Opinião

Sobre a estrutura do esporte

Já escrevi em outras ocasiões que sou contrário às contratações “pontuais”, sem qualquer vínculo, aplicadas invariavelmente em eventos como os Jogos Abertos do Interior. Dá para entender e às vezes até aceitar, mas não dá para negar que a política vai na contramão dos princípios do certame criado em 1936: revelar atletas e promover a prática esportiva entre cidades do interior paulista. Infelizmente, não é o que acontece. Culpa de interesses que extrapolam os limites do esporte.

A busca pela vitória a qualquer custo prejudica o conceito de base. A prioridade não pode ser o resultado imediato, em detrimento do trabalho certamente mais vitorioso, mas a longo prazo. Me preocupa saber que Julia Romanscaia, damista da Moldávia, “represente” São Bernardo do Campo; ou que o judoca Ilias Iliadis, da Grécia, defenda Mogi das Cruzes. É triste constatar que alguns deles viajam para cá três dias antes de competir, brigam por uma medalha como um turista que busca um souvenir e voltam para casa com a conta bancária um pouco mais encorpada. Há a necessidade do vínculo. Felizmente, Piracicaba diminuiu a prática – mas já foi “representada” por nomes como a paraguaia Verônica Cepede e o argentino Augustin Velotti no tênis.

Vale a pena contratar estrangeiros “pontuais” em vez de apostar no trabalho de base? Não estou convencido. O resultado deve carregar embutida uma análise – é assim que funciona qualquer projeto sustentável. Turbinar as delegações aumenta consideravelmente as possibilidades de medalha, embora todo esporte de alto rendimento traga consigo o risco do fracasso. A estratégia pode, ainda, comprometer a formação de talentos – que obviamente precisam de suporte para evoluir.

Investir no futuro não é a solução mais simples, mas é a que pode trazer mais frutos. A iniciativa passa pelo planejamento. O esporte desperta interesse; faz do investimento uma aposta ganha. Desde que, evidentemente, haja um trabalho sério e estruturado. Os resultados? Eles são, sim, necessários para qualquer administração. Mas não a qualquer custo. A cobrança deve existir e precisa estar aliada à estrutura. O resto é pura maquiagem.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do LÍDER

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