Futebol

Você sabe como funciona a base do XV?

Conheça as despesas, receitas e objetivos das categorias de formação

Matheus Bonassi, coordenador das categorias de formação do XV de Piracicaba
Matheus Bonassi é coordenador das categorias de formação do XV de Piracicaba (Foto: Líder Esportes)

O ano de 2018 começa nesta quarta-feira (3) para o XV de Piracicaba. Em Itu, a equipe comandada pelo técnico Diego Favarin estreia na Copa São Paulo de Futebol Júnior, às 16h, contra o Vila Nova-GO. Ituano e Santa Cruz-AL completam o Grupo 16, sediado no estádio Dr. Novelli Junior. Com o futebol profissional em fase de pré-temporada para a Série A2 do Paulista, as atenções estão voltadas para a base. Na véspera do primeiro compromisso do ano, o  coordenador das categorias de formação do clube, Matheus Bonassi, atendeu a reportagem e explicou quais os objetivos do XV na competição, além de detalhar como funciona, quais os gastos e a forma como o XV atua para cuidar de suas promessas.

LÍDER: A cada edição da Copa Paulista, cria-se uma nova expectativa em relação ao XV de Piracicaba. Afinal, qual é o objetivo do clube na competição? Passar de fase está de bom tamanho ou existe alguma outra meta?
Antes de mais nada, a gente precisa entender o que significa a Copa São Paulo dentro de um processo de formação. Eu sempre questionei a cobrança que existe em relação ao torneio. Não dá para julgar um trabalho de formação pelo que acontece na Copa São Paulo, que é um torneio de 23 dias e mais de 100 equipes. Joga-se dia sim e dia não, geralmente com chuva no mês de janeiro. Não dá para dizer se está tudo certo ou errado pelo resultado na Copa São Paulo. É uma competição que serve para fazer negócio. O XV está de olho nessa vitrine e abaixou a média de idade do elenco. Vamos com um grupo mais jovem, com dois atletas de 16 anos. É lógico que, quanto mais longe você chega, maior a visibilidade e, consequentemente, a valorização. O momento é bom e esperamos chegar o mais longe possível.

LÍDER: É comum escutar na cidade que o XV não dá chances para os garotos de Piracicaba. O que há de verdade nesta afirmação?
Quando você queima uma imagem, é muito difícil recuperá-la. Eu sou torcedor do XV, acompanho o clube há mais de 30 anos e sempre ouvi essa história. Mas, quando assumimos, no fim de 2012, um dos pontos que mais tentamos apagar foi esse. Não vou entrar no mérito se isso acontecia ou não no passado, mas o XV hoje dá oportunidade para todos em Piracicaba. Nós realizamos peneiras para todas as categorias, além das avaliações pontuais. Não fechamos ainda os números de 2017, mas, em 2016, foram 1.186 garotos avaliados pelo clube nas três categorias de formação (sub-15, 17 e 20). A maioria é de Piracicaba e isso facilita para nós em relação ao custo, pois você economiza em alojamentos, por exemplo. Além disso, o processo de formação junto do âmbito familiar é muito importante. O jogador da cidade já está adaptado. Há casos de outros clubes que estão fazendo trabalhos semelhantes e os resultados são positivos. No XV, atualmente, 100% dos garotos da categoria sub-15 são de Piracicaba. No sub-17, 70% são da cidade e, no sub-20, eu diria que o número é de 50%, levando em conta que são jogadores praticamente profissionais.

‘Eu entendo como terceirização quando você delega a gestão para um terceiro e a base hoje é totalmente gerida pelo XV’

LÍDER: Quantos meninos pertencem à base? Qual é a estrutura oferecida e como o XV arca com os custos relacionados à formação?
Nós temos 90 atletas na base, padronizamos com 30 jogadores por categoria, pois não adianta você ter uma grande quantidade se não consegue oferecer as mesmas condições para todos eles. Hoje, a maioria dos clubes faz essa padronização. Alojados, temos cerca de 15 atletas. Nós temos duas casas e ninguém mora no Barão da Serra Negra desde o fim de 2012, pois não há condições de moradia. O clube arca com a alimentação completa dos jogadores, oferece condição médica. O custo aproximado disso tudo, incluindo ajudas de custo e os salários dos profissionais, gira em torno de R$ 60 mil por mês. Para pagar, nós temos o dinheiro que vem da conta de água (Semae), o que dá em média, R$ 12 mil por mês. É muito pouco. Além disso, temos a subvenção da prefeitura, sendo que em 2017 não recebemos nada devido ao Marco Regulatório. O valor é semelhante, cerca de R$ 12 mil mensais. O restante é subsidiado pelo futebol profissional. O que nós conseguimos agora, de 2017 para 2018, pela primeira vez, é a execução da Lei do Incentivo ao Esporte, em âmbito estadual. Isso vai dar um fôlego para nós, pois paga quase 80% dos profissionais e nos dá muito material de treino, uniformes, material de fisioterapia. Aprovamos R$ 868 mil e captamos R$ 530 mil junto à Raízen. Depois, adaptamos o projeto para esse valor. É algo novo, feito junto à Associação Amigos do XV.

LÍDER: Há uma empresa (CR Participações) que dá R$ 13 mil mensais ao clube e leva um percentual de cada transferência. Você enxerga isso como terceirização?
Não há terceirização. Eu entendo como terceirização quando você delega a gestão para um terceiro e a base hoje é totalmente gerida pelo XV. O que existe é um acordo de parceria, ou um patrocínio, melhor dizendo, onde a CR apresentou uma empresa (Jefer) que paga os R$ 13 mil e estampa o nome nos uniformes da base. A CR também tem um braço com vários jogadores e eles indicam os atletas para virem ao XV. Esses atletas fazem avaliações e o clube é que decide se eles ficam aqui ou não. Não existe absolutamente nenhuma imposição. O critério técnico é 100% do XV. Esse modelo não é uma terceirização.

LÍDER: Qual é a maior dificuldade encontrada pelo clube para revelar atletas?
Li uma matéria nesta semana que, dos últimos 18 artilheiros da Copa São Paulo, apenas um está jogando na Série A do Brasileiro. Primeiro, vamos definir o que é revelar: vender jogador para o exterior por 10 milhões de euros? Não vai vender. De uma forma ou outra, nós revelamos. Temos Bruninho e Fraga no elenco profissional. Puxando pela memória, vamos encontrar vários nomes. Concordo que falta aquela revelação que resulte em uma boa venda, capaz de pelo menos empatar os R$ 720 mil que nós gastamos por ano. O que estamos buscando hoje é fazer parcerias com clubes grandes. Temos dois jogadores no Palmeiras, um no Flamengo e outros dois no Grêmio. O XV fica com um percentual de cada um deles. Nós precisamos saber qual é a real dimensão que o XV tem no cenário do futebol. Os negócios estão acontecendo cada vez mais cedo, com meninos de 14, 15 anos. Por isso, a importância de termos conseguido o Certificado de Clube Formador, para dar mais segurança ao investimento. O trabalho de base é algo para ser feito a longo prazo, coisa de dez anos, repetindo a filosofia e repensando as falhas. Nós já investimos e, na estrutura física, o XV está bem: tem CT (Centro de Treinamento), parceria com Unimep que oferece suporte psicológico, nutricional e de educação física, temos a parte médica junto à Unimed. Agora, vamos investir no material humano. Nossos profissionais que atuam na base estão constantemente participando de cursos de capacitação e especialização. A partir de 2018, espero que as coisas comecem a girar de uma forma mais positiva. A meta do XV de Piracicaba é alimentar o elenco profissional com 30% a 40% dos jogadores vindos da base.

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