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Corpo & Mente

Cartão vermelho

Cartão Vermelho - Cassiano de Santis

O time perdia por 1×0 e ele era o melhor na partida: ocupava o meio de campo, procurava estar sempre perto da bola, voluntarioso e taticamente comprometido. Errava poucos passes e, às vezes, escolhia jogadas ruins numa tentativa de resolver rapidamente – os companheiros e a torcida entendiam. O empate parecia certo, e passaria pelos pés dele. Até o começo do segundo tempo.

Numa bola esticada, o contra-ataque certeiro mudou a história: 2×0. Na jogada seguinte, a impressão de que o gol sairia até o momento voltou, mas parou aí: tão logo perdeu a bola, agrediu o adversário e deixou o campo; sem o melhor jogador, restou pouco a fazer a não ser evitar o terceiro gol.

A ansiedade é um recurso que nos prepara para uma situação de risco

Já é possível imaginar o que se comentaria do atleta até o final da transmissão e nos jornais do dia seguinte: começou o jogo muito comprometido, chamando a responsabilidade, mas perdeu a cabeça no segundo tempo. Mas, sendo essa uma situação recorrente, vale a pena se perguntar: por que, em vários esportes, atletas extremamente dedicados têm atitudes que minam uma partida ou competição?

A principal teoria a esse respeito é chamada de hipótese da catástrofe, e a chave para entendê-la é a ansiedade. Biologicamente, esta é um recurso que nos prepara para uma situação de risco, deixando-nos mais alertas e prontos para tomar atitudes – principalmente aquelas que nos levem a uma condição mais segura. Alguns sinais são sentidos no corpo: coração e respiração acelerada, por exemplo; outros são cognitivos, com preocupações sobre o que pode acontecer.

No esporte, todo atleta necessita de um grau de ansiedade que o prepare para a ação e tire da apatia – atletas muito pouco ansiosos são chamados de letárgicos, e popularmente vistos como ‘sem raça’. Conforme os níveis de ansiedade sobem, o desempenho esportivo tende a acompanhá-los, até o ponto que os sinais fisiológicos e cognitivos começam a interferir com a performance, e esta começa a decair, descendo a colina.

ANSIEDADE

Ou, às vezes, o precipício. Segundo a hipótese da catástrofe, atletas de ansiedade cognitiva muito elevada (com muita preocupação sobre o que pode acontecer numa partida) não tem o desempenho gradualmente prejudicado pelo aumento da ansiedade fisiológica: esse pode despencar em qualquer adversidade – por exemplo, um segundo gol.

Alguns competidores aprendem sozinhos a controlar as emoções; outros necessitariam de um treino específico, para que os treinos físicos e técnicos sejam otimizados, principalmente nos momentos decisivos. Cientes do papel que o psicológico desempenha na performance esportiva (e mesmo na prevenção de lesões), é momento para que atletas e profissionais do esporte deixem que os torcedores cobrem ‘raça’ – e comecem a treiná-la.

Cassiano de Santis é psicólogo

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