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Iluminada, atleta supera dor e brilha em quadra

Maiara Santos, de Piracicaba, 'contorna' o diabetes e faz planos para Superliga

Maiara Santos, capitã e levantadora da equipe feminina de vôlei da Apiv
Maiara está empolgada com a chance da Apiv disputar a Série B da Superliga (Foto: Líder Esportes)

A Apiv/Amhpla/Unimep/Selam vai disputar a Série B da Superliga pela primeira vez, mas o trabalho iniciado em 2002 pela Associação Piracicabana de Voleibol atravessa os limites da quadra. A levantadora Maiara Santos, de 27 anos, é testemunha da seriedade do projeto liderado pelo presidente do clube, Nelson Brenelli. Capitã da Apiv, Maiara nasceu em Sabará (MG), mas começou a jogar vôlei aos 13 anos em Contagem (MG). A atleta chegou a Piracicaba em 2009, após chamar a atenção quando defendia Limeira. Na primeira passagem pela Apiv, a levantadora ficou dois anos na equipe. Maiara retornou em 2014 e segue na equipe desde então. Na bagagem, a jogadora carrega inúmeras histórias para contar.

Maiara Santos chegou a Piracicaba em 2009 e deixou o clube após duas temporadas, mas voltou em 2014

Maiara é diabética e descobriu a doença em 2008, logo após receber o convite para jogar pela Apiv. “Quando Piracicaba me ligou, eu tinha acabado de descobrir o diabetes. Eu queria jogar aqui e fiquei com medo de não me aceitarem pela doença. Fui sincera e o clube gostou da minha sinceridade e me trouxe para cá assim mesmo. Minha família estava com medo, mas consegui um suporte muito legal”, disse a levantadora. Depois de dois anos em Piracicaba, a atleta rodou pelo país: jogou a Superliga por São Caetano, foi para Bauru disputar o Campeonato Paulista, viajou para Rio do Sul-SC participar de outra Superliga, defendeu Volta Redonda-RJ nos Jogos Abertos e voltou para São Paulo para vestir a camisa de Assis em mais um Estadual. Em junho de 2012, a doença fez ela dizer basta.

“Parei pelas dificuldades, o quadro estava difícil, eu estava psicologicamente muito abalada porque o diabetes, é uma doença chata de tratar. Senti muito as restrições e estava longe de minha família. Não consegui lidar com isso e dentro da quadra, eu não estava rendendo. Desisti. Quando fiquei parada, comecei a sentir aquela depressão pela saudade do vôlei, não via os jogos pela TV e chorava muito. Sentia impotência, não conseguia me sentir importante dentro do esporte”, contou a atleta. Apegada à fé, Maiara lembra com detalhes da oração que fez em casa em um sábado à noite. “Pedi a Deus para me abrir uma porta”. O pedido foi atendido na segunda-feira seguinte com um telefonema. O técnico Zeca estava no outro lado da linha.

“Isso aconteceu em junho de 2014, exatamente dois anos depois de eu parar. Quando recebi o convite, não pensei duas vezes. Eu falei: ‘Tem dois anos que não toco em uma bola de vôlei, você deve imaginar, então, como estou técnicamente (risos)’. Não sei se em todos os lugares funciona assim, mas jogar em clube grande, com alto investimento, limita o vínculo e deixa tudo muito ‘profissional’. A Apiv tem dificuldades, mas é uma família. Todos fecham juntos para o mesmo lado”, comentou a atleta.

Maiara é grata pela confiança que a comissão técnica depositou nela. Confiança e paciência. Do ponto de vista técnico, os primeiros seis meses após o retorno ao voleibol foram os mais difíceis da carreira dela. “Parecia que eu nunca tinha jogado”, contou. Com a saída de duas levantadoras do elenco, Maiara logo virou titular no Campeonato Paulista. A falta de ritmo ficou clara: foram 15 ‘dois toques’ na reestreia. “Graças a Deus, o jogo foi fora de casa e ninguém aqui viu (risos)”. A retomada dos treinamentos gerou diversas lesões por sobrecarga. “O segundo semestre de 2014 foi de choque pelo retorno, readaptação. Já em 2015, consegui treinar bastante, a comissão técnica me deu todo o suporte e, mesmo ficando um bom tempo sozinha na posição, fiz um ano muito bom”, comentou.

Maiara Santos, capitã e levantadora da equipe feminina de vôlei da Apiv

Após a readaptação ao esporte em 2014, Maiara Santos voltou a jogar bem na última temporada (Foto: Líder Esportes)

BATALHAS

Além da batalha para recuperar a técnica, Maiara travou simultaneamente a guerra pela própria vida. O episódio mais dramático ocorreu em outubro de 2014, fruto de um problema no intestino. Após ir ao hospital e receber medicação, ela voltou para casa com o atestado médico que a vetava do treinamento. O problema é que o remédio estimulava o sono e todo diabético que não se alimenta antes de dormir corre o risco de hipoglicemia. Maiara ficou sozinha em casa naquela tarde, pois as colegas haviam saído para treinar. Ela dormiu e quase não acordou mais: quando abriu os olhos, estava na UTI.

Maiara precisou ‘brigar’ na Justiça para conseguir a insulina necessária para o tratamento do diabetes

“Eu acordei e vi o Zeca ao lado da maca e ele me explicou tudo. Fiquei uma semana internada. As meninas voltaram para casa após o treino e me encontraram em cima da minha cama toda rígida, pernas duras, esticadas. Eu estava convulsionando, rangendo os dentes, bastante suada. Elas ficaram desesperadas, não sabiam o que fazer. Graças a Deus, um amigo nosso tinha dado carona para elas. Me colocaram no carro com o tronco para dentro e as pernas para fora do vidro, porque elas não dobravam. Cheguei ao hospital em coma e logo fui transferida para a UTI. Acordei somente depois de todo o procedimento”, relatou Maiara.

A levantadora também já lutou contra a burocracia. Em 2015, ela travou uma batalha contra o governo para conseguir a insulina utilizada no tratamento atual – o hormônio que a atleta consumia antes desencadeava crises de hipoglicemia e o resultado foram várias visitas inconscientes ao hospital. “Minha saúde estava completamente em risco e eu não estava em condições de treinar. Ano passado, eu estava indo apenas para os jogos e cheguei a ficar vetada de treinar por causa deste problema. E, para piorar, na época dos Jogos Regionais, tive um problema de redução da sensibilidade nos pés, por causa do tratamento insuficiente. O diabetes ataca o sistema nervoso. Torci o pé nos Jogos Regionais e na hora de tratar, percebi que não estava sentindo”, afirmou.

Maiara entrou com ações solicitando a insulina para as secretarias de saúde de São Paulo e Minas Gerais. Enquanto os processos corriam na Justiça, ela arcou com o medicamento e a Apiv ajudou a dividir os custos. A secretaria paulista negou o pedido, mas em janeiro deste ano, a Pasta de Minas Gerais acatou a solicitação. “Agora eu ganho as insulinas todo mês. Voltei a treinar normalmente e não tive mais crises. Graças a Deus, que sempre colocou pessoas incríveis como são todos que fazer parte do projeto da Apiv, as colegas de quadra e, claro, a família maravilhosa que tenho”, disse a levantadora, em tom de alívio.

A preocupação da atleta, agora, é com o trabalho em quadra. A temporada 2016 está apenas começando e, no final do ano, a capitã da Apiv terá pela frente o maior desafio que já enfrentou defendendo Piracicaba: a Série B da Superliga. E ela garante estar preparada. “A comissão técnica trabalha para como se todo treino fosse véspera de final de Liga Mundial. A filosofia é essa. A oportunidade de jogar a ‘Liga B’ é inédita para a cidade e, na minha opinião, a Apiv é merecedora. Todo mundo que passou por aqui sempre lutou por essa chance. Estamos muito felizes, trabalhando seriamente, como sempre, mas é claro que saber que a oportunidade chegou, sem dúvida, dá uma motivação extra”, completou Maiara.

Maiara Santos, capitã e levantadora da equipe feminina de vôlei da Apiv

Além do trabalho em quadra, Maiara destaca o caráter humano do projeto Apiv: ‘É uma família’ (Foto: Líder Esportes)

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