Atletismo

‘Quem é essa negra que corre e desfila elegância?’

Aos 82 anos, dona Odete se orgulha de vários feitos: o maior deles, fazer o bem

Odete Martins Teixeira, mãe preta, atleta da Selam Piracicaba
Mamãe África exibe orgulhosa a sua imagem no muro do estádio Barão da Serra Negra (Foto: Líder Esportes)

“Quem será aquela negra que desfila e dança sem perder a elegância?”. Era essa a pergunta que se fazia há 20 anos no antigo Clube Treze de Maio, em Piracicaba. A negra é dona Odete, ou simplesmente Mamãe África, como faz questão de ser chamada. Achou o rosto dela familiar? É bastante provável que você já o tenha visto. Aos 82 anos (não parece!), ela está todos os dias no Barão da Serra Negra – e, pasme, do lado de dentro e também de fora. Como? Orgulhosa, Mamãe África explica em frente à pintura de seu rosto, estampada no muro do estádio municipal, no cruzamento entre as ruas Silva Jardim e Moraes Barros, numa pausa após a corrida habitual na pista de carvão.

Desde que foi chamada para o Jori, Mamãe África nunca perdeu uma competição da terceira idade

“Sou Odete Martins Teixeira, completei 82 anos no dia 6 de outubro e sou piracicabana nascida na rua Riachuelo, vizinha da chácara do seu Bebé”. O cartão de visitas, cheio de vigor, dá pistas do fôlego que esbanja Mamãe África. Fôlego e charme, segundo ela própria. Foram essas as características que a trouxeram para o esporte. “Eu dançava e desfilava no Clube Treze de Maio e todo mundo admirava minha força. ‘Quem será aquela negra?’, perguntavam as pessoas que viam eu andar. Alguém falou isso para a Margarida (Arruda de Oliveira, técnica de Piracicaba) e ela começou a correr atrás de mim”, contou dona Odete.

Mamãe África também se agarra às estatísticas para contar seus feitos. A dança foi a academia dela até receber o convite para participar da equipe da terceira idade. Isso aconteceu em 2006. De lá para cá, Piracicaba venceu todas as dez edições que disputou dos Jori (Jogos Regionais do Idoso). “É isso mesmo, desde que entrei, não perdemos mais. Piracicaba só está ganhando o ouro, não perdemos mais. Essa negra aqui tem muita força”, disse, rindo, a decacampeã regional.

MAMÃE ÁFRICA

E qual a razão do enorme orgulho com o qual dona Odete estufa o peito para dizer que é a “Mamãe África de Piracicaba”? É simples. Ela mesma explica. “Sou de raízes africanas, minha bisavó era de Moçambique e veio para cá trabalhar com o doutor Botelho (médico que, segundo dona Odete, hoje vive em Goiânia). Eu fui criada assim. Lá eu fui cozinheira, costureira… Olha, eu fiz um pouco de tudo e não tinha tempo ruim não, viu? Só não fui professora. Eu ia ensinar o quê, meu filho?”, relatou, para pouco depois voltar atrás. “Ah, mas na verdade eu ensinei o “tambor” para os moços da capoeira. Dancemos e ensinemos o tambor”.

O biotipo favoreceu dona Odete no atletismo. E com as conquistas, vieram as homenagens. “Imagine só quando me viram com toda força e elegância? O Barão da Serra Negra queria eu aqui. É por isso que minha ‘carranca’ está aqui no muro. Eu corro, caminho, dou trote, o que mandarem eu estou fazendo. Esses dias, meu querido, eu corri seis quilômetros, acredita? Nem eu sei o que eu fiz para conseguir. Para idade minha, está bom demais, né? Eu lembro que corri nos Jogos (Jori) em Mogi Guaçu, ganhei e o prefeito de lá ficou atrás de mim para fazer foto! Eu gostei disso!”, recordou.

MÃE PRETA 03

Dona Odete corre em volta do gramado do Barão da Serra Negra: motivação é ‘fazer o bem’ (Foto: Líder Esportes)

MEMÓRIAS

O sorriso de Mamãe África revela também a sensação de dever cumprido. Viúva há algumas décadas, ela foi casada com Barbosa, ex-goleiro do CAP (Clube Atlético Piracicabano). Com orgulho, fala de Catarina, sua única filha. “Casei em 1964! Na época, eu pegava o bonde em frente à Catedral para ir até a Vila Rezende com a ‘turcaiada‘. Meu falecido marido era goleiro do Atlético, o Barbosa! Tivemos a Catarina, que hoje é massagista. Ela é estudada!”, contou. Já com o semblante mais sério, embora sem perder a articulação nos gestos, dona Odete muda o foco da entrevista, que parecia ter acabado, mesmo sem uma nova pergunta. É como se quisesse dizer aquilo há algum tempo.

“Sabe que hoje eu estou feliz porque minha história é toda feita com chave de ouro, meu filho. Fiz tudo certinho, nunca fiz o mal a ninguém, só fiz o bem sem olhar a quem. É para frente que se anda e ajudo quem pode com minha sabedoria. Principalmente a juventude. As coisas mudaram muito, sabe. Você não teve a sorte de viver no tempo que eu tive. Mas sabe o que é? Falta alguém para orientar melhor, conversar com essa juventude, acabar com o vandalismo. O esporte ajuda isso, viu? Oração também. Todos os nossos santos e orixás lá em cima. Porque aqui em baixo, não dá para confiar em ninguém”. E ponto final. Palavra de Mamãe África.

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