Opinião

Redenção

EDITORIAL

O livro que narra a conquista inédita da Copa Paulista pelo XV de Piracicaba está repleto de histórias saborosas que constroem a maior delas: o resgate da identidade do clube. Há copiosos candidatos a heróis: Rodrigo, ressurgido de uma lesão complicada para a glória, em jornada ruim, mas que findou com dois gols – o que evitou a derrota e o que consolidou a vitória; Romarinho, renegado em Penápolis e com o status de ‘sobra’, símbolo de compromisso e entrega; Mateus Pasinato, capacitado, humano, de injusto vilão a saborear o doce gosto do triunfo.

Em Araraquara, Mateus Pasinato vestiu o DNA do XV de Piracicaba: destemido e valente; persistente. Ganhou para a eternidade o prestígio de herói. Há o protagonismo de Clayton, o menino que perdeu em 2007 como promessa, caiu de joelhos e entre lágrimas como homem, em Itápolis, e entrou para o olimpo numa saga provavelmente nunca antes repetida. Ressalte-se o engajamento da diretiva da instituição: correta como deve ser, centrada como antes não havia sido, profissional como o futebol exige.

Celso Christofoletti é o responsável maior pelo êxito. É o comandante. Recuperou o respeito à base de trabalho – desta vez, cercado por componentes que contribuíram para o resgate dos valores do clube. O torcedor reativou o sentimento de fazer parte do XV que havia perdido. Longe está a patética postura de chamá-los de ‘meia-dúzia de bandidos’. Pelo contrário. O detalhe de Christofoletti ao lançar a medalha para os torcedores é histórico e mostra desprendimento. O que os fanáticos pelo XV fizeram na belíssima Arena da Fonte não surpreende; é corriqueiro, inexplicável e inigualável. O XV tem nas arquibancadas seu maior patrimônio – e parece entender isso.

Para eles, estão virados os holofotes. Mas as melhores histórias ficam gravadas no escuro. Ninguém mais do que Cristiano Cavalcante queria vencer a Copa Paulista. Injustamente apedrejado há oito anos, quando estava debaixo das traves no terceiro gol do Atlético Sorocaba que calou o Barão da Serra Negra, Cristiano teve o trabalho como preparador de goleiros contestado quando Mateus Pasinato errou. Não é preciso observar mais do que três treinos de Cristiano para aceitar sua competência – e idem no aspecto psicológico. O herói de Araraquara foi preparado por ele. Heróis que, como o XV, nunca se rendem.

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