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Futebol

10 anos da batalha que mudou a história do XV

Sábado, 8 de maio de 2010: em Ribeirão, venceram os destemidos e valentes

XV de Piracicaba - Campeonato Paulista Série A3 - 2010
O elenco do XV de Piracicaba conquistou o acesso em 2010 após empatar na Batalha de Palma Travassos (Foto: Arquivo Pessoal)

*Edição e Texto: Leonardo Moniz

O gol é o momento mais importante do futebol, isso ninguém discute. Há dez anos, porém, foi um gol anulado nos últimos minutos de um jogo que levou ao delírio a torcida do XV de Piracicaba. No dia 8 de maio de 2010, um sábado, às 19h, o time piracicabano entrou em campo em Ribeirão Preto para o duelo que ficou conhecido como a ‘Batalha de Palma Travassos’. Naquele dia, Comercial e XV de Piracicaba se enfrentaram no Estádio Dr. Francisco de Palma Travassos pela última rodada da segunda fase da Série A3 do Campeonato Paulista. O Nhô Quim precisava de um empate para conquistar o acesso; o Bafo necessitava vencer.

A partida foi truncada durante os 90 minutos, com poucas oportunidades para os dois lados. Aos 46′ do segundo tempo, ocorreu o lance que ‘eternizou’ o confronto. Após cobrança de falta e bate-rebate na área, o zagueiro Edson Batatais empurrou a bola para o fundo do gol defendido por Fernando Hilário. O êxtase nas arquibancadas lotadas pelo gol que daria o acesso ao Comercial rapidamente se transformou em revolta: o árbitro assistente 1, Luis Alexandre Nilsen, ergueu a bandeira e invalidou a jogada, assinalando impedimento do defensor comercialino. A infração foi confirmada pelo árbitro Rodrigo Guarizo Ferreira do Amaral.

*Imagens: Rede Vida | Edição: Kiko Vídeo

O apito final viria apenas aos 56′, quando uma confusão generalizada se instalou em campo e também fora das quatro linhas: os jogadores do Comercial agrediram a arbitragem e os torcedores entraram em confronto com os policiais na tentativa de invadir o gramado. Parte do alambrado foi destruída. A violência, aliás, teve início antes da bola começar a rolar. “Fomos agredidos na entrada do estádio por marginais”, relatou o repórter Fernando Lopes. “Existe mais respeito na cadeia do que havia no Palma Travassos naquele dia. A diretoria do XV passou pela mesma situação”, relembrou o repórter Marcelo Sá. Ambos cobriram o jogo pela Rádio Onda Livre AM (ouça o áudio histórico abaixo). “Nós tivemos problemas, chegamos e já começaram a chutar o carro, tentando nos agredir”, contou o fotógrafo Pauléo, que trabalhou na partida pelo Jornal de Piracicaba.

O público ‘oficial’ registrado no boletim financeiro divulgado pela FPF (Federação Paulista de Futebol) foi de 1.557 pagantes, mas o Estádio Dr. Francisco de Palma Travassos, que tem capacidade para receber cerca de 15 mil pessoas, estava quase lotado. Cerca de 10 mil pessoas assistiram o duelo. “Lembro que não conseguimos chegar ao espaço reservado para nós e, por sorte, ficamos na arquibancada. Não aguentei assistir o jogo todo de lá e fiquei no final da partida no vestiário com o Paulo (Moraes, gerente de futebol). Alguém falou que o XV sofreu o gol e, logo em seguida, me contaram que tinha sido anulado, mas entre essas duas notícias parece que passou uma eternidade. Com o acesso, renasceu a esperança no XV”, afirmou Luis Beltrame, presidente do clube entre 2008 e 2012.

Marlon Tadeu Ferreira, ex-gerente de futebol do XV de Piracicaba

O meia Marlon foi uma das lideranças do grupo que conquistou o acesso (Foto: Arquivo Pessoal)

“A lembrança que eu tinha latente era da derrota para o Atlético Sorocaba na final Copa Paulista de 2008. Aquilo foi realmente desanimador e estava acompanhando a gente. Em 2010, começamos a temporada e o time não se ajeitava com o Nei Silva (treinador). Eu pensava: ‘Será que não vai dar certo?’ Mas nunca deixei de acreditar e o pessoal que me ajudava, como o Maiolo (João Carlos, vice-presidente) e o Valmir (Freitas, diretor de futebol), sempre tentava ser positivo. A situação do clube era muito difícil, não tínhamos dinheiro. Sofremos muitas críticas, diziam que éramos amadores e inexperientes. Foi uma conquista muito memorável. É recompensador ser um dos protagonistas de algo que mexe com tantas pessoas como é o XV. Foi marcante”, completou Beltrame.

A caminhada do Alvinegro na Série A3 em 2010 começou turbulenta: nos quatro primeiros jogos, foram três derrotas (Bandeirante, Francana e Juventus) e um empate (XV de Jaú) – o embate com a equipe de Birigui aconteceu no dia 17 de fevereiro, em Penápolis. Os maus resultados deixaram o time na zona de rebaixamento e custaram o cargo do técnico Nei Silva. A partida seguinte, contra o Taubaté no Barão da Serra Negra, terminou com vitória quinzista por 1×0, gol de Alex Neguitão, e marcou a estreia do técnico Moisés Egert. “A gente estava na lanterna e sabemos como é difícil jogar a Série A3. Era muita cobrança e pressão, mas o grupo tinha líderes dentro do vestiário, na diretoria e comissão técnica. Eu não tinha experiência, mas tinha vontade e ambição. Oscilamos, mas depois fizemos uma sequência muito forte e conquistamos a classificação com uma rodada de antecedência, em sétimo lugar”, recordou Moisés.

Moisés Egert, treinador do XV de Piracicaba

Moisés assumiu o time na zona de rebaixamento e conduziu o XV ao acesso (Foto: Arquivo Pessoal)

Na primeira fase, o XV somou 30 pontos em 19 rodadas, com oito vitórias, seis empates e cinco derrotas, 27 gols marcados e 17 sofridos. No quadrangular final, os adversários eram Comercial, Ferroviária e XV de Jaú. “Foi um grupo muito difícil, mas chegamos ao último jogo com chances de classificação. Jogamos em clima hostil, com o estádio cheio, contra um time que era favorito e com muito mais investimento, e saímos com o acesso. No futebol, todos têm valor, mas é mais valorizado quem vence. Nosso grupo tinha uma sinergia muito forte. O Paulo Moraes e a diretoria encabeçada pelo Beltrame apostaram muito forte em um prata da casa para dirigir o time e conseguimos dar o retorno com acessos e títulos. Foi uma guerra em Palma Travassos e escrevemos uma página maravilhosa na história do XV”, concluiu o treinador.

A estreia no quadrangular final foi contra o Comercial, em Piracicaba: vitória por 2×1 com dois gols de Paulinho, atacante que havia sido alvo de críticas na primeira fase. Na sequência, vieram uma derrota em Araraquara e um empate em Jaú. No returno, o Alvinegro superou o XV de Jaú por 2×0 e empatou em 1×1 contra a Ferroviária antes de embarcar para Ribeirão Preto. “O que eu lembro bem é da manobra do Paulo Moraes. A gente saiu de Piracicaba dois dias antes do jogo, fomos para Batatais e ficamos lá, treinamos no campo deles na sexta-feira de manhã. A torcida do Comercial pensou que dormiríamos lá e foi para o hotel soltar fogos (risos). O Paulo já tinha feito uma estratégia e nos levou para uma outra cidade, perto de Ribeirão Preto. Ficamos em um baita hotel e pudemos descansar em paz”, disse o zagueiro Marcus Vinícius.

*Áudio: Rádio Onda Livre AM

“Quando chegamos ao estádio foi uma guerra, pessoal estava jogando pedra. Para sair do ônibus e entrar no vestiário, já foi difícil. Lembro também que no vestiário tinha um portãozinho aberto e um torcedor dos caras entrou por esse portão, que dá acesso ao campo. Eu levantei a perna para dar um chute e fechar o portão, e senti uma fisgada na coxa (risos), imagina se falo que não dá para jogar! O que me espantava muito era a tranquilidade do pessoal mais experiente: Carlão, Givanildo e Marlon passavam muita tranquilidade para nós. O Jordy também. Eu concentrava com ele e o Jordy acordava numa tranquilidade, dando risada, otimista. Foi uma época muito bacana”, relembrou o defensor, que acumula boas histórias sobre a conquista.

“No dia da viagem, eu estava no dentista arrancando o dente do ciso. Lembro como se fosse hoje: o pessoal estava esperando eu chegar para viajar e eu apareço com a boca inchada (risos). Joguei com dois ou três pontos na boca, mas não tem nada de heroísmo, foi burrice mesmo (risos). A campanha foi boa, o pessoal que veio no meio do campeonato, como Robinho e Ceará, fortaleceu muito o time. A Série A3 foi mais difícil que a Série A2 para nós: teve discussão no vestiário após perder para o Penapolense, uma vez o Paulinho não queria viajar porque a torcida tinha jogado uma bomba na casa dele… Depois, o Paulinho foi o nome do quadrangular, mandou no jogo em casa contra o Comercial, fez dribles fantásticos, dois gols. Os meninos também, né? Diego Silva, Everton Dé… Foi uma época muito boa”, definiu Marcus Vinícius.

“O tumulto fortaleceu a gente, entramos com sangue nos olhos. A torcida do XV não parou os 90 minutos”

Givanildo era um dos jogadores mais experientes do elenco. Na decisão em Ribeirão Preto, o meia recorda das mudanças na concentração e de um episódio que ‘atrapalhou’ a festa do grupo. “É um ano que me traz grandes lembranças, tivemos muitas dificuldades. Fizemos quatro ou cinco pontos em sete rodadas e todo mundo dizia que o XV cairia para a quarta divisão. O Moisés fechou a equipe, crescemos e nos classificamos entre os oito. Contra o Comercial foi uma batalha inesquecível. Ficamos em duas cidades diferentes para evitar confusão na concentração. Na chegada ao estádio, foi o maior tumulto e aquilo fortaleceu a gente, entramos em campo com sangue nos olhos. A torcida do XV também não parou os 90 minutos. No fim do jogo houve confusão, mas nada tirou o brilho do acesso. Lembro que fui sorteado para o doping e ‘atrapalhei’ a festa dos meninos, fiquei até quase 2h da madrugada para sair do exame (risos)”, falou Givanildo.

Givanildo, meia do XV de Piracicaba

Givanildo afirmou que a Batalha de Palma Travassos foi ‘inesquecível’ (Foto: Memorial Quinzista)

Marlon, outro dos líderes do plantel, tinha papel semelhante na equipe: meia experiente, o jogador guarda o confronto em Ribeirão Preto ‘vivo’ na memória. “A saída do ônibus foi uma coisa absurda e nos vestiários jogaram um produto com um odor insuportável. Dentro de campo os caras tentaram nos intimidar, mas vencemos essa batalha com muito merecimento. Foi um acesso muito aguardado pelo sofrimento e dificuldade de todo o campeonato. Lembro que fizemos uma viagem e perdemos um jogo para o Penapolense, se não me engano. Era horrível o time deles (risos). Os diretores ficaram tão chateados que lembro do Paulo Moraes pedindo para ficarmos concentrados lá mesmo (risos), pois o próximo jogo era em Penápolis também (contra o Araçatuba)”, afirmou Marlon, que revelou mais uma ‘resenha’ do plantel.

“Ficamos em Avanhandava e o Paulo (Moraes) e o Moisés começaram a ligar atrás de jogadores para reforçar a equipe, pelo menos para tentar sair da zona de rebaixamento e quem sabe classificar. Nessas conversas, eles contrataram o Wesley Tanque (atacante), com quem eu tinha jogado no Tupi-MG. Era um cara muito forte e trombador. Ele não fez muitos gols, mas ajudou demais, trombava em todo mundo (risos). Teve um jogo no Barão em que nós iríamos sair com a bola. Então, eu, o Giva e o Paulinho combinamos uma jogada ensaiada, só que o Wesley não sabia disso. Ele veio para mim e perguntou: ‘O que preciso fazer?’ e respondi para ele: ‘Tanque, rola a bola e sai trombando. O resto deixa para a gente (risos). Ele ficou bravo, queria bater em nós. Aquele foi um grupo muito bacana, por isso foi vencedor”, finalizou Marlon.

*Imagens: XV TV

Em 2011, o XV de Piracicaba conquistaria pela quinta vez o título da Série A2 do Campeonato Paulista e retornaria à elite do futebol estadual após 17 anos, mantendo a base do elenco que garantiu o acesso na Batalha de Palma Travassos ao empatar por 0x0 contra o Comercial. Uma conquista histórica, alcançada por um grupo de homens destemidos e valentes.

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ELENCO:

Goleiros: Fernando Hilário, Brenno e Leandro.

Zagueiros: Marcus Vinícius, João Paulo, Denis Silva, Éverton Dé e Fernando Voltolini.

Laterais: Éder Mathias, Vinicius Bovi, Maurinho, Vitor Hugo e Denis.

Volantes: Fellipe Nunes, Jordy Guerreiro, Rodolfo, Carlão e Diego Silva.

Meias: Marlon, Diogo, Givanildo, Bruno Baiano e Robinho.

Atacantes: Julio Cesar, Lucas, Alex Neguitão, Paulinho, De Paula, Pires, Helerson, Wesley, Taílson e Conrado.

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A BATALHA:

0   COMERCIAL

Gustavo; Rogerinho (Laerte), Alemão, Edson Batatais e Elias (Jeferson); Cenedesi, Jordã; Belé e Carlos Eduardo; Rafinha e João Paulo. Técnico: André Oliveira

0   XV DE PIRACICABA

Fernando Hilário; Felipe Nunes, Marcus Vinicius, João Paulo e Ceará; Diego Silva, Jordy Guerreiro, Marlon e Givanildo; Paulinho e Wesley (Lucas). Técnico: Moisés Egert

Árbitro: Rodrigo Guarizo Ferreira do Amaral | Cartões amarelos:  Edson Batatais, João Paulo e Belé (COM); Marlon, Givanildo e Ceará (XV) | Local: Estádio Dr. Francisco Palma Travassos (Ribeirão Preto) | Público: 1.557 pagantes (10 mil presentes) | Renda: R$ 15.020,00.

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Paulo Moraes, gerente de futebol do XV de Piracicaba

Reportagem dedicada a Paulo Moraes, figura ímpar na história do XV

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