Futebol

Elas estão sem salário, mas têm fome de ‘milagre’

Sem dinheiro, 'remendado' e em situação ruim na tabela, XV tem vitória histórica

Rio Branco 0x1 XV de Piracicaba - Futebol Feminino
Lance do jogo entre Rio Branco e XV de Piracicaba, em Americana (Foto: Vitor Prates/Divulgação)

Especial. Histórico. Faltam adjetivos para contar o tamanho da façanha que o time feminino do XV de Piracicaba conseguiu neste domingo (25), em Americana. A vitória contra o lanterna Rio Branco pelo placar mínimo, na penúltima rodada da primeira fase do Campeonato Paulista, era esperada, inclusive com maior diferença de gols. O que eleva o triunfo magro à categoria de épico foi a forma como ele veio: no último lance do jogo, com o gol salvador anotado por Valéria. O tento deixou o Alvinegro, naquela altura eliminado, a uma vitória da classificação para as quartas de final.

As jogadoras e a comissão técnica do Nhô Quim estão sem salários desde o início do ano: superação ao extremo

É importante entender o contexto que vive o elenco comandado pelo técnico Leandro Silva. As jogadoras e a comissão técnica estão sem salários desde o início do ano. O time feminino do XV depende quase exclusivamente da verba destinada pela Selam (Secretaria de Esportes, Lazer e Atividades Motoras), emperrada enquanto não se adéqua ao marco regulatório do terceiro setor (Lei Federal 13.019/2014), que entrou em vigor neste ano. O repasse poderá ser efetivado somente após o chamamento público, o que deve acontecer em novembro. O elenco, quando soube da situação, se reuniu e descartou completamente a ideia de não participar do Paulista.

Os problemas externos naturalmente se somaram às dificuldades no campo: não há dinheiro para pagar as atletas e, óbvio, para contratar reforços. A receita foi investir na base e em um elenco enxuto. Mas, os obstáculos não param por aí: além de vender rifas e buscar soluções emergenciais para ‘pagar as contas’, o grupo teve atletas lesionadas e perdeu peças também com gravidez, caso da volante Nina, que vinha sendo improvisada como zagueira. Reclamação? Nada. O discurso do técnico Leandro Silva sempre foi o mesmo. “Vamos defender o escudo e brigar por uma vaga no Brasileiro”, diz.

A situação do XV estava complicada há duas semanas: seis pontos atrás do Audax, que fechava o G-4 e chances remotas de classificação no Grupo 1. Para avançar, o Nhô Quim tinha que vencer os dois jogos seguintes e torcer por dois tropeços da equipe de Osasco. Na última rodada, eles se enfrentam no Barão da Serra Negra. O destino foi caprichoso com o XV: o Audax empatou duas vezes, a última no sábado (24), em casa, contra a penúltima colocada Francana. O Alvinegro goleou o time de Franca e precisava derrotar o Rio Branco para chegar ao confronto direto com chances de ir ao mata-mata.

ÊXTASE

Por mais que o clube de Americana chegasse ao duelo eliminado, o XV estava ‘remendado’ em campo. Não bastassem os desfalques habituais, Leandro Silva perdeu duas peças importantes: Ana Caroline e Daniela, ambas suspensas. O Nhô Quim mandou no jogo contra o Rio Branco, mas foi para o intervalo com o placar de 0x0. Na segunda etapa, o desespero foi habitual: o XV martelava, mas não encontrava o caminho das redes. E, quando parecia tudo perdido, Jullyana cobrou e Valéria desviou de cabeça: êxtase geral. A vitória sofrida, como é a vida de cada membro da equipe, deixou o XV a um passo da classificação. Basta vencer o Audax no próximo domingo (2), às 15h, em Piracicaba. A vaga está por ser conquistada. A história, esta equipe já escreveu.

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