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Opinião

A demissão de Pugliese: alguém pensou no XV?

Arnaldo Bortoletto errou ao mandar embora o técnico Tarcísio Pugliese, cujo contrato foi finalizado na última quarta-feira (8). A rescisão do vínculo do treinador (agora) não faz sentido algum, e menos ainda quando a Federação Paulista de Futebol finalmente começa a se organizar para o retorno da Série A2. Pugliese dirigiu o XV de Piracicaba 59 vezes, venceu 27 jogos, empatou 19 e perdeu em 13 ocasiões, com o aproveitamento total de 56,49%. É verdade que os principais objetivos não foram conquistados – acesso para a elite do futebol estadual perdido contra a Inter de Limeira, nos pênaltis; título da Copa Paulista perdido para o São Caetano na final. Porém, o veredito do presidente tem pouca relação com o que foi produzido em campo.

Pois o treinador nunca teve o cargo ameaçado quando poderia ter, especialmente em dois momentos: na perda do acesso para a Inter de Limeira, com o plus de ter sido expulso; e no início da atual temporada, devido aos maus resultados. Ao demitir Pugliese, Arnaldo Bortoletto não pensou exclusivamente no XV. O presidente nunca foi entusiasta do trabalho do treinador, e ficou mais reticente em fevereiro de 2019, quando Pugliese ‘sugeriu’ a saída de Douglas Pimenta, então assessor da presidência. No pacote, saiu junto o uruguaio Ruben Furtenbach, auxiliar técnico da comissão efetiva. Douglas era o homem de confiança que Bortoletto queria no clube. O presidente perdeu a primeira queda de braço, não perderia a segunda.

A gota d’água da relação ocorreu no último dia 26 de junho, quando as duas partes não se entenderam no que diz respeito à redução financeira proposta pelo XV de Piracicaba ao treinador. As versões divergem, mas a troca de farpas existiu e foi confirmada ao colunista por três fontes. Na ocasião, Pugliese teria ofendido o presidente no ápice do atrito – e errou, não respeitou a hierarquia. Consequentemente, não pensou no clube. Bortoletto levou as palavras que ouviu para o lado pessoal. Literalmente, ordenou “dar baixa” na carteira do técnico. A decisão foi particular, uma vez que a alta cúpula da diretoria e o departamento de futebol foram claramente contrários ao encerramento do vínculo. No primeiro discurso como presidente do XV, no dia 13 de novembro de 2018, Bortoletto prometeu: “Não vou fazer nada sozinho”. Não cumpriu.

O caso Pugliese – que tem parcela de culpa, sim, ao conduzir mal o episódio – não é pioneiro na atual gestão. André Cunha, ídolo do clube, também saiu do Barão da Serra Negra ouvindo perspectivas que nunca se concretizaram. O ótimo volante Simião deixou o time sem entender o porquê. Mas, o pior pode estar por vir, porque existe a possibilidade de que pelo menos seis jogadores não permaneçam no XV de Piracicaba para a continuação da Série A2 – é evidente que isso dependerá de propostas, não existe aqui questionamento ao profissionalismo, mas a margem de comprometimento com o projeto, neste momento, sofreu queda sensível. A relação do elenco com o técnico sempre foi de extrema proximidade; com o presidente, o relacionamento é frio. A confiança diminuiu.

Não faz sentido algum que a demissão seja justificada apenas sob o aspecto financeiro quando ela se dá quatro meses após o início da pandemia – o comunicado da rescisão divulgado pelo XV é pouquíssimo esclarecedor. Ao quebrar o silêncio para a imprensa, Pugliese verbalizou que a saída não foi por razão financeira, mas pessoal, e passou a bola para Bortoletto. O presidente se limitou a repetir, em entrevista à EPTV, o que já havia informado via nota oficial: questão de dinheiro. O  problema é que o fardo do silêncio poderá se transformar em culpa para Bortoletto, caso os resultados não o acompanhem de agora em diante – e vale recordar que a Série A2 terá tiro curtíssimo, com jogos ‘encavalados’ e pouco tempo para treinar, o que dificultará muito o trabalho do próximo treinador. Qual é o maior prejudicado? O XV de Piracicaba, obviamente.

Bortoletto precisa rever o ‘modus operandi’ para triunfar no comando do clube. A experiência com a matemática dos negócios é insuficiente para controlar bem o mundo do futebol. Os próximos passos do presidente serão fundamentais para que ele não seja apenas um respeitado executivo que passou pela cadeira mais nobre do XV sem pena e sem glória.

Leonardo Moniz é editor de conteúdo do LÍDER

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