Opinião

Esporte, de lazer ou de participação: filosofia

Diversos são os aplicativos, páginas em redes sociais e internet que, hoje em dia, visam agrupar inúmeros praticantes de diversas modalidades do esporte, visando não só a prática como, também, a socialização e o bem-estar de todos. Trata-se da concretização do desporto de participação. Pessoas se reúnem para a prática de um determinado esporte, às vezes elaborando as suas próprias regras, ou aglomeram-se visando participar de uma competição com o objetivo de, apenas, cruzar a linha final, observando regras preestabelecidas por uma determinada categoria oficial.

Tais manifestações desportivas são praticadas de modo voluntário, observando-se, portanto, a autonomia da vontade de cada um, com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente. Inúmeras são as modalidades esportivas que visam atingir a finalidade mencionada, e envolvem os esportes tradicionais, como atletismo, basquete ou futebol; assim como os de aventura, quer na natureza, quer radicais, que, na visão do professor Manoel Tubino, são esportes “de conquistas individuais e de desafios, em que as manifestações esportivas interagem com fronteiras muito próximas”; além das artes marciais; dos esportes de identidade cultural; dos esportes intelectivos; e dos esportes com músicas.

O professor ainda aponta outros esportes que integram a vasta lista de modalidades, como os esportes motores, automobilismo e motociclismo, assim como os esportes com animais, adaptados e militares, além de esportes derivados de outros esportes. A vasta gama de esportes integrativos e a vontade de as pessoas, que às vezes sequer se conhecem, buscarem um objetivo em comum, acaba colocando em prática a Carta Internacional da Educação Física, da Atividade Física e do Esporte, da qual se extrai, aliás, “que uma das condições para o exercício dos direitos humanos consiste em que as pessoas sejam livres para desenvolver e preservar seu bem-estar e suas aptidões físicas, psicológicas e sociais”.

Ao proclamar a Carta Internacional, a Unesco buscou o propósito de colocar a educação física, a atividade física e o esporte a serviço do desenvolvimento humano, conclamando a todos “a aderirem a ela e a disseminá-la, a fim de que seus princípios se tornem reais”. É de se somar, ao próprio Instrumento Internacional do Esporte, os princípios fundamentais do Olimpismo, que visam “ser criador de um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais”, e que objetiva colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa humana em vista de promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana.

Note-se, pois, que todo o cidadão que mergulha no esporte acaba colocando em prática, ainda que involuntariamente, princípios basilares do desporto, por escopo inicialmente individuais, e que acabam refletindo em um bem querer coletivo, promovendo-se o bem de todos, um dos objetivos fundamentais da própria República. E porque não dizer que o desporto de participação acaba por também colocar em prática a filosofia de vida cravada na Carta Olímpica, “que exalta e combina de forma equilibrada as qualidades do corpo, da vontade e da mente”.

Nítido fica que a adesão ao desporto de participação, observada a autonomia da vontade de cada cidadão, é fundamental para o desenvolvimento humano, sendo um exemplo de harmonia entre todos os participantes, impactando, por conseguinte, na promoção de uma sociedade pacífica (respeito), calcado no prazer do esforço, no bom exemplo e na responsabilidade social, cabendo ao Estado, sempre, fomentá-la, em conjunto com todos os personagens que visam o bem estar e o bem querer, pela prática do esporte de qualquer modalidade.

João Guilherme Guimarães Gonçalves é advogado, auditor e procurador em Justiças Desportivas

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