Opinião

Negócio viciante

Sou viciado no jornalismo esportivo. Confesso. Por outro lado, não tenho a mínima intenção de me livrar dessa dependência. E por mais incrível que possa parecer, eu aprecio a maioria das modalidades: do badminton ao xadrez; do hipismo à natação; do curling (aquele da vassourinha) a todos os outros esportes de inverno; da bolinha à ‘bolona’: da laranja do basquete à pesada do futsal, passando também pela a oval do rúgbi.

O esporte número 1, é claro, é o futebol. Esse seria a minha unanimidade se não fosse uma peculiaridade: não tenho muita paciência para o futebol internacional. É muito ‘certinho’ e sem surpresas. Lá fora, principalmente na Europa, os maiores sempre ganham e os menores sempre perdem; é chato para burro! Sou vidrado nas competições nacionais (do Brasileiro a Série D, passando pelas copas, regionais e estaduais), e nos torneios de seleções, como eliminatórias.

Dias desses, estava relembrando com um querido amigo as nossas peripécias do início de carreira no jornalismo esportivo. Há 20, 25 anos não havia internet, o celular ainda ‘engatinhava’ (ou seja, nunca funcionava) e, por isso, buscar a informação era algo para um verdadeiro operário da notícia. Não é saudosismo. Mas era o tempo do ‘jornalista-raiz’: tínhamos acesso aos jogadores, aos dirigentes… Quantas vezes eu cheguei a almoçar com o elenco do Guarulhos, time da cidade do mesmo nome, na Grande São Paulo?

Acompanhava a equipe na Segunda Divisão e vivia praticamente com os atletas – me sentia um deles! Época em que o ‘furo’ (quando o jornalista noticiava a informação primeiro que os outros colegas) era o troféu de todo profissional de imprensa. Atualmente, vejo com tristeza os rumos do jornalismo. Tudo robotizado. As assessorias de imprensa pautam literalmente os repórteres, que, por sua vez, têm medo de perguntar o que precisa ser perguntado para não perderem a fonte. Raros são os casos de independência nas redações. Infelizmente. Mas, nós amamos essa coisa. Não tem jeito!

Na escola onde leciono, mantenho há dois anos um projeto para ensinar o jornalismo. As técnicas básicas. Turma de adolescentes, ensino fundamental, anos finais. A maioria, por incrível que possa parecer, não se liga muito em futebol. No máximo, um esporte de lutas. Ou um xadrez. Ou um tênis de mesa, além do futsal. Futebol, pouco. Quando muito para me lembrar que ‘o Palmeiras não tem Mundial’. Ingênuos… Pelo menos são curiosos. Gostam de saber como é produzida a notícia. Apreciam principalmente o telejornalismo. A Bia e o Luis, dois dos mais destacados estudantes da Eletiva, pensam no jornalismo como profissão. Mas pensam somente… Sabem que para ganhar dinheiro com a comunicação, têm de ser muito bons. E eu já os alertei de que esse ramo está mais do que nunca escasso.

Em que pese todo esse cenário, é o nosso porto seguro, o nosso território. Escrever e falar são a nossa ‘pinga’. O jornalismo é o nosso sério divertimento. Batemos e apanhamos com responsabilidade, como diria o filósofo Felipe Melo. Então, assim como espero que não somente a Bia e o Luis vejam a comunicação como algo lindo a ser seguido, espero que o jornalismo esportivo não perca a sua magia, seja no glamour da Liga dos Campeões ou na simplicidade da Copa Paulista. Jamais!

Erivan Monteiro é jornalista e cronista esportivo

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