Opinião

Guarde o nome dele

No Brasil, a lógica do esporte está invertida: não é o investimento que leva ao resultado, é o resultado que pode levar ao investimento. Há poucos projetos de formação: faltam recursos e faltam profissionais qualificados para conduzi-los. Piracicaba é relativamente privilegiada neste sentido: aqui, há o básico no que se refere às estruturas e existem especialistas que se entregam ao trabalho de forjar atletas. Veja o exemplo dado pelo karatê. Hernani Veríssimo não ganhou tudo o que ganhou neste ano, o primeiro dele como adulto, por acaso.

O talento não é fabricado, mas é polido. O resultado, entretanto, nunca é garantido e depende de fatores que, às vezes, foge ao alcance do atleta e do corpo técnico. O trabalho diminui a margem de erro, mas não a elimina. Daí a importância da formação: atletas ‘cuidados’ desde a base têm maior condição de sobressair quando chegam ao alto rendimento. É um argumento capaz de explicar o fato de o Brasil não produzir atletas de ponta em série. Aqui, vivemos de fenômenos ou de trabalhos fenomenais – esporádicos, evidentemente.

Não sei se você sabe, caro leitor, mas há um moleque em Piracicaba que, aos 14 anos, vai trilhando o caminho do êxito. Guarde o nome dele: Diogo Brajão Soares. O garoto é ginasta e, se você ainda não ouviu nada sobre ele, é porque provavelmente não tem o costume de acompanhar o noticiário sobre ginástica artística. A coleção de conquistas (importantes) que ele tem é impressionante nas categorias de formação. No Brasileiro Infantil, há uma semana, Diogo ganhou tudo: argolas, barra, cavalo, paralelas, salto, solo e título geral.

Diogo, inclusive, antecipou em fevereiro deste ano a mudança para a categoria juvenil e passou a competir com atletas mais velhos do que ele – e continuou vencendo. O responsável pelo crescimento de Diogo é, exclusivamente, Daniel Biscalchin, ex-atleta, hoje treinador e árbitro nos Jogos Olímpicos. Biscalchin ‘cuida’ de Diogo há anos. É ele o cara responsável pelo planejamento da carreira e, claro, pela educação esportiva e quiçá humana do atleta. Não é fácil convencer um pré-adolescente a abrir mão da vida ‘comum’ para manter vivo um sonho incerto. Mas, Daniel tem cumprido a tarefa com louvor. E, se não houver percalços, Diogo possivelmente brilhará como hoje brilha Hernani, no karatê.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do portal LÍDER

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