Opinião

Pontapé no planejamento

A retificação da portaria Portaria G.CEL5, publicada quarta-feira (8) no Diário Oficial do Estado de São Paulo, estabelece os critérios para cadastramento de atletas na participação do calendário de eventos da SELJ (Secretaria de Esportes, Lazer e Juventude). A alteração fundamental é a adoção do vínculo de atletas para disputa dos torneios realizados pela Pasta. Assim, os esportistas têm de estar registrados pelo mesmo município entre os dias 15 de março e 31 de dezembro de 2017, período que compreende a temporada.

De acordo com a SELJ, a portaria atende ao pedido de municípios, “que solicitavam medidas no sentido de apoiar a formação e identificação de atletas por meio das cidades”. A secretaria justifica que a alteração gera “o retorno do vínculo do atleta com o município”. A diligência, sob o ponto de vista da inocência, poderia indicar o fim da contratação de ‘atletas de aluguel’, ‘estrangeiros’ que mal sabem qual rodovia leva ao brasão que o contrata para disputar eventos como os Jogos Regionais e Jogos Abertos do Interior.  Na prática, a história é outra.

A análise de que a retificação da portaria serve de estímulo para a formação de atletas e abre oportunidade de investimento concentrado no esporte local, é absolutamente manca. Pior. O anúncio da medida, de caráter imediato e feito exatamente uma semana antes do registro, é um pontapé no planejamento de qualquer dirigente ou treinador sério que trabalha com o alto rendimento. Ao lixo os pré-contratos. O maior prejudicado? O próprio atleta.

Pela circunstância como o esporte é estruturado no país, pode-se afirmar sem margem de erro que é praticamente impossível sustentar o sonho do alto rendimento com o registro único. As competições como os Jogos Abertos do Interior funcionavam como ferramenta de sustento para os atletas contratados sobreviverem. Breve pausa. Clique aqui para ler o que penso sobre a política desenfreada de contratações para eventos pontuais, em coluna publicada dia 24 de janeiro do ano passado. Minha postura é contrária.

A questão é que a adjacência da medida não significa qualquer movimento em direção à fomentação do esporte. A iniciativa, insisto, deveria passar pelo planejamento. O esporte faz do investimento uma aposta ganha; desde que haja seriedade e estrutura. É impossível preparar-se para o calendário no piscar de olhos. Como é que se forma um grupo homogêneo e vencedor do dia para noite? A ladainha de voltar a atenção para a base é balela. Há recursos suficientes para investir no preparo de novos atletas? A cobrança será proporcional ao investimento? Os resultados serão analisados apenas a longo prazo? Não acredito.

Não é uma portaria paliativa que vai resgatar os princípios dos Jogos Abertos, cujos pilares se baseavam na revelação de atletas e promoção da prática esportiva. A medida só muda o foco do problema, que continua existindo na sua cerne: a falta de planejamento, seja do ponto de vista estrutural ou em função do amadorismo político. O fardo, enquanto isso, é carregado pelo atleta que vê cada vez mais limitadas suas oportunidades de sustentar o próprio sonho e perde cada vez mais tempo pensando em situações que desviam seu caminho. Em português claro: tapando buraco.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do LÍDER

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