Opinião

Jogo pela vida

Eu queria muito acreditar, mas não consigo. A proposta de paz entre as torcidas uniformizadas da capital é mais uma entre as ‘milhares’ de promessas que já foram feitas ao Ministério Público. Todas sem o efeito necessário. Infelizmente. As organizadas até que começam bem, com uma certa calmaria, mas depois de um curto espaço de tempo reiniciam as brigas. Foi assim desde sempre, por que então deveria mudar? Não seria somente para a Justiça ceder e aceitar novamente clássicos com duas torcidas em São Paulo?

Gostaria que o triste episódio do voo da Chapecoense deixasse o ensinamento  – para não falar ‘legado’, uma palavra que não gosto muito – de união, de fraternidade, de amizade e de rivalidade no sentido mais puro da palavra. Mas sou descrente sim. Sou paulistano e frequentei muito o Morumbi, Pacaembu e o antigo Palestra Itália. O que via nas saídas dos estádios, nas ruas e no metrô é de arrepiar. Nem mulheres eles perdoavam. E digo de algo que vi e vivi nos anos de 1980 e 1990. Imagine agora.

Não vou negar que acho linda a festa feita na arquibancada pelas torcidas uniformizadas. Sabem fazer festa. Todas. Sem exceção. Porém, não fica somente nisso. A violência impera, os cânticos para atacar o grupo rival é uma rotina e a pancadaria nas vias públicas também.

Sou do tempo em que se dividia o Morumbi em clássicos. Fui, por exemplo, ao Cícero Pompeu de Toledo, em 1989, no jogo entre Corinthians e Palmeiras. Era a estreia do goleiro Velloso e o Verdão venceu por 2×0, gols de Gaúcho e Neto – sim, o mesmo que, anos depois, faria história no Timão. Público: 105 mil pagantes. Partido ao meio: seis ‘gomos’ do anel superior para cada torcida. Foi lindo!

Mas não era sempre assim. Uma vez, aos 16 ou 17 anos, não me lembro bem, estava descendo as escadas rolantes do Metrô Anhangabaú, vindo do Morumbi, quando um grupo de torcedores aproveitou que eu estava só e levou a camisa de meu clube de coração. Por sorte, tinha uma blusa. Espero que esteja errado nesta análise, mas, a priori, é a minha opinião. Lamento dizer, mas ainda sou a favor da torcida única nos clássicos. Quem sabe um dia as coisas mudem. Mas, por enquanto, é preferível fazer o jogo pela vida.

Erivan Monteiro é jornalista e cronista esportivo

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