Taekwondo

‘Eles têm apenas o sorriso que o esporte resgatou’

Viela sem nome, barraco sem número: na favela, taekwondo é fio de esperança

Projeto Em Busca de Campeões, Portelinha - Fábio Delsin, professor da equipe Dojan Nippon
Fabio Delsin exalta o carinho que recebe durante as aulas na Portelinha (Foto: Mauricio Bento/Líder Esportes)

As duas filhas de dona Eliane, 41, não sorriam desde que o pai delas foi baleado. Ábia tem 11 anos. É a irmã mais velha de Agnes, que completou 8. A narrativa é contada com olhos marejados de lágrimas. “O pai delas bebia e mexia com drogas, começou a nos bater… Um dia, ele foi baleado dentro de casa. Antes, já havia se enforcado. Minha filha mais velha viu tudo. Isso faz seis meses. O que elas viram deixou muitas sequelas. Ainda tem sangue na porta, na parede. E minhas filhas veem isso, porque estou desempregada e não tenho condições de pintar, rebocar e trocar a porta”, desabafou.

A favela existe há quase dez anos. Lá, vivem quase 4.000 pessoas, cerca de 1.000 famílias.

A angústia contida no depoimento de dona Eliane Ferreira, que nasceu em Cornélio Procópio (PR) e veio a Piracicaba para trabalhar há 19 anos, é apaziguada pelo fio de esperança que nasce no campinho de areia à frente dela. À esquerda do esgoto a céu aberto que corta a terra, Eliane vê as duas filhas sorrindo. Há quatro meses, Ábia e Agnes frequentam as aulas de taekwondo na comunidade da Portelinha. A favela existe há quase dez anos. Lá, vivem quase 4.000 pessoas, cerca de 1.000 famílias.

Há seis meses, o Centro de Alto Rendimento Dojan Nippon enxergou na Portelinha a chance de instalar no campo de areia algo capaz de reunir educação, esporte e inclusão social – e ainda a possibilidade de encontrar algum talento para polir. ‘Em Busca de Campeões’ é o nome do projeto cujas aulas acontecem às segundas e quartas-feiras. Aproximadamente 30 crianças e adolescentes participam da atividade. Entre elas, Ábia e Agnes. Foi lá que as filhas de dona Eliane recuperaram o sorriso.

“Como mãe, digo que as aulas mudaram muito a vida de minhas filhas. Elas voltaram a sorrir, estão mais calmas, voltaram a brincar. Eles estão mudando a história de minhas filhas. A rebeldia diminuiu muito. Ver minhas filhas com sorriso de novo no rosto, com aquele brilho (pausa)… Elas sempre perguntam para mim ‘Mamãe, hoje é dia? Já está na hora?’. As duas contam o que os professores ensinam. Eu aprendi a enxergar que o esporte realmente é capaz de educar”, testemunhou.

Projeto Em Busca de Campeões, Portelinha

Nas aulas do projeto, os sorrisos entre as crianças são constantes (Foto: Mauricio Bento/Líder Esportes)

A comunidade é também onde Maria Natália dos Santos, 19, veio parar após cinco anos em Piracicaba. Natural de Catende (PE), ela é mãe de Mikaelly, 3, garotinha que tem dificuldade para enxergar com o olho direito. “Mamãe, não machuca?”, perguntou Mikaelly, segundos antes de correr para o campinho. “Eu percebo sim a mudança de comportamento. As crianças aprendem a treinar e não brigar na rua. Crio ela sozinha e ela é um pouco rebelde, mas aqui os professores dão bastante atenção, isso me entusiasmou. Moro na Portelinha há seis meses. O ambiente é pesado para as crianças. Tem áreas que existe respeito, mas está longe de ser o ideal”, contou.

Assim como Eliane, Natália está desempregada. A perspectiva para o futuro próximo está longe de ser otimista. “Nada nos favorece. Para nós, não existe outra forma de vencer na vida além do esporte. Ninguém nunca tinha vindo aqui ensinar nada para nós. Existe preconceito sim. Ninguém gosta de favela. Eu vejo isso acontecer comigo em entrevistas de emprego. Já perdi três faxinas, por exemplo, quando disse que morava na Portelinha. Eu vivo para minha filha e estou sem trabalhar…”.

HISTÓRIA

João da Silva, 39, é o líder da comunidade e mora há seis anos na Portelinha. Faixa ponta vermelha, ele conheceu o taekwondo em 2004, ano em que conheceu o mestre Frederico Mitooka. De lá para cá, a vida separou os dois caminhos e João chegou a ser preso, mas pagou pelos erros que cometeu e reencontrou Mitooka. Ganhou mais uma oportunidade. “Eu conheci o lado bom e o ruim da vida. A sociedade já fechou as portas em minha cara. Somos marginalizados porque vivemos na favela, viela sem nome e barraco sem número. Nós queremos passar um olhar de caridade para esses pequenos guerreiros. E quem é que vai olhar para eles? Nós vivemos em um país com crianças na sétima série que não sabem ler e escrever”, criticou.

Na prática, as aulas são conduzidas por Fábio Delsin e Guilherme Félix, campeão brasileiro, sul-americano, pan-americano e primeiro brasileiro a conquistar medalha no Grand Prix. Perguntado sobre qual é a razão para entrar na favela e dar aula sem receber um centavo, Félix é contundente. “É por isso que eu pratico esporte. Não é para mim, é para quem está ao meu redor. É uma ferramenta social. Normalmente, quando você consegue resultado, você consegue mobilização maior. A felicidade de uma criança tem um valor imensamente maior do que qualquer medalha”, afirmou. “Nós também recebemos atenção e carinho. Não há nada mais gratificante do que o sorriso de uma criança”, completou Delsin, antes de entrar no campinho para começar a aula. Sempre em busca de campeões.

Projeto Em Busca de Campeões, Portelinha - Guilherme Félix, atleta de taekwondo da equipe Dojan Nippon

Guilherme Félix: ‘Eu pratico esporte para quem está ao meu redor’ (Foto: Mauricio Bento/Líder Esportes)

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