Opinião

Minha indignação

Não vi as primeiras horas da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Estava trabalhando. Depois, vi o trecho final e li comentários nas redes sociais. Não consigo aceitar o ‘glamour’ político ligado ao maior evento do esporte. Não faz sentido, embora eu não seja entusiasta da generalização. Dói constatar a discrepância entre a realidade nas ruas e a mensagem efêmera transmitida no Maracanã; a distância é incalculável, infelizmente.

O texto que escrevo às 3h23 da madrugada é cercado pela indignação. Não contra o espírito olímpico, cujos valores deveriam ser comungados por toda a humanidade. Minha repulsa é contra aquilo que o esporte reflete diariamente, não a cada quatro anos. A começar pelo descaso com a base, maquiado por projetos irrisórios e sem qualquer incentivo. Dia após dia, talentos são desperdiçados. Vocações que poderiam ser descobertas nas escolas são condenadas ao ostracismo pela falta de investimento, pela vulgarização dos profissionais da educação física. Deixar a molecada com a bola, para lá e para cá, é caminhar para trás.

Fico indignado ao ver a contradição entre a mensagem de esperança difundida no Rio de Janeiro e a ausência de perspectiva para o aspirante que mal consegue se alimentar, encontra dificuldades para pagar o transporte que o leva aos treinamentos e rifa os poucos bens que conquistou para pagar a inscrição de uma competição qualquer. Não é drama. Basta olhar o esporte sem o ‘perfume’ olímpico para compreender o cenário. O Brasil não interpreta o esporte como ferramenta de inclusão; o discurso disfarça, mas não esconde o rombo existente entre os países que enxergam o desporto como mecanismo de educação. Eis o segredo.

De nada servem os recursos se não há planejamento. Investir não significa distribuir dinheiro. As bolsas criadas sob a ladainha do incentivo andam na contramão da coerência: investimento gera resultado, não o inverso. O Brasil nunca teve política esportiva. Reconheço que minha indignação é consequência da descrença provocada pelas lideranças do país, que viram as costas para o esporte com enorme facilidade. Exceto quando há espetáculo; lá estão os dirigentes eternizados no poder sem deixar qualquer legado – número de medalhas nunca foi legado.

Minha indignação é com os políticos que usam o esporte como plataforma para benefício de interesse próprio. Recepcionam vencedores – e somente vencedores – para sair na foto, como se a imagem fosse capaz de sufocar a verdade – às vezes, infelizmente, é. Gostaria de ver qualquer dia algum político promover Moção de Aplausos pelo esforço, mesmo sem resultado. Desejo ver na legenda de alguma fotografia os dizeres: ‘Eu o apoio também nas derrotas‘. Duvido. O manual do marketing político não permitiria.

Não vou sequer perder tempo em relação ao superfaturamento dos Jogos Olímpicos. Minha indignação não é contra qualquer sigla partidária, embora haja vergonha pela forma como o esporte é tratado. Não se engane; a cerimônia do Rio de Janeiro nunca foi a realidade do Brasil. Há uma relação sensível entre os problemas enfrentados pelo país e o fato de receber o evento. Oras, não existem Jogos Olímpicos sem atletas! E não se formam atletas sem uma política minimamente coerente. Vivemos de fenômenos que, invariavelmente, abandonam a pátria em busca da excelência aqui não encontrada.

O esporte é ridicularizado em nosso país e o marketing olímpico não é capaz de suprir, a longo prazo, as mazelas deixadas pela ausência política. A beleza visual não pode deixar ninguém cego. A visibilidade do esporte pode aumentar, sim, mas é algo passageiro. Basta olhar para as heranças deixadas pela Copa do Mundo. Do ponto de vista do esporte, zero. Financeiramente, acumulam-se as dívidas. Daí minha indignação. Não é complexo de vira-lata ou protesto anti-Anitta. Respeito os gostos. Mas, como brasileiro, exijo que o esporte também seja respeitado.

E, apesar de tamanha indignação, não vou perder uma só prova e vibrarei em todas as conquistas brasileiras. Porque debaixo do uniforme verde e amarelo estão seres humanos que podem transformar o esporte. Eles, sim, super heróis que acreditaram em um sonho distante e conseguiram atravessar um oceano de dúvidas, capazes de converter indignação em perspectiva. O triunfo é consequência do esforço, porém, é preciso entender que do outro lado há alguém que também luta pelo protagonismo. O improvável: eis a beleza do esporte.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do portal LÍDER

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