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Muay Thai

Cada dia, uma luta: como o esporte salvou Allan

Ex-usuário, ele começou a usar drogas aos 13 anos e viu a morte bater à porta

Allan Albuquerque, lutador da equipe Inside Lukas Bueno Piracicaba
Allan Albuquerque, em treinamento realizado no CT Inside Lukas Bueno (Foto: Leonardo Moniz/Líder Esportes)

Allan Albuquerque tem 21 anos. Em outubro, completa 22. Ainda pequeno, tomou gosto pelo esporte. Primeiro, jogou capoeira. Depois, foi para o MMA, as lutas marciais mistas. Aos 17 anos, começou a treinar muay thai. “Eu sempre gostei, mas nunca levei para frente. Foi uma época que eu estava usando drogas”. Drogas. A relação de intimidade com a cocaína e a maconha teve início antes do esporte na vida de Allan. A primeira vez foi aos 13 anos. “Minha cabeça era fraca. Na escola, comecei andar com um pessoal ‘errado’. Cheguei a cheirar no banheiro da escola. Comecei aos finais de semana. Depois, dias de semana. Logo, todos os dias. Fiquei dependente”, contou Allan.

A capoeira e o MMA foram medida paliativa para afastar Allan das drogas. Mas, quando fez 17 anos, ele palpou o que pensava ser o fundo do poço. Recaiu e foi feio. O esporte, novamente, apareceu como alternativa de vida. Foi pelo muay thai que ele conheceu Lukas Bueno, técnico da equipe Inside. Guarde o nome de Bueno, porque ele é o anjo da guarda desta história. Na arte tailandesa, Allan ficou dois anos e meio, quase três anos sem usar drogas. Começou a disputar competições amadoras e teve destaque, mas duas lesões mais graves jogaram um balde de água fria no ânimo. Na época, ainda encerrou um relacionamento.

A luz no fim do túnel, quase improvável, foi sinalizada por um dos poucos amigos usuários que o tempo não separou

As drogas, então, bateram à porta mais uma vez. Nesta recaída, Allan disse que não tinha poder de escolha. “Eu precisava usar todos os dias”, afirmou. Do repórter que o entrevistava, escutou a seguinte pergunta: “O que você já fez para comprar drogas?”. O semblante de Allan ficou mais sério. Em seguida, ele abaixou a cabeça com os olhos marejados. Não julgue. É possível que a pergunta tenha deixado Allan envergonhado. Talvez, ele apenas não quisesse respondê-la. Não precisava. “Eu me sentia prisioneiro. O pior foi usar e sair para a balada. Depois, voltava para casa, ficava trancado no quarto e usava de novo”, relembrou.

As noites trancadas no quarto foram acompanhadas pelas alucinações. “Eu deitava e não conseguia dormir. Via vultos, ficava com medo de bichos que poderiam estar debaixo da cama. Vivia o inferno”.  O caminho parecia sem fim e sem volta. Logo, ele perdeu o emprego. “Não tinha mais escolha. Alguns dias, eu acordava, fazia meia refeição e passava o resto do dia sem comer”, disse. Allan chegou a pesar 47 kg. Hoje, pesa 55 kg. No período, se afastou por dez meses da equipe de Lukas Bueno sem dar qualquer explicação. O treinador não lamentou a perda do atleta; lastimava o ser humano que se perdia.

REABILITAÇÃO

A luz no fim do túnel, improvável, foi sinalizada por um dos poucos amigos usuários de droga que o tempo não separou. Allan não via, mas seu amigo enxergou a saída em um programa de reabilitação, cujo nome Allan pediu para não ser revelado. “Eu fiquei um dia limpo. Depois, dois. Hoje, continuo frequentando”. Dado o primeiro passo, o coração de Allan clamava pelo esporte mais uma vez. Resolveu tentar. “Foi complicado. Eu estava com muita vergonha. Marquei uma conversa com o Bueno, mas não fui por vergonha. Aí, marquei novamente. ‘Preciso conversar com você, mano’. Contei tudo, mas acho que ele já sabia. Não cogitei voltar a lutar, fui apenas pedir desculpas e senti que precisava disso. Quatro dias depois, o Bueno me ligou”, afirmou Allan.

“Venha treinar aqui”, foram as palavras do técnico. Allan foi um dia, dois dias, uma semana, um mês. O papo aconteceu em fevereiro deste ano. De lá para cá, ele confessou que caiu uma ou outra vez. Não quis dizer quando foi a última, a pedido do grupo de reabilitação que participa. “Estou firme agora”, garantiu. Bueno reconheceu a melhora. A disciplina no dia a dia rendeu a ele uma oportunidade. Allan aprendeu e começou a ensinar. Hoje, dá aulas nas academias do professor, em Piracicaba e Rio das Pedras. É última chance? Allan, novamente, demorou para responder. Respirou fundo e disse, com a voz ligeiramente embargada:

“A última… É que… É progressivo, né? Se eu voltar a usar drogas, não volto desde o começo. Volto de onde parei, vou fazer o que não fiz… Vou destruir mais. Pode ser a última chance, sim. Mas, não dá para saber. Eu não quero voltar a usar drogas, mas aprendi a não dizer ‘nunca’. Hoje, eu não uso”, disse. A vontade de se transformar alimenta os próprios sonhos, alguns mais ambiciosos e a longo prazo, como cursar educação física e psicologia. Sim, os dois. Porém, esses não são os únicos objetivos. “Eu gostaria de chegar à faixa preta, sabe? Montar uma academia… Mas minha meta é não usar mais drogas, continuar como estou. Deixo a vida nas mãos de Deus”.

No próximo dia 7, Allan volta a competir. Vai participar do 1º Inside Muay Thai Rock, em Piracicaba. O esporte é imprescindível para ele. “As reuniões no grupo de reabilitação não são suficientes, não. O Bueno abriu as portas da vida para mim. O pessoal mais antigo da academia sabe a minha história. Os mais novos, provavelmente não sabem. Mas, aqui, nunca ninguém olhou mal para mim”, contou. Na família, também não. Na história de Allan, não cabe a ladainha do pai que fugiu de casa ou a mãe que o abandonou. Nada disso. Eles ainda vivem juntos. Allan é o terceiro de quatro filhos.

“O preconceito existe. As pessoas pensam que uma vez drogado, sempre será usuário”, disse Allan

“Não somos família de estrutura ruim, não. Eles sabem minha história. Na época de recaída, o Lukas sentou com meus pais para conversar, mas, naquele momento, eu tinha decidido usar mesmo. Eu já tive vários problemas em casa, com meu pai, minha mãe sofreu muito por minha causa. Hoje, o relacionamento é bem tranquilo, cara. Converso bem com eles. Minha mãe está aliviada, bastante contente. Eu não saio mais para balada, não bebo. Eles ficam mais tranquilos”, declarou. O preconceito que ele sabe que terá de enfrentar é o da sociedade que, segundo Allan, marginaliza o homem disposto a abandonar maus costumes. “As pessoas pensam que uma vez drogado, sempre será usuário”.

Há temor de encarar o preconceito? Nenhum. Medo ele tem da morte, a qual viu de perto. “Uma vez, eu estava em casa e tinha usado droga a noite toda. Meu coração acelerou de um jeito que pensei que sofreria uma overdose. Fui arrastando no chão para o banheiro e fiquei mais de uma hora debaixo do banho gelado. Meu coração estava a milhão, achei mesmo que ia morrer. Deitado, melhorava. Qualquer movimento, acelerava. Dormi um pouco e, quando acordei, continuava acelerado. Tive muito medo. E ainda tenho medo de voltar a usar e morrer”, revelou. E qual é a receita para seguir de mãos dadas com a vida? “O esporte”. Bate-pronto.

“Não sei o que eu seria sem o esporte. No grupo que frequento, o pessoal participa de corrida. Conheço gente que foi para a luta, enfim, é um caminho de salvação. O esporte cuida do corpo e da alma, do lado psicológico. Você descarrega energia. Hoje, eu vejo que é possível largar as drogas. Qualquer um pode. Eu afirmo isso. Mas, precisa de vontade”, disse. A entrevista chegava ao final, mas ainda restava uma pergunta fora da pauta. Humana, não jornalística. “Você vai parar, né?”. Allan respondeu com sabedoria. “Eu não quero mais usar, mas aprendi a não dizer nunca. Eu sei que hoje não uso e, amanhã, se você vier me perguntar, provavelmente também vou dizer não”.

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