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Opinião

Grandes histórias!

*Capa: Ale Vianna/Juventus

Gosto muito do futebol das divisões menores, em especial das de São Paulo. Aprecio muito a força de vontade e o sonho de vencer desses jogadores, que atuam em campos com condições precárias, com estrutura quase inexistente em seus clubes, além dos salários baixíssimos. A maioria recebe apenas um salário mínimo na carteira de trabalho. Quando falo a amigos que prefiro um jogo entre Catanduvense e Bandeirante, por exemplo, pela Quarta Divisão do Campeonato Paulista, a uma partida da Liga dos Campeões ou a um duelo de um campeonato europeu, eles dizem que eu só posso estar brincando.

Mas, não estou. Além do espetáculo em si, o “futebol raiz” também traz o extracampo: as histórias, os “causos” dos torcedores fanáticos pelos times de suas cidades, a hospitalidade… Também existem os bastidores, com as aventuras e as “loucuras” que os jogadores fazem em nome do sonho de se tornarem famosos correndo atrás de uma bola. Uma vez, quando trabalhava em uma emissora de rádio em Guarulhos, lá em 1996, ainda no meu segundo ano de faculdade de jornalismo, fui viajar com os jogadores da AD Guarulhos, que foi a Marília para uma partida contra o time local, pelo Campeonato Paulista da Série A3.

Tinha noção de quanto os atletas recebiam, mas conversando com o goleiro Cristiano, da AD, fiquei pasmo: ele me disse que aquele seria o último jogo dele. Após o duelo derradeiro, Cristiano iria abandonar o futebol para trabalhar como cobrador de ônibus. Eu achei estranho, mas ele me disse: “como cobrador, eu ganho quase o dobro”. Nem quis saber quanto ele recebia de salário, mas calculei que não era muito. Em Batatais, onde fui também como repórter, peguei amizade com o preparador físico do time da casa, que me convidou para almoçar antes do jogo.

Entre uma garfada e outra, ele contou-me a história da final do Paulista da Segunda Divisão de 1949, que dava o acesso à Primeira Divisão. O Batatais, que “era o favorito”, nas palavras dele, teria sido “roubado pelo Guarani” na decisão, realizada no Pacaembu, e perdeu aquela que seria a chance inédita (e única) de subir à elite do futebol paulista. Outra característica muito interessante que o estádio Dr. Oswaldo Scatena, do Batatais, tinha (ou não tinha) era o fato de que os torcedores, para tomar um aperitivo ou comer um lanche, tinham de sair da “arena” e para comprar no bar mais próximo.

Para voltar ao estádio, era só mostrar o canhoto do ingresso. Muito simples e rápido! E outro aprendizado que tive: Batatais tem de tudo, menos batatas. E os nomes dos clássicos do interior? O piracicabano recorda com muito saudosismo do “Clássico dos 30”. Uma pena que o xará de Jaú esteja em baixa atualmente, apenas na Segunda Divisão. O melhor, porém, é o clássico Come-Fogo, que divide a torcida de Ribeirão Preto.

O mais recente que descobri e que também acho muito legal é o nome do clássico paulistano entre Juventus e Nacional, ambos atualmente na A2: é o clássico “Juvenal”. O povo é criativo mesmo! Pra quem acha que o futebol se resume a Barcelona, Real Madrid, Juventus e Bayern de Munique, é bom saber que o futebol paulista do interior está muito vivo. E é um programão que recomendo para quem gosta do maior esporte do mundo. A satisfação e as histórias são garantidas!

Erivan Monteiro é jornalista e cronista esportiva

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