Opinião

Paralimpíadas

Será que estamos mesmo preparados para receber atletas? Receber atletas? Sim, as Olimpíadas terminaram, mas as Paralimpíadas estão apenas começando. Ingressos sobram, investimentos faltam. Não temos dado valor a esses atletas, e precisamos! As Paralimpíadas são um evento relativamente recente. Embora em 1888 já era possível se verificar clubes em Berlim que incentivavam surdos a praticarem determinadas modalidades, foi, de fato, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que praticantes de modalidades para deficientes começaram a ser chamados de atletas paralímpicos.

Tudo começou com a brilhante ideia de um médico chamado Ludwig Guttmann, considerado o pai do paradesporto, de utilizar-se do esporte para ajudar na recuperação de soldados mutilados pela guerra e alguns pacientes paralíticos. O mesmo começou por simples arremessos de bola para exercitar os membros superiores dos pacientes e notou que os reflexos da iniciativa produziram um aumento de resistência física e da autoestima dos mesmos. Dali em diante, a evolução foi natural, as competições apareceram e a ideia de que todas as deficiências poderiam ser abarcadas pelo esporte fora tomando vulto.

Foi então que, em 1948, na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, o médico organizou duas competições para seus 16 atletas portadores de deficiências, uma de arco e flecha e outra de basquete em cadeira de rodas. O mundo, então, passou a olhar o esporte para deficientes com outros olhos e, em 1960, já sob o nome de Jogos Paralímpicos, a competição iniciada por Guttmann foi disputada em Roma, na Itália, contando com 400 inscritos, 23 países e oito modalidades, das quais seis, até hoje, permanecem no programa paralímpico.

De lá para cá, as Paralimpíadas cresceram e hoje contam com 23 diferentes modalidades, 528 provas, 176 países participantes e mais de 4 mil atletas. Um ambiente considerável, com uma energia inexplicável. O Brasil, aliás, é considerado uma das potências mundiais no paradesporto, tendo conquistado 21 medalhas de ouro em Londres e terminando os Jogos na sétima colocação.

Tive a oportunidade de ter um contato mais próximo com o movimento paralímpico por participar durante alguns anos da Comissão Disciplinar Permanente do Tribunal Disciplinar do Comitê Paralímpico Brasileiro e até hoje guardo com carinho tudo o que pude aprender. Os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos durante anos pelo Comitê Paralímpico Brasileiro são de excelência e a experiência paradesportiva supera completamente nossas expectativas, nos faz entender a beleza do esporte em sua essência, nos faz enxergar a importância do desenvolvimento da sociedade por meio do esporte e por certo nos deixa muitos legados e revela muitos campeões.

Sem holofotes, sem muitas verbas, mas com muita garra e força de vontade, as Paralimpíadas chegam ao Rio de Janeiro e o brasileiro tem a oportunidade de, pela primeira vez na historia, participar dessa experiência. Posso garantir: é simplesmente indescritível! O Brasil tem um excelente histórico e atletas fantásticos. O Brasil é campeão. Valorizemos essas conquistas, elas são por vezes mais suadas do que as de muitos atletas de modalidades olímpicas. Elas carregam consigo, naturalmente, uma grande história de superação. E essa é a beleza do esporte. Ele cabe em qualquer lugar, para qualquer um. Esporte é vida. Celebre com igualdade as Paralimpíadas, viva essa experiência, os atletas brasileiros estão em casa e precisam mais uma vez de nossa torcida!

Fernanda Bini é advogada, especialista em direito desportivo e colunista do portal LÍDER

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