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Opinião

Da compreensão do esporte

*Capa: Leonardo Moniz

Não sei dizer quantos anos de idade eu tinha quando comecei a gostar de esportes. As lembranças são imperfeitas, mas fecho os olhos e consigo enxergar flashes de quando subia os degraus da arquibancada de mãos dadas com meu avô, e enquanto ele ajeitava a almofada nos bancos verdes de madeira do estádio Barão da Serra Negra, eu já estava planejando pedir um picolé de limão. O basquete, especialmente o feminino, tinha muito apelo naquela época em Piracicaba, onde nasci, cresci e sigo vivendo. De vez em quando, nós íamos ao ginásio.

Na televisão, foram incontáveis disputas pelo controle remoto com minha irmã. A Paola queria ver um desenho; eu caçava videotape de algum jogo para assistir. Arquibancada ou sofá, não importa: vi muitas vitórias que construíram ídolos e também derrotas que responsabilizavam vilões. A verdade é que o esporte que eu acompanhei desde pivete sempre foi condicionado pelo resultado, ainda que eu não entendesse o que significavam desempenho, performance e rendimento.

Não apenas via esportes, eu também praticava. Quando criança, as manhãs de sábado eram sagradas: acordava ansioso esperando meu avô (sempre o seu Hélio), que me levava para jogar futebol na escolinha do Atlético. Corria atrás da bola e dividia o campo com garotos de minha idade. Mesmo sem saber como, estávamos ali, sonhando. Afinal, como diz a música, quem não sonhou em ser um jogador de futebol? De alguma forma, esse convívio interferiu em minha formação, na construção do meu caráter. Eis aqui uma outra faceta do esporte. A mais importante, talvez.

Em dez anos de jornalismo, visitei inúmeros projetos sociais ligados ao esporte. Alguns bons, outros não. O que mais me preocupa é a conscientização. Quando bem utilizado, o esporte é uma poderosa ferramenta de educação: promove o desenvolvimento humano, facilita o bom cultivo de valores como a igualdade, combate o preconceito com equilíbrio. A metodologia ideal também não perde de vista o cenário lúdico, principalmente no trabalho com crianças e pré-adolescentes.

O problema é que os efeitos colaterais podem ser terríveis quando a conduta é falha. A política ‘resultadista’ que nos acostumamos a ver no alto rendimento não cabe à educação. Exatamente por isso, o bom conhecimento técnico de uma modalidade não é suficiente; para formar, é preciso ter boa formação. A pressão sobre crianças é sempre negativa. A cobrança não permite a real compreensão do contexto que a rodeia e, pior, inibe a fala, num convite à autodepreciação. E, acredite, isso não é tão incomum nos projetos sociais vinculados ao desporto. A formação, em qualquer vertente do esporte, é fundamental.

Leonardo Moniz é editor de conteúdo do LÍDER

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