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Dores da obesidade

Dores da obesidade - Cassiano de Santis

Qual a parte mais difícil de estar acima do peso ou obeso?

Algumas pessoas podem pensar em indisposição, fadiga ou falta de ar diante de tarefas simples, dores nas costas e nos joelhos ou outros problemas de saúde. Mas a maior parte concordará que há situações bem mais difíceis.

Ouvir a cada consulta médica que precisa perder peso, não encontrar roupas do tamanho certo, depender de assentos especiais em ônibus e salas de espera, receber de amigos, vizinhos e até desconhecidos sugestões para emagrecer, ser tratada como uma pessoa descuidada. Olhar no espelho e não conseguir amar o próprio corpo. Deixar de fazer as coisas que gostava por vergonha.

Sem esquecer que há problemas de saúde associados à obesidade e ao sobrepeso – alguns que podem se tornar bem graves –, há uma doença mais séria na sociedade que sequestra a identidade da pessoa obesa e a transforma simplesmente no “gordo”. Entre os sintomas mais sérios estão o sentimento constante de inadequação e organizar toda a vida em torno da obesidade, especialmente de emagrecer.

A forma mais comum de lidar com esses sintomas é a negação. Não se olhar no espelho, evitar as situações em que possa ser vista ou julgada, se convencer que tem um problema metabólico e não pode mudar, tratar o corpo como se não precisasse de cuidados. É uma bola de neve: fugir da maior dor da obesidade leva a mais isolamento, menos atenção à saúde física e mental, mais indisposição.

Para alguns pesquisadores, a maneira como o obeso é tratado é a parte mais importante da obesidade – pelo efeito perigoso que tem sobre a saúde mental e o autocuidado. Devo concordar com eles, e acredito que qualquer pessoa obesa gostaria de ser tratada de forma diferente. Infelizmente, não conseguimos mudar essa cultura de uma vez.

O que é possível, para ter mais qualidade de vida, é entender que nossa dor não é nossa identidade. Por isso, não precisamos vivê-la o tempo todo. Está gordinha ou obeso? Tudo bem, nem todos se tornarão atletas ou musas fitness. Nem todos têm a mesma disciplina e o mesmo autocontrole; por isso, muitas pessoas talvez nunca vejam grandes transformações no corpo. E até ficar um pouco insatisfeito com isso é normal.

Aceitar esses sentimentos não é fácil; não é uma atitude, é um longo processo. Mas é nesse processo que se descobre quanta vida há além da obesidade – e quanto cuidado o corpo merece para vivê-la.

Cassiano de Santis é psicólogo especialista em Neuropsicologia

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