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Corpo & Mente

Autocontrole é controlar o mundo

Autocontrole - Cassiano de Santis

Uma senhora queixa-se de dor nas costas. Problema crônico, mas que havia se aliviado nos últimos anos e se agravou no último mês, atrapalhando atividades cotidianas simples: o trabalho como massoterapeuta, as tarefas domésticas, a caminhada matinal diária. Além disso, a dor impedia que desfrutasse de bons momentos, tamanho o incômodo. Numa conversa informal, encontramos o problema: o novo sofá.

É impossível, na prática, retirar as escolhas e decisões

Não que fosse desconfortável. Pelo contrário, era muito mais que o anterior, no qual mal conseguia sentar-se. Porém, sendo o novo maior, obrigou-a a guardar a bola suíça no quarto, e desde então não realizou mais os alongamentos diários recomendados pela fisioterapeuta – o que agravou a dor.

Essa história – caso real, não-clínico e relatado com autorização – é bastante ilustrativa do que ficou conhecido como “regra dos 20 segundos”: organizar o ambiente de forma a adiantar ou atrasar o início de uma ação em aproximadamente 20 segundos torna uma ação mais ou menos provável, o que pode ajudar a criar ou destruir um hábito. O tempo de caminhar da sala até o quarto buscar a bola foi suficiente para reduzir os cuidados consigo mesma.

A regra é válida para todos: é possível fazer mudanças importantes nos hábitos organizando o ambiente para tornar uma ação pouco mais fácil ou mais difícil de começar. É importante, então, tanto para cuidados pessoais quanto para as preparações física e técnica de atletas, já que, sabemos bem, essas dependem muito do que os competidores fazem fora dos treinos. Manter uma boa alimentação, por exemplo, é tão decisivo quanto desafiador, especialmente quando a equipe não pode oferecer estrutura e acompanhamento completos para seus representantes – a situação da quase totalidade dos atletas brasileiros. Por extensão, aplica-se também a atletas amadores ou pessoas que buscam melhor condição física ou de saúde.

REORGANIZAÇÃO

Reorganizar o ambiente para criar hábitos que ajudem no desenvolvimento físico e esportivo não desvaloriza ou dispensa o esforço pessoal. Pelo contrário: em primeiro lugar, é impossível, na prática, retirar as escolhas e decisões do dia a dia – o que se pode fazer é tornar mais provável que se faça as escolhas mais adequadas, desde que haja motivação; em segundo lugar, e por consequência, menos energia gasta em autocontrole significa mais energia disponível para outras atividades. O investimento pessoal não é dispensado, mas otimizado.

Autocontrole. A palavra, às vezes sinônimo de disciplina, às vezes requisito para ela, é indispensável para o bom rendimento esportivo e boa preparação física. E ele será tanto mais fácil e eficiente quanto mais compreendermos que não se trata de resistir a tentações e se forçar a fazer o melhor a qualquer custo, mas de entender como, no cotidiano, é possível preparar os gatilhos certos para agirmos o mais próximo possível daquilo que consideramos o ideal.

Cassiano de Santis é psicólogo com formação em Terapia por Contingências de Reforçamento

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