Aikidô

Ele ouviu ‘não’, mas decidiu enfrentar a doença

Autônomo supera raro problema de visão e transforma vida com arte marcial

Alessandro de Almeida, atleta de aikidô
Alessandro ouviu que deveria parar, mas nunca desistiu do aikidô (Foto: Leonardo Moniz/Líder Esportes)

O autônomo Alessandro de Almeida, 39, chegou ao fundo do poço. Aos sérios problemas de estresse causados pela rotina em São Paulo, ele viu complicar uma rara doença degenerativa, cuja principal agravante é a perda gradativa da visão. Foram dez descolamentos de retina em um ano. A perda total da visão parecia certa. Em 2010, Alessandro foi obrigado a operar e ouviu do médico a seguinte proibição: “esportes, nunca mais”. Com 47% da visão no olho direito e sem enxergar com o esquerdo, ele corria o risco de bater a cabeça e perder o pouco que restava. Alessandro entrou em depressão. “Acabou comigo”, recorda.

O desejo do filho mais velho de ter o pai próximo foi o primeiro passo para a transformação na vida de Alessandro

A limitação foi flagrante. Não apenas no esporte. Por lei, o autônomo é deficiente visual e não pode dirigir, por exemplo. “Fiquei muito mal. Minha esposa estava grávida de nosso terceiro filho. Naquela época, eu estava procurando algum esporte para o meu filho mais velho, o Elias, que hoje tem 11 anos. Lembro que fui atrás de alguma atividade de circo, pensando no equilíbrio, e procurei o aikidô, que une arte marcial, autoestima, disciplina e filosofia”. Elias, na época com 5 anos, não queria ficar sozinho no dojo. O desejo de ter o pai próximo foi o primeiro passo para a transformação na vida de Alessandro. “Eu comecei a acompanhá-lo, ainda em São Paulo”.

Ao assistir as aulas do filho, o autônomo se encantou com a arte marcial japonesa. Lia e acompanhava o que conseguia sobre o aikidô. A vontade de participar de uma aula logo se converteu em coragem. “Perguntei para a sensei Lila Serzedello se as pessoas com problemas como o meu poderiam praticar o aikidô. Prontamente, ela disse que sim. Voltei naquele dia mesmo para o treino da noite. E assim comecei aos poucos. Porém, a rotina de São Paulo me fazia mal e decidi com minha esposa voltar para o interior, para Piracicaba. Fiquei algum tempo parado, pois não tinha encontrado o que eu buscava antes de conhecer a Escola Aiki Kaizen”, relembrou.

Natural de Itapetininga, Alessandro não abre mão de viver no interior. Faltava apenas achar algum lugar ideal para praticar o aikidô e isso aconteceu em 2011. Fim? Não. Alessandro retornou ao médico, que se surpreendeu com a estabilização do caso. A doença parou de evoluir. No interior, dizem que o ‘mundo é pequeno’. Passados seis anos da cirurgia, os dois filhos do médico, cujo nome é preservado pelo autônomo, praticavam a arte na Escola Aiki Kaizen. Auxiliar, Alessandro participou do exame das crianças, no fim do ano passado.

Alessandro de Almeida, atleta de aikidô

Alessandro examinou os filhos do médico que o proibiu de praticar aikidô: reviravolta (Foto: Líder Esportes)

Ao cumprimentá-lo, o médico se mostrou surpreso. “A vida é gozada, não é mesmo”. Alessandro diz lembrar exatamente como respondeu. “A vida é para ser vivida, se eu tivesse desistido, não estaria aqui. Agradeço a você por ter me desmotivado: quando disse que eu não poderia, foi o que eu mais quis fazer”. Hoje, ele continua sem a visão esquerda e mantém 47% da direita. O problema de retina segue estabilizado. A evolução da ciência é a luz no fim do túnel para Alessandro. “Quem sabe, daqui alguns anos, algum procedimento ajude a melhorar minha visão, embora eu saiba que ela nunca será normal”.

Normal, porém, é como ele se sente no dojo. Lá dentro, Alessandro se encontra com a maior lição de vida que aprendeu. “O aikidô é primordial para eu me enxergar como um ser humano decente. Mesmo tendo filhos lindos e uma esposa amorosa, eu não estava feliz. O aikidô é o que ajuda a equilibrar a vida. E quando você compreende a simplicidade das coisas, se transforma. Nós estamos aqui para estudar juntos e aprender a todo momento, mesmo com aqueles que acabam de entrar. É uma oportunidade tão grande para se avaliar como ser humano, um caminho que nunca acaba. No aikidô, nos tratamos sempre como iguais”, concluiu.

Início