Corpo & Mente

Menos dor, mais ganhos

Corpo & Mente - Menos dor, mais resultados

Talvez poucas frases sejam mais expressivas nas academias e no mundo esportivo que o famoso ‘no pain, no gain’. O lema assusta por colocar a dor no centro do processo de desenvolvimento físico, o que por si só prejudica a adesão de iniciantes, mais do que incentiva-os, mas ajuda a chamar a atenção: mudanças de hábitos serão necessárias, e não serão fáceis.

Quem quer entrar em forma ou render mais nos esportes descobre que precisará levar os exercícios físicos a sério. E se alimentar melhor. Se possível, também, dormir melhor. Por si só, isso traria certa dificuldade. Tudo, porém, é comprometido quando se entende que, quanto mais difícil, melhores serão os resultados. A experiência mostra que poucas pessoas suportam as exigências de uma dieta restritiva associada a treinos intensos – desistências precoces são a regra. E também mostra que é possível tornar as mudanças, tão necessárias, mais simples; é o oposto do ‘no pain, no gain’: com menos dor, obtém-se mais ganhos.

Workshop - Cassiano de Santis

O segredo é ampliar a visão, somando as leis do comportamento às leis da fisiologia. Essa noção é especialmente importante quando se trata alimentação. A comida está longe de ser apenas um amontoado de nutrientes para o corpo: envolve o paladar (os alimentos saborosos ou não), os momentos (os horários e situações em que fazemos as refeições) e uma rica dimensão social, entre comemorações, presentes doces e quitutes preparados como cuidado.

Tudo isso é revestido por sentimentos, muitas vezes intensos, que favorecem a aprendizagem e a consolidação de memórias. Assim fica mais fácil entender por que dietas e cardápios são deixados de lado tão facilmente.

Ainda além, a restrição de alimentos tem grandes chances de ser associada pelo cérebro a uma motivação negativa, ou seja, ser interpretada como uma experiência a não ser repetida. O comportamento alimentar é bastante complexo, o que torna difícil modificá-lo – e exige o já mencionado esforço. Porém, há formas de se esforçar mais eficientes que apostar na perseverança contra tentações. Algumas dicas podem ajudar. Primeiro, evitar mudar a dieta toda de uma hora para outra: escolher um hábito por vez é suficiente. Depois, identificar as ocasiões em que este ocorre com mais frequência – quando surge a vontade? Por fim, definir um comportamento substituto que possa ajudar a, ao menos, reduzir a frequência do que se quer evitar.

Quer dizer: ao invés de se esforçar para cortar os doces do cardápio, esforçar-se para fazer uma breve caminhada após as refeições – que pode ser suficiente para controlar o apetite pela sobremesa. Para isso, porém, é também necessário entender que um estilo de vida é construído aos poucos, dia após dia – e não sobre bordões.

Cassiano de Santis é psicólogo com formação em Terapia por Contingências de Reforçamento

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