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Ídolo de verdade

*Capa: Claudinho Coradini/JP

No futebol, a palavra ídolo geralmente é banalizada pela necessidade de criar divindades, super-heróis da bola. Mal chegou a Paris, e os jornais anunciaram Neymar como novo ídolo do PSG. Não faz qualquer sentido. No dicionário, define-se ídolo como “pessoa ou coisa intensamente admirada, que é objeto de veneração”. Para conquistar a admiração intensa, convenhamos, é preciso criar uma história, identificar-se a ponto de representar no campo o que o torcedor idealiza na arquibancada. O XV de Piracicaba é privilegiado neste aspecto.

André Cunha, ídolo de verdade, não fabricado, colocou o XV na semifinal da Copa Paulista. Aos 38 anos, corre como quando tinha 31, idade em que começou a construir a própria história no Barão da Serra Negra. Na época, foi fundamental para recolocar o clube na elite do futebol estadual após 17 anos de ausência. Foi um dos ‘caciques’ do vestiário na Série A2. Ganhou respeito pela postura e, óbvio, pelo bom futebol. No Paulistão, em 2012, começou bem, mas um pênalti desperdiçado em Jundiaí foi o prenúncio do calvário particular que viveu.

Não voltou ao time titular com Estevam Soares; foi afastado do grupo por Sérgio Guedes. Depois, foi ‘convidado’ a treinar em horário separado. Nunca reclamou, não forçou a barra para sair e, segundo publicaram os jornais da época, foi forçado a deixar o clube pela porta dos fundos. Nos sete anos que ficou longe, não manifestou qualquer sentimento negativo em relação ao XV; pelo contrário. André Cunha nunca escondeu que gostaria de voltar. De 2013 a 2017, sua ligação com o clube (leia-se com os torcedores) aumentou. É verdade que o meia contou com um pequeno-grande aliado no período: Bernardo, seu filho, apaixonado pelo XV.

De qualquer forma, não foi fácil o retorno: pesou a opinião pública. A negociação foi confusa, mas vingou pela insistência. André Cunha estreou no segundo tempo de uma partida em que o XV perdia em casa para o Velo Clube, por 2×1. Era o terceiro jogo sem vitória, a segunda derrota seguida. André Cunha mudou a equipe. Veja o quanto ele gesticula para orientar os colegas, como arredonda o jogo. O triunfo por 3×2 deu início à sequência de dez jogos de invencibilidade. Contra o São Caetano, qualquer coisa que se fale, não será novidade.

André Cunha convence pelo comprometimento. Aos 38 anos, insisto, é exemplo para os jovens, agregador para o vestiário, porto seguro para o treinador e espelho das arquibancadas. Não é rasgar seda; em dez anos cobrindo o clube, não vi nenhum atleta deixar tão claro o quanto queria jogar aqui. O XV precisa cuidar do André Cunha. Útil, ele prova a cada dia que é. Pela história que construiu, tem o direito de ser respeitado. A idolatria é para elegidos e, para André Cunha, cabe perfeitamente. Que grande é a sorte do XV, que, hoje, tem um ídolo de verdade.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do LÍDER

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