Opinião

Nós e o legado

As Olimpíadas enfim começaram. Foram anos de espera, expectativas e agora só o que queremos é torcer. Esquecer um pouco a realidade e voilà… viver como se estivéssemos no paraíso. Mais ou menos. Algumas falhas começam a aparecer e consequentemente críticas aos montes sobre muitas ocorrências. Errados? Não. Com razão, mas creio que precisamos aprender algumas coisas. Uma das imagens mais significativas até o momento nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, ao menos para mim, vem de um simples exemplo: a atitude dos japoneses recolhendo o lixo jogado no chão.

Não estou colocando em questão as significativas participações dos atletas em suas modalidades; estes são, sem dúvida alguma, os grandes heróis e protagonistas do evento e torcerei por cada um deles. Mas os detalhes, os costumes, as reações dos estrangeiros em nosso país, nos trazem um pouco, talvez, do que é natural para eles, do que também poderia ser para nós. E por que não aproveitarmos os bons exemplos?

Aliás, eles já fizerem isso na Copa do Mundo, em 2014. E não aprendemos nada ainda? Tenho dito e repetido algumas vezes, temos um probleminha em nosso país: somos um país em que só temos direitos e não deveres. E não dá só para culpar os brasileiros. As leis de fato não ajudam neste quesito. Nossa Constituição Federal de 1988 está repleta deles. Logo em seguida veio o Código de Defesa do Consumidor. De lá para cá, criamos uma geração cheia de direitos, sem obrigações. Isso é ruim. Aliás, isso é péssimo.

E por que olhar esses ‘detalhes’? Porque isso não é um mero detalhe. Isso é que é legado. Legado não é apenas aquilo que podemos tocar, ver, usufruir. Legado é também aquilo que aprendemos, o quanto somos capazes de evoluir. Se temos dificuldades em conhecer outras culturas seja por falta de recursos seja por falta de oportunidades, durante os Jogos podemos ter uma verdadeira troca de experiências e um grande aprendizado, apenas observando. Observando e, porque não, seguindo exemplos. Sendo exemplos. Por que esperar um estrangeiro começar? Por que não sermos melhores que nós mesmos e darmos o exemplo? Não apenas durante os Jogos, claro!

Veja que sem falar uma só palavra em português, os japoneses causaram um impacto. Um dos brasileiros que estava ao lado deles, vendo a cena, simplesmente começou a fazer o mesmo! Ao ser entrevistado, o mesmo revelou que se sentiu incomodado e destacou: “Quando vi eles agindo dessa maneira, tive que participar também”. Olhar os detalhes, olhar ao nosso redor nos faz compreender o que é cidadania de verdade. Quer ver? Além das Olimpíadas, será que estamos acompanhando com atenção também o processo de impeachment? Afinal de contas, esta é uma das coisas que vai nos sobrar após os Jogos. Que não se repita a velha historia do “pão e circo”. Isso já seria um grande aprendizado!

Assista as Olimpíadas, torça, vibre, chore, se emocione. Mas não se esqueça jamais de olhar ao seu redor. De olhar os detalhes. O contexto. Os pequenos gestos. De valorizar o exemplo. De fazer a sua parte. Por que legado também é evoluir em cidadania. E talvez os japoneses sem querer, naturalmente, jogaram na nossa ‘cara’ que precisamos agir. Temos direitos sim. Mas também temos o dever de aproveitar as boas e más experiências e refletir, evoluir, para cada um poder dar o melhor de si. Só assim poderemos dar o melhor como país e não apenas fazer uma maravilhosa abertura dos Jogos Olímpicos.

Fernanda Bini é advogada, especialista em direito desportivo e colunista do portal LÍDER

Início