Karatê

Natalia Brozulatto: a mulher além do tatame

Atleta fala sobre infância, gostos pessoais e o que ainda deseja conquistar

Natalia Brozulatto, atleta de karatê da academia Sport Way
Natalia Brozulatto mantém o sorriso fora do tatame: 'Eu amo o que faço' (Foto: Leonardo Moniz/Líder Esportes)

Natalia Brozulatto nasceu em Marília no dia 28 de janeiro de 1990. Recém-nascida, mudou-se para Limeira, cidade em que iniciou sua trajetória no karatê pelo clube Gran São João, aos 9 anos de idade. De lá para cá, tornou-se conhecida internacionalmente pela carreira que construiu em Piracicaba, há mais de dez anos, orientada pelo técnico Diego Spigolon, com quem divide o tatame e o teto: eles são casados e têm um filho, Nikolas. O auge da carreira veio em 2015, com a histórica medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá. Após o período de gestação, tornou-se decacampeã brasileira e é nome cotado para estar em Tóquio, nas Olimpíadas de 2020. Mas, e quando está sem quimono, fora do tatame? Nesta entrevista ao LÍDER, Natalia Brozulatto abre o jogo sobre quase tudo, menos karatê: a infância, os gostos pessoais, o papel de mãe e o que ainda deseja conquistar. Nas linhas abaixo, a história de uma mulher batalhadora que mantém no rosto o sorriso de menina.

LÍDER: A ideia é que você fale de qualquer coisa, menos de karatê. Mas, para começar, a dúvida é se a imagem que vemos quando você está lutando, de cara fechada, se repete no dia a dia. Você é uma pessoa explosiva?
Ah, eu sou, sim. Mas o karatê ajudou bastante a me tornar uma pessoa mais calma, viu? Antes, eu era mais explosiva. Essa filosofia da arte marcial trouxe um pouco mais de tranquilidade, ajudou bastante nesse ‘lance’ de ter que resolver problemas rápido. Isso foi o karatê que me ensinou. Eu sou carrancuda, busco meus objetivos e às vezes desanimo, mas levanto no dia seguinte e luto pelo que quero.

Natalia Brozulatto, atleta de karatê da academia Sport Way

Natalia e Diego Spigolon: quando possível, a atleta gosta de se arrumar (Foto: Mauricio Bento/Líder Esportes)

LÍDER: Você é vaidosa a ponto de não sair de casa sem se arrumar?
Boa pergunta. Aliás, eu quase morro com as fotos que vocês (imprensa) publicam de lutas minhas, quando estou completamente descabelada (risos). Mas na luta é assim, né? Esquecer a vaidade e enfiar a mão. Eu sou vaidosa, gostaria de ser muito mais e queria ter mais dinheiro e tempo para me arrumar. O que eu tento é sempre estar com as unhas feitas, cílios colocados e cabelo arrumado. Geralmente, não é assim que vocês me encontram (risos).

LÍDER: O Diego Spigolon, além de marido, é também seu treinador. Como é a relação de vocês do lado de fora do tatame?
O Diego é bastante tranquilo. Eu conheci ele antes de conhecer, na verdade (risos). Já havia visto ele nas competições e quando vim para Piracicaba estudar, procurei qual academia tinha convênio com a prefeitura, para tentar uma bolsa pelo karatê. Foi assim que tive contato com ele. Vim para cá fazer um teste e fui aprovada. No relacionamento de treino, viramos grandes amigos, depois começamos a ‘ficar’ em setembro de 2010. Hoje, estamos bem casados. O relacionamento é muito bom, conversamos muito sobre karatê, estratégias, competições. Acredito que dá muito certo pela maturidade que temos para separar a relação profissional do que envolve marido e mulher.

‘Minha relação com o Diego dá muito certo pela maturidade que temos para separar o lado profissional do familiar’

LÍDER: Como foi o primeiro encontro de vocês? A iniciativa foi de quem?
Acredita que não teve isso de primeiro encontro? (risos) Foi algo tão natural que não teve essa coisa de chamar para sair, simplesmente aconteceu.

LÍDER: Não vale ficar em cima do muro: em casa, quem dá a última palavra?
Você quer me comprometer (risos). A nossa convivência é super tranquila, não temos isso de dar última palavra. A gente se entende super bem.

LÍDER: A relação de vocês rendeu um fruto, o Nikolas. O filho mudou quanto a rotina de vocês?
Muda tudo. Não consigo imaginar minha vida sem meu filho. O atleta geralmente é ‘egoísta’, precisa pensar nele, no rendimento que vai ter. Agora, quando chega uma pessoinha dessas, muda completamente. Eu penso muito mais nele do que em mim. Hoje, eu abro mão de treinar e da disciplina para cuidar do meu filho se ele está doente.

LÍDER: Você viaja bastante para participar de competições. Dá para conciliar e acompanhar o crescimento do filho?
Não é fácil. Aliás, é a parte mais dolorida. Desde a minha primeira viagem, quando eu ainda amamentava ele, me acompanhou no primeiro semestre inteiro. Depois desses seis meses, tive de começar o desmame dele para ir disputar o Campeonato Mundial, na Áustria. Não foi fácil. Sempre que eu pensava em filhos, planejava isso mais tarde, quando encerrasse a carreira. Eu queria criar meu filho em casa, mas não é assim, né? A realidade é diferente e eu preciso de ajuda. É claro que eu sei que ele está em muito boas mãos com os avós, mas gostaria de estar mais perto.

LÍDER: Nas poucas horas de lazer, o que você faz?
São poucas, mesmo. Eu gosto de ir ao shopping, passear com o Nikolas. Quero levar ele ao zoológico. Como não tenho folgas longas, não dá para programar uma viagem em família, por exemplo. Gosto de sair para jantar.

Natalia Brozulatto, atleta de karatê da academia Sport Way

Natalia acumula os papéis de atleta de alto rendimento, esposa e mãe (Foto: Leonardo Moniz/Líder Esportes)

LÍDER: E o que você gosta de comer?
Eu sou comilona, meu filho (risos). Gosto de quase tudo. Bom, pepino e pimentão são indigestos para mim, mas eu como (risos). Não nego prato de comida: gosto de churrasco, gosto de comida japonesa, gosto de massa…

LÍDER: Mas e a dieta?
Para quem precisa, deve ser difícil (risos). No meu caso, minha categoria vai de 61 aos 68 kg. Como eu peso 62 kg, é mais tranquilo. Não tenho essa preocupação de perder peso, mas estou sempre atenta ao percentual de gordura no corpo, eu sei da importância disso para o rendimento, então é uma preocupação minha ter uma dieta equilibrada.

LÍDER: A sua infância, como foi?
Eu tenho dois irmãos e era um grude com minha irmã. Foi bacana, mas comecei a trabalhar muito cedo, então, sinto que perdi muita coisa, como se a infância fosse interrompida. Meus pais se separaram quando eu tinha 14 anos. Aos 12, eu tive meu primeiro emprego. Tem coisas que eu não vivi. Por exemplo: uma adolescente tem a fase de ir para balada. Eu não tive. Não me recordo de um Natal em família, sabe? São as coisas que eu sinto mais.

‘Eu já me senti ‘descartada’, principalmente na minha gestação. Foi difícil’

LÍDER: Você se dá bem com a sua família?
Sim, melhorou bastante. Os filhos estão criados, cada um com sua vida bem encaminhada. Hoje, somos bem unidos.

LÍDER: A Natalia Brozulatto, se não fosse atleta, escolheria qual outra profissão?
Não faço ideia (risos). Nunca pensei nisso, sabe?

LÍDER: Você gosta de qual esporte além do karatê?
Eu joguei vôlei durante muito tempo, eu adorava, mas hoje é só o karatê mesmo. Tenho um grupo no WhatsApp com as meninas que jogavam comigo na época e elas sempre marcam de se encontrar. Uma vez, deu certo e fui jogar, mas não foi a mesma coisa (risos). Passou a fase, viu?

LÍDER: Na TV, você assiste algum esporte?
Não. Gosto de vários esportes, mas não tenho muito tempo para acompanhar.

LÍDER: Gosta de filmes?
Eu gosto, mas é aquela coisa, não dá tempo para assistir. Eu amo comédias, filmes alegres. Procuro ver coisas que trazem felicidade.

LÍDER: Você é formada em educação física. A vida acadêmica contribuiu quanto em sua vida?
Eu sempre quis isso, pois amo praticar esportes. Desde pequena, eu me destacava em qualquer atividade que eu fazia. Me formar em educação física foi uma realização. Faço o que gosto.

LÍDER: Como é que você imagina que vai estar daqui dez anos, quando encerrar sua carreira?
Para falar a verdade, eu não imagino (risos). Nunca pensei, mas, com certeza, estarei ligada ao esporte. Será consequência do que estou plantando.

LÍDER: Em 2016, você se candidatou ao cargo de vereadora. Como foi essa experiência política?
Foi interessante, mas não é algo que penso agora.

Natalia Brozulatto, atleta de karatê da academia Sport Way

O filho Nilokas é fruto do relacionamento com Diego Spigolon (Foto: Leonardo Moniz/Líder Esportes)

LÍDER: Você já se sentiu descartada?
Sim, com certeza. Principalmente no começo da minha gestação. Eu tentei ser bastante justa, sabe? Procurei avisar sobre a gravidez para as pessoas importantes no karatê, na seleção brasileira. Falei com o secretário de esportes de Piracicaba e com o técnico de Itajaí (SC), que era a cidade que eu também representava. Várias pessoas viraram as costas, cortaram patrocínio sem justificar. Para mim, isso foi muito difícil. De Piracicaba e da CBK (Confederação Brasileira de Karatê), não tenho o que falar, deram apoio total. Mas foi complicado o que aconteceu em Santa Catarina. Ter um filho é um bem tão precioso… Enfim, sei que não fui a única a sofrer com isso.

LÍDER: Esqueça o karatê. O que falta para a Natalia Brozulatto ser uma mulher realizada?
A gente sempre busca a estabilidade enquanto ser humano. Mas isso é algo incansável. Eu penso em trabalhar muito para dar uma condição boa para meu filho, para nossa família. Não é o que falta, é o que eu preciso lutar para continuar conseguindo.

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