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Basquete

‘A minha história? Quem duvidou, hoje vê que sou capaz’

A vida de William: chef, marido, jogador de basquete e prestes a se tornar pai

William Evangelista, jogador da seleção brasileira de basquete 3x3

Tem uma frase que eu gosto muito, mas não sei de quem é: “Vai lá e mostra o quanto você é capaz, para calar a boca de quem duvidou”. O meu nome é William e tenho 33 anos até setembro. A minha família é de esportistas e a maioria gostava de jogar futebol. Eu jogava também, mas nunca fui talentoso. Tenho seis irmãos. O mais velho, Anderson, jogava basquete e eu tentava acompanhar, mas ele não gostava muito de jogar comigo. Dizia que eu era muito ruim. Eu pegava na bola e o Anderson brincava, tirava sarro.

Não tive base. Comecei a jogar aos 18 anos. Tarde? Eu sei. Mas consegui um emprego de mordomo no time feminino de Uberaba (MG), minha cidade. Ficava com as meninas na quadra. Almoçava e voltava ao ginásio para treinar sozinho. Foram três anos como mordomo e vendendo jornal. Pois é. Minha mãe queria que eu também tivesse um emprego ‘decente’. Lembro que perguntei para ela se vender jornal era algo decente. Não foi fácil, nada é, mas foi o jeito que eu consegui de continuar no basquete. Vendendo jornal, minha mãe não iria me privar. E eu nunca me importei mesmo.

‘Costumo falar que o basquete 5×5 me possibilitou conhecer o Brasil e o 3×3 está me fazendo conhecer o mundo’

Então, criaram uma equipe masculina em Uberaba e eu entrei no time. A rotina era cansativa: pegava o jornal às 4h30 e vendia das 5h às 7h. Depois, trabalhava como mordomo e treinava. Eram 24 horas por dia vivendo em função do basquete. Eu tenho orgulho de dizer que sou muito determinado e, quando quero alguma coisa, batalho para conseguir. Depende de mim, e se depende de mim, não tenho porque me sabotar. Eu saí de Uberaba em 2004 ou 2005. Tinha colocado na cabeça que iria tentar a sorte e fazer algumas peneiras. Fiquei quatro meses rodando e não consegui nada.

É difícil. Cheguei a São Paulo e pensei em parar. Lá, morei algum tempo com o meu padrinho e como não estava conseguindo time, procurei emprego com ele, porque ele também estava desempregado. Graças a Deus, eu não consegui emprego e não desisti do basquete. Mas havia um limite. Eu tinha R$ 50 e estava disposto a fazer a última tentativa. Peguei a minha motinha e fui para Itápolis com o dinheiro contadinho para voltar para casa. Eu tinha que fazer aquilo. Pelo menos, teria tentado realizar o meu sonho. Estava com 23 anos.

Eu ligava para o técnico de Itápolis para marcar peneira, mas ele sempre me enrolava. Então, eu decidi pegar a moto e partir sem avisar. Eu não sabia nem o endereço do ginásio lá. Lembro que perguntei onde ficava o ginásio municipal ao chegar à cidade. Quando encontrei, tinha três meninos na quadra, que me disseram que o time estava treinando na academia. Vi os caras e me apresentei. O Edson, que era diretor do time e tinha o apelido de Lobinho, disse: “William, não era para você vir, não temos lugar para você ficar”. Não me importava. Eu só queria uma chance. Na minha cabeça, se nada desse certo, eu dormiria na praça e voltaria para casa com os R$ 50.

Eu jogava de armador. Poxa, eu tenho 1,86 m! É baixo para o basquete. Mas perguntei para o Edson qual posição eles precisavam no time. Se precisasse, eu jogaria de pivô. Deixa eu contar: em Uberaba, fui pivô. E pegava rebote, heim? Como pegava. Meses depois, o Edson me contou que tinha falado na época com outros diretores, e eles tinham combinado que iriam me deixar lá dois ou três dias para depois me dispensar. Só que eu treinei bem. Por fim, no segundo dia ele pediu meus documentos e queria que eu ficasse, mas não tinha dinheiro para me pagar. Eu joguei de graça três meses, depois comecei a receber. No final da temporada, fui o único que teve proposta de renovação.

William Evangelista, jogador da seleção brasileira de basquete 3x3

Meu ponto forte sempre foi a defesa. Ninguém passa fácil por mim, porque eu tenho muita vontade. Acho que foi isso me levou para várias equipes. De Itápolis, fui para Santos, Campinas e São Carlos, o meu primeiro time profissional. Joguei a primeira divisão do Campeonato Paulista. Joguei… na verdade, eu ficava 30 segundos em quadra, mas estava lá. De São Carlos, vim para Piracicaba. O Broca, que era o técnico do XV, viu eu jogar e pediu para eu bater uma bola. Naquele dia, comecei a escrever minha história aqui.

Piracicaba foi onde eu virei atleta profissional. Recebia um salário e conseguia ajudar em casa. Disse para mim mesmo: sou um jogador de basquete. Não esqueço os Jogos Abertos de 2008. O nosso ginásio estava lotado, coisa linda, linda! Nunca tinha jogado em um ginásio tão lotado assim. Foi muito bonito. A final contra Rio Preto não sai da minha cabeça. Arrepia! Joguei muito bem e ganhamos no finalzinho. Foi incrível. Depois, fui para Rio Claro e para Macaé-RJ, jogar o NBB. Mas, tenho um carinho muito grande por Piracicaba. Aliás, eu casei com uma piracicabana e meu filho, o Caetano, vai nascer aqui. Rapaz, dá uma tristeza não ter uma equipe profissional aqui atualmente. A gente brigou dez anos para trocar o piso da quadra do ginásio. Agora, temos um piso para fazer inveja, mas não temos uma equipe. A palavra é tristeza.

Em 2016, quando eu tinha voltado a jogar pelo XV, o basquete 3×3 apareceu em minha vida. Conheci em um torneio aqui, em Piracicaba. Foi o primeiro contato que eu tive e nós ganhamos. Isso nos deu uma vaga para disputar um challenge, em São Paulo. Fomos lá e ganhamos de uns caras que eram os melhores do mundo e ainda não tinham perdido nenhum jogo no ano. A equipe era Fransérgio, Gorauskas, BF e eu, todos do XV. No basquete 3×3, você não tem posição: todo mundo faz tudo, é muito dinâmico e intenso. Em 2017, o XV praticamente parou as atividades e eu passei a me dedicar apenas ao 3×3.

Costumo falar que o basquete 5×5 me possibilitou conhecer o Brasil e o 3×3 está me fazendo conhecer o mundo. No ano passado, eu fui jogar duas vezes na China e viajei para Chile, Holanda, México, Mongólia, Suíça e Uruguai. Hoje, eu jogo pelo São Paulo DC, o time número um do Brasil. E fui convocado para a seleção. É o ponto máximo, o auge da vida de qualquer atleta, poder representar o país. Eu estou muito feliz. Cara, pensa comigo: de 20 mil atletas praticantes, eu sou o número dois do ranking. Chique, né?

William Evangelista, jogador da seleção brasileira de basquete 3x3

O que falta? Jogar uma Olimpíada. Em 2020, nos Jogos de Tóquio, o basquete 3×3 foi confirmado na programação. Puta oportunidade. O Brasil hoje estaria classificado para as Olimpíadas, porque os oito melhores do mundo se classificam e o Brasil é o sexto no ranking. É um sonho, penso bastante nisso. Mas, não pense que é fácil não. A gente joga contra países de primeiro mundo e eles têm estrutura, vivem apenas disso. Eu estou na seleção brasileira e tenho três empregos para me virar. A gente sente o ritmo de jogo. Isso conta muito.

Falei que eu tenho três empregos e já disse que sou mineiro, e mineiro gosta de cozinhar. Eu sempre ajudava minha mãe em casa. Bom, nem sempre. Ela não me deixava cozinhar sempre, porque eu queria cozinhar ‘chique’ e ficava caro. Quando eu saí de casa para fazer peneira, eu prometi para minha mãe que voltaria formado. No XV, eu tive essa chance de estudar e escolhi a gastronomia. Cumpri a promessa. Eu gosto ainda, viu? Faço marmitas saudáveis, sou confeiteiro, tenho especialização em bolos. Pretendo abrir um restaurante algum dia. Eu fico intercalando: chef Will, Will do basquete, marido e pai. O Caetano é o meu primeiro filho, nasce em setembro. Tá aí. Estou ansioso. Dizem que mulher tem desejo, mas homem tem também. Eu não sou de comer doce, mas o tanto de doce que estou comendo…

Eu estou construindo uma família. Isso também é uma coisa que me faz mais forte. Tive o exemplo. A minha infância foi muito boa. Meus pais se separaram, mas sempre foram muito presentes. Hoje, eu não tenho mais pai, mas enquanto tive, foi uma relação ótima. Ah, tem uma coisa que mudou: sou eu que dou risada quando vejo o meu irmão mais velho jogar. Falo para ele: “Nossa! Você falava que eu era ruim (risos)?” Na verdade, eu só tenho que agradecer pelos ‘tapões’ que eu tomei na vida. Na minha história, sempre tive de mostrar quanto eu era capaz para quem duvidava. Quando olho para trás, sinto gratidão. Tudo o que vivi me faz olhar para o presente e dizer: “Eu consegui”. E quero continuar conseguindo.

William Lucas Evangelista é jogador da seleção brasileira de basquete 3×3

*Texto, edição e fotos: Leonardo Moniz*

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