fbpx
Opinião

Bulgária, Fifa, Paulinho e XV: memórias de 2012

*Capa: Arquivo/XV de Piracicaba

Na última semana, publicamos neste portal a notícia de que o XV de Piracicaba teria menos de 30 dias para pagar aproximadamente R$ 270 mil ao PFC Ludogorets, da Bulgária, pela fracassada negociação envolvendo a cessão do atacante Paulinho, em 2012. O valor, calculado em euros, inclui a multa exigida pelo Conselho Disciplinar da Fifa, que considera o XV culpado pelo episódio, além de impostos e as custas do processo. O documento enviado no dia 19 de abril pela Fifa ao XV previa punições drásticas ao clube, em caso de não quitar a dívida no período indicado, entre elas, a perda de pontos e o rebaixamento para a Série A3 do Campeonato Paulista. A matéria completa está disponível no link abaixo:

XV terá que pagar 50 mil euros para time búlgaro

A notícia explodiu no Barão da Serra Negra e expôs a fragilidade financeira que atravessa a agremiação. No dia 25 de abril, o repórter Marcelo Sá fragmentou em sua coluna neste portal (leia mais no link abaixo) as contas do clube, a partir do déficit de R$ 800 mil considerando somente a participação na Série A2 do Campeonato Paulista de 2018: os gastos mensais com a manutenção do gramado (R$ 12 mil), refeitório (R$ 15 mil), funcionários (R$ 30 mil), pagamento de processos trabalhistas (R$ 25 mil) e pagamento de parcelas do programa de refinanciamento de dívidas dos clubes (R$ 25 mil). Note que os valores não incluem comissão técnica e elenco profissional, sequer a base.

Em valores aproximados, apurados pelo repórter junto ao próprio clube, a arrecadação mensal inclui R$ 140 mil com patrocinadores, R$ 10 mil com marketing (não considere aqui as permutas, que chegam a R$ 20 mil e reduzem os gastos), R$ 12 mil com as doações via Semae e R$ 20 mil com o plano de sócios. A aparente solidez na saúde financeira do XV de Piracicaba, cantada aos ventos quando a bola trouxe maus resultados, na verdade escancara a dependência inegável da cota paga pela TV na Série A1. Rebaixado em 2016, o clube recuou dez casas no tabuleiro de sua própria história. Difícil que não fosse assim. A prova disso é a quantidade imoral de empréstimos pessoais feitos por dirigentes: apenas para Celso Christofoletti (presidente), Ricardo Moura (vice) e Renato Bonfíglio (ex-diretor), o XV deve mais de R$ 900 mil. O caso Paulinho é o mais urgente, mas, talvez, não seja o mais complicado.

Como estão as finanças do XV de Piracicaba?

Mas, o que aconteceu em 2012? Everton Dé, ex-zagueiro do clube, e Paulinho viajaram no dia 12 de julho para a Bulgária. O PFC Ludogorets contratou Paulinho por empréstimo pelo período de seis meses. Os termos do acordo foram redigidos em inglês, com a ciência de conselheiros e diretores. A cessão, importante esclarecer, não rendeu dinheiro ao time piracicabano. Porém, havia uma cláusula de aproximadamente R$ 2 milhões em caso de confirmação de compra. No dia 16 de julho de 2012, conversei com ambos, Everton Dé e Paulinho, que manifestaram nas redes sociais, pela primeira vez, a vontade retornar ao XV. Naquele dia, o empresário búlgaro Kiril Domuschiev tentaria convencer a dupla a permanecer em Razgrad. “A decisão está tomada, vamos voltar”, foi o que Paulinho me disse.

De acordo com a versão dos jogadores, conforme o arquivo jornalístico que mantenho desde aquela época, ambos ficaram irritados com o não cumprimento de algumas exigências prévias à viagem. O descontentamento aumentou quando os atletas foram informados de que jogariam em clubes diferentes, pois o Ludogorets havia atingido o número máximo de extra-comunitários no elenco, o que alteraria significativamente a situação de Everton Dé. O imbróglio era evidente: a postura de Paulinho e Everton Dé irritou os búlgaros, que, insisto, segundo relatos da época, ameaçaram com ‘sequestrar’ seus passaportes. A então diretoria do XV, encabeçada por Luis Beltrame, cogitou acionar a Polícia Federal.

Jornal de Piracicaba, 17 de Julho de 2012

17 de julho de 2012: Paulinho e Everton manifestam interesse em voltar ao Brasil

Valmir Freitas, então diretor de futebol do clube, disse-me o seguinte, em entrevista publicada no Jornal de Piracicaba, dia 17 de julho de 2012. “A situação é real. Eles (Everton Dé e Paulinho) procuraram a diretoria e manifestaram a vontade de voltar. Não vamos medir esforços para defender os interesses dos nossos atletas”. Desde aquela data, as informações eram confusas: havia multa a ser paga ao clube europeu pelo não cumprimento do acordo? O XV de Piracicaba poderia utilizá-los na Copa Paulista? A primeira pergunta nunca teve resposta, afinal, havia a interpretação de que o acordo nunca chegou a ser validado. Mas, o XV usou os atletas na Copa Paulista. A própria FPF, na época, deu o aval.

No dia 18 de julho, Kiril Domuschiev aceitou liberar a dupla para o retorno ao Brasil, mas, segundo o departamento jurídico do XV, o Ludogorets exigiu inicialmente o ressarcimento de despesas com alimentação, estadia em hotel, passagens aéreas e adiantamento salarial. Os valores giravam em torno de R$ 50 mil e deveriam ser pagos pelo XV. O acordo, porém, travou: os búlgaros pretendiam que Paulinho ficasse ausente do futebol pelos seis meses que teria de vínculo com o estrangeiro. Isso não aconteceu. Paulinho e Éverton Dé atuaram na vitória por 1×0 sobre o Ituano, pela Copa Paulista.

No dia 26 de julho, em Piracicaba, os jogadores concederam entrevista coletiva no estádio Barão da Serra Negra. Em 15 minutos de conversa, os dois afirmaram que o não cumprimento de exigências prévias à viagem para a Europa foi a principal razão para que eles optassem pelo retorno ao Brasil. “Prometeram mundos e fundos para nós, como carro, casa e celulares. Saímos daqui com uma boa impressão, acreditamos na palavra deles. Mas quando chegamos na Bulgária […] começou tudo errado: prometeram intérprete 24 horas e não aconteceu nada disso. Deixaram a gente largado lá, sem ninguém, e isso nos revoltou. No início, eu não queria ir para a Bulgária, mas pelo dinheiro que eu ganharia, pensei que seria algo bom para minha carreira“, disse Paulinho.

Jornal de Piracicaba, 27 de Julho de 2012

27 de julho de 2012: dupla concede coletiva e critica dirigentes do PFC Ludogorets

“A nossa decisão não é questão de emoção ou razão. Falamos com jogadores que estão há sete meses no Ludogorets, que nos disseram que as esposas foram deportadas, além de outras promessas não cumpridas”, afirmou Everton Dé. Na coletiva, o zagueiro negou ainda que teria sido forçado pela diretoria do XV de Piracicaba a aceitar a proposta do time búlgaro e revelou que houve descumprimento em outro aspecto: o salarial. “Isso não aconteceu em nenhum momento. Somos adultos […]. O acordo foi de 7 mil euros (salário), mas chegando na Bulgária, esse valor foi diminuído para 4.500 euros. Não aceitei, não foi esse o combinado”, contou o então zagueiro. Everton Dé afirmou na época que o valor seria completado pelo empresário Rogério Pereira Carvalho, brasileiro que tinha ligação com a equipe búlgara.

De lá para cá, passaram-se seis anos. O Ludogorets fez uma Representação na Câmara de Resolução de Litígios, pertencente à Fifa e pediu 200 mil euros de indenização (segundo nota oficial do próprio XV) pelo fato de o XV ter utilizado Paulinho. O XV defendeu-se e conseguiu reduzir o valor, e no último dia 19 de abril foi notificado de que teria 30 dias para pagar 51.588 euros, valor que corresponde a quatro das cinco parcelas do montante que o time piracicabano deve ao clube estrangeiro, além de uma multa de 5.000 francos suíços (cerca de R$ 17.500) por não quitar a dívida em prazo hábil, mais 1.000 francos suíços pelas custas do processo.

Em seis anos, Paulinho foi do céu ao inferno no Flamengo (em mais uma transferência confusa, com valores e divisão de percentuais que o colunista não entende), depois rodou por Santos, Vitória e Guarani. Everton Dé seguiu a vida no futebol e fora dele. Celso Christofoletti assumiu a cadeira de Luis Beltrame, depois cedeu o lugar para Rodrigo Boaventura, e depois voltou ao comando. O Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba é exatamente a mesma agremiação: continua em dificuldades. A ‘cobrança’ da Fifa deu status de urgência para situações que não começaram a se arrastar ontem. O XV não consegue andar apenas com as próprias pernas; sempre precisou de apoio, ainda que ocultasse seus problemas.

Leonardo Moniz é editor de conteúdo do LÍDER

Voltar