete, como armadora, eu fazia a equipe jogar e, então, assumimos a missão de fazer as pessoas entrarem neste jogo e se movimentarem. Tudo isso aconteceu de um jeito natural e a verdade é que começou antes mesmo da minha carreira. Na memória, tenho muito clara a imagem dos meus pais, Sr. Beto e dona Ilda, ajudando as entidades em Osvaldo Cruz, cidade em que nasci. Eram almoços, bingos, feijoadas, festas, rifas… Deixa eu contar: a primeira vez que vi uma bola de basquete entrando em uma cesta foi quando eu acompanhei minha mãe em um curso para merendeiras da Prefeitura de Osvaldo Cruz. Ela ficou em uma sala de aula e eu fui para quadra. Havia uma professora lá, sozinha, brincando de arremessar. Eu gostei daquele movimento da bola passando pela redinha e foi aí que tudo começou. Me apaixonei.

‘Temos que cuidar das crianças e ir aonde elas estão. Foi isso que o Instituto Passe de Mágica fez nos últimos 16 anos’

Saí muito cedo de casa, aos 12 anos, e só fui conviver próxima aos meus pais novamente aos 17, 18 anos. A lembrança era muito forte sobre o voluntariado, mas nunca eles me falaram que eu deveria ajudar instituições. Era a força do exemplo, não da fala. Quando parei de jogar, o terceiro setor brilhou aos meus olhos, talvez porque eu conseguiria dar sequência ao que me trouxe enorme prazer enquanto atleta: a assistência. A tarefa era de colocar todos no jogo e, neste jogo, fazer com que todos pudessem vencer sem precisar ser o melhor. E assim fizemos com meninas e meninos de 7 a 17 anos, em sete núcleos instalados em Piracicaba, Diadema e São Paulo. Foram mais de 11 mil atendidos, mais de 11 mil histórias.

Amadurecemos como projeto. No início, era como se fôssemos jogadoras mirins, apaixonadas, inocentes e sem experiência. Mas, costumo brincar que tenho o feeling apurado: sempre tive sorte com as pessoas com quem trabalhei e sigo trabalhando, e isso nos ajudou muito a crescer. Na base da intuição acertamos, e também aprendemos na maioria das vezes quando erramos. Construímos uma equipe que evoluiu, que aprendeu a se posicionar sem perder a filosofia e que trouxe uma cara mais profissional ao que fazíamos. Tivemos uma sede, nossos profissionais estavam formados e capacitados, apaixonados pelo ser humano, e assim aprimoramos a gestão.

Como no início da minha carreira de atleta, eu acredito que meus pais foram os meus maiores incentivadores quando pensei em trabalhar na área social. Eu sei que o exemplo e a iniciativa têm muito do que para nós representava o nosso cotidiano familiar, mas fomos além do que esperávamos. No basquete, eu jamais imaginava que pudesse ser uma mulher que viveria do esporte, conquistar o que conquistei, viver o que vivi, virar referência no meu país, ajudar a mudar a historia do basquete feminino do Brasil. Com o projeto foi assim também: referência de profissionalismo, comprometimento, coragem, equidade social, ética, excelência, respeito e transparência. São nossos valores e esse é o legado que vamos deixar.

Nestes últimos anos nos preocupamos em resgatar os alunos que passaram pelo projeto, fizemos um trabalho chamado ‘O Jogo Continua’ e entrevistamos essa molecada que passou pela gente para saber o que trouxe para a vida deles. É algo que vinha muito na minha cabeça quando comecei: não queria saber onde estavam jogando, mas o quanto o trabalho foi transformador em cada vida. Foi incrível. Temos depoimentos de meninas e meninos, hoje adultos, que relatam o quanto fomos importantes na formação do caráter. É isso que deixa a gente feliz, pois nossa preocupação sempre foi com o desenvolvimento humano.

Instituto Passe de Mágica - Tiro de Guerra

A roda de conversa é característica do projeto: momento de aprendizado e reflexão (Foto: Divulgação)

Talvez, a minha missão nessa vida não tenha sido vir aqui para educar um, dois ou três, mas para criar muita gente bacana, do bem, de aprender o que é a vida através do esporte. São muitos filhos. Vamos deixar uma marca, um carimbo. Não tenho dúvidas disso. E foi essa convicção que nos levou a disseminar todo o nosso aprendizado. A necessidade de que mais pessoas bebessem desta fonte de conhecimento sempre esteve no nosso DNA. Difundimos a metodologia e isso pode ser um novo caminho daqui para frente. Sentimos essa responsabilidade da mesma forma como sentimos o amor das crianças pelo brincar, pelos educadores, pelo espaço, pelo que representava. Isso me deixa realizada, com a sensação de missão cumprida. Acho que a pessoa Paula é melhor do que foi a jogadora, sobretudo pelo que aprendeu com o esporte. Não foi fácil, nunca. Foram quatro anos antes do início do trabalho para encontrar pessoas que acreditassem no nosso sonho. Neste caminho, pessoas maravilhosas nos ajudaram a tornar este sonho realidade, a construir e concretizar, apoiando o projeto.

É um ciclo que se completou, pois cresceu mais do que imaginávamos. O ideal seria ter recurso direto, próprio, e isso está cada vez mais difícil. A luz acendeu em 2017, quando quase tivemos que cortar metade do projeto por falta de recursos. Isso nos preocupou muito e não queríamos que tudo terminasse de repente, como uma lesão que interrompe uma carreira. De lá para cá, viemos nos preparando para esse momento. Foi planejado, assim como aconteceu comigo ao deixar as quadras no basquete. Fui eu que escolhi, que me preparei para esse momento. Não escondo que é uma decisão que me deixa triste, mas é necessário. Foram várias reuniões para tomar a decisão de encerrar este ciclo e o apoio foi unânime de todos envolvidos com o projeto. Foi difícil, mas está bem resolvido em meu coração. Foi mais uma etapa bem sucedida e prazerosa.

Muita gente foi importante nesse trabalho e não posso esquecer de quem participou da diretoria, dos conselhos, dos apoiadores, dos voluntários que emprestaram o nome e a capacidade para o projeto. Amigos, educadores que foram fundamentais, além das crianças e jovens que tenho certeza que saíram melhores do que entraram. Todos, sem exceção, foram muito especiais. Se o nosso time jogou bem, é porque todos cumpriram bem seu papel.

Por fim, deixo uma sugestão para as gestões públicas: essa parceria entre o esporte e a área social é muito importante. A gente quer mudar uma cidade, mudar um país, e eu acredito muito no esporte para esta transformação. As ONGs cumprem bem este papel que seria do poder público, mas falta estabilidade. É como no esporte: você nunca sabe se vai ter um time para jogar no ano que vem, se vai ter patrocínio, se vai continuar jogando. É desgastante, mas é um trabalho lindo, apaixonante. Infelizmente, nós ainda não descobrimos no Brasil o valor que o esporte tem como ferramenta de transformação.

Temos que cuidar das crianças, temos que ir aonde elas estão. Foi isso que o Instituto Passe de Mágica fez nos últimos 16 anos. Sempre com amor.

A todos que me ajudaram de alguma forma fazer o mundo um pouco melhor, obrigada”.

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