Opinião

Portas abertas

Meu esporte favorito sempre foi o futebol. Grande novidade, não é mesmo? Desde pequeno, acreditava que poderia ganhar meu sustento no mundo da bola. Aos 12 anos, eu já tinha maturidade suficiente para saber que isso jamais aconteceria em campo. Não conta para ninguém, mas eu provavelmente fui o centroavante mais desengonçado que o XV de Piracicaba não teve. No quinto ano do ensino fundamental, decidi fazer jornalismo. Há 10 anos na área, acho que acertei.

Lembro quando fui contratado pelo Jornal de Piracicaba e aguardava com ansiedade a primeira pauta. Depois de anos na arquibancada, eu seria mais um profissional no campo, ainda que sem chuteiras. O Erivan Monteiro, meu primeiro editor aqui, escalou meu nome para o Sesc. O Eduardo Castellari, assessor do XV, lembra bem do episódio e ainda hoje ri comigo quando surge a história: na minha primeira pauta, fui cobrir uma apresentação de esgrima. Dá para colocar no currículo.

A segunda pauta foi também não foi futebol. Eu deveria ir com o Marcelo Germano, excelente fotógrafo, acompanhar a história de um molequinho de 7 anos que começava a chamar a atenção na ginástica artística. Não vou mentir: fui menos empolgado para a pauta do que você está imaginando. O que mudou o meu interesse pela pauta foi a entrevista com o professor do menino promissor, Daniel Biscalchin. No papo com ele, educado e sincero, eu comecei a entender o discurso batido que via apenas na TV, quando algum atleta brasileiro conquistava algo importante e relembrava as dificuldades que havia superado.

Daniel Biscalchin é um cara tão verdadeiro que não conseguia esconder uma das preocupações que tinha com Diogo Brajão Soares, o molequinho de 7 anos, que se escondia atrás dos aparelhos com vergonha de sair na foto. “Ele tem bastante talento, faz coisas que meninos na idade dele não fazem. Mas, ele vai passar por uma fase de transformação na vida dele, a adolescência. Não dá para dizer o que ele vai ser, mas, se ele quiser ser grande no esporte, tem potencial”. Daniel sempre cuidou de Diogo. Aprendi a valorizar essa relação entre técnico e atleta com eles, embora eles não saibam disso.

Isso aconteceu em 2010, não me lembro o mês. De lá para cá, bastante coisa passou e Diogo está mais para realidade do que para promessa. Na semana passada, aliás, aconteceu algo bastante importante. Daniel viajou ao Japão com Diogo, agora adolescente e mais respeitado no meio da ginástica, mas ainda bastante tímido. No Oriente, participaram de um evento internacional de altíssimo nível. Os melhores ginastas do mundo, na faixa etária, estavam lá. Troquei mensagens com Daniel para saber o andamento da competição.

“Léo, a experiência que estamos vivendo aqui não tem preço. Amanhã vamos disputar três finais. Mas, vou te falar, o nível dos caras é maior do que eu imaginei”.

“Léo! Conseguimos! Não é que deu certo? Bronze!”.

Recebi as duas mensagens com enorme alegria, mais do que você pode imaginar. O triunfo de Daniel e Diogo é significativo pelo que hoje entendo que representa o esporte. Mais do que a medalha, no pódio de Yokohama estava representada uma história bonita entre técnico e atleta, de enormes contratempos vencidos, de noites em claro montando planejamento e séries repetidas à exaustão.

O esporte de base é fundamental, forma pessoas, dá a elas oportunidades. O alto rendimento é a extensão do trabalho e do bom exemplo. Investir nisso é acreditar no poder transformador do esporte. Daniel, com imensa dificuldade, abriu uma porta na vida de Diogo e tantos outros meninos que passaram pelo belíssimo trabalho que faz. Diogo, acredito, fará de Daniel um treinador medalhista olímpico. Os dois me ajudaram a entender, em 2010, que jornalismo esportivo não é só futebol.

Muito obrigado.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do LÍDER

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