Judô

‘Falta esporte nas escolas’, diz treinador de judô

Defensor da formação humana, Mattos vê judô como ferramenta de educação

Beninho Mattos, técnico de judô da academia Heisei
Beninho Mattos, técnico da academia Heisei: esporte contribui para educação (Foto: Arquivo Pessoal)

Via de regra, os ídolos do esporte têm os nomes ligados aos resultados que conquistaram ao longo da carreira. Mas, o esporte não está restrito a treinos, competições e resultados. A filosofia de trabalho proposta pela academia Heisei é clara: “Nós entendemos que quem procura a academia para treinar judô, não tem, necessariamente, que treinar visando competições”, diz Beninho Mattos. O técnico direciona o foco para a formação, sem perder de vista o alto rendimento. Em entrevista ao LÍDER, Beninho avalia que o esporte precisa ser encarado do ponto de vista humano e considera que é uma “ferramenta de educação que ainda precisa ser melhor explorada”, principalmente em escolas. Confira:

LÍDER: Como funciona a filosofia de trabalho implementada pela Heisei?
Em primeiro lugar, nós entendemos que quem procura a academia para treinar judô, não tem necessariamente que treinar visando uma competição. O esporte judô é muito mais do que isso, então a visão que temos de treinamento para uma criança é totalmente diferente da aplicada para um adulto, pois fazemos de forma lúdica. Com a criança, nós temos o objetivo de ensinar respeito, educação, socialização e dar a ela elementos para ser um indivíduo mais completo, tendo mais confiança em si, além de trabalharmos a paciência, determinação, iniciativa e a coordenação motora. Se a criança quiser competir, então nós vamos dar recursos e prepará-la para isso, mas sempre com muito cuidado, porque a pressão de uma competição pode não ser saudável para algumas crianças que ainda não sabem como trabalhar com vitórias e derrotas.

LÍDER: E em relação aos adultos?
Com os adultos, como já existe uma capacidade muito maior de compreensão, trabalhamos a filosofia do esporte e como ela pode beneficiar no dia a dia, melhorando autoestima e autoconfiança, além da parte física que trará benefícios para a saúde. Se o adulto gostar de competição, aí temos um trabalho muito forte nesta área, como demonstram nossos resultados. Independente de competidor ou não, os valores da arte marcial têm que estar presentes, isso é a parte mais importante para nós professores: deixar elementos que o atleta use para o resto da vida e seguir a filosofia do judô.

É raro ver alguma notícia de judocas que se envolvem em problemas, justamente pela forma como ele foi lapidado

LÍDER: Porque você entende o esporte como uma ferramenta importante de educação?
Pelos motivos que respondi anteriormente. Através do esporte, podemos mostrar para uma criança ou adolescente que o esforço e a dedicação podem gerar coisas boas, ensiná-los a tentar, persistir e não desistir, seja pelas vitórias no esporte ou na vida. O esporte melhora a concentração, a rapidez de pensamento, raciocínio e autoestima, além da facilidade para coordenar várias atividades. Isso contribui para o desempenho escolar, por exemplo, e em atividades fora da escola. Sem contar que, como terá contato com pessoas diferentes, o relacionamento interpessoal e os aspectos sociais também melhorarão muito.

LÍDER: Falta esporte nas escolas?
Muito. Embora algumas escolas tenham a prática do esporte como ferramenta de educação, isso se restringe a poucas instituições de ensino e, principalmente, do esforço de professores e diretor daquela escola, mas não há um incentivo governamental que realmente faça a diferença. Aliás, o esporte nunca foi primordial no Brasil.

LÍDER: Você acredita que as artes marciais ainda sofrem certa marginalização pelo fato de serem esportes mais ‘agressivos’?
Alguns esportes talvez, mas no caso do judô a imagem é de um esporte que ajuda muito na educação e na disciplina, e isso tem feito com que seja muito indicado por profissionais como médicos, psicólogos e psiquiatras para crianças com problemas comportamentais. Isso fez com que as pessoas olhassem para o judô com outros olhos e os pais que têm filhos no esporte são os maiores difusores desta imagem. Acredito que o judô hoje é visto como um ótimo esporte, inclusive foi classificado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) como o melhor esporte a ser praticado por crianças e jovens.

LÍDER: Mas é possível interpretar o judô de forma mais humana e ainda assim enxergar a modalidade como competitiva?
Eu acredito que sim. O atleta competidor do judô tem que ser muito preparado física e psicologicamente. Em uma competição, ele é submetido a uma série de pressões e desgastes que só um indivíduo bem preparado pode suportar. Mas não podemos esquecer que antes de chegar neste estágio, todo atleta do judô passou pelas etapas que citei e isso veio com ele, pois é a sua formação. Por isso, é raro você ver alguma notícia de judocas que se envolvem em delitos ou problemas com a sociedade, justamente porque a forma como ele foi lapidado vem de uma base onde o respeito, hierarquia e o esforço são os pilares.

Início