Judô

‘É hora de perceber a importância do esporte’

Treinador diz que legado olímpico pode ser a conscientização esportiva

Beninho Mattos e Carlos Magnusson Filho, técnico e atleta da academia Heisei de Judô
Beninho Mattos é crítico em relação à política de alto rendimento em Piracicaba (Foto: Líder Esportes)

O judô brasileiro encerrou a participação nas Olimpíadas com três medalhas – ouro com Rafaela Silva e bronzes com Mayra Aguiar e Rafael Silva. Apesar de não superar a marca alcançada em Londres 2012, o desempenho no Rio de Janeiro foi considerado positivo por Beninho Mattos, treinador da academia Heisei e referência no ensino do esporte em Piracicaba. Mattos acredita que os Jogos podem ter impacto no esporte local do ponto de vista da visibilidade, mas critica a política adotada para o alto rendimento. “Está na hora de as autoridades perceberem o quanto é importante a prática esportiva e quanto isso pode reverter na educação”. Confira a entrevista na íntegra:

Qual a avaliação que você faz sobre a participação brasileira do judô nos Jogos Olímpicos? Houve alguma surpresa, positiva ou negativa?
Acho que a participação do judô nos Jogos Olímpicos foi muito positiva. É claro que, como estamos competindo em nosso país, sempre queremos resultados mais expressivos, mas, se compararmos o investimento de outros países em estrutura esportiva, chegamos à conclusão de que um atleta brasileiro, para chegar com chances de medalha em uma Olimpíada é um fato extraordinário, que dependeu muito mais da dedicação do que da atenção que os nossos dirigentes dão ao esporte nacional. No judô, você não tem parâmetros tão claros para você saber as chances de cada atleta em sua categoria. Por exemplo, na natação e no atletismo, você tem os tempos que cada um está fazendo e com isso avalia as chances dele em relação aos outros atletas. No judô isso não existe. Você pode ser um super campeão, mas um movimento errado em uma fração de centésimos de segundos e você pode levar um ippon e perder a primeira luta, o que te desclassifica. É claro que temos atletas com grande chances de medalhas e que não foram bem, caso da Sarah Menezes, Charles Chibana e do Thiago Camilo, com ótimas chances de medalha e isso infelizmente não ocorreu. Todas essas dificuldades valorizam ainda mais as medalhas que o judô conquistou.

‘No judô, é muito exigido a disciplina e o respeito, e os atletas que não se comportam desta forma são severamente punidos’

Você acredito que os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro podem ter algum impacto no judô local?
Com certeza. Todas as vezes que acontece um grande evento, os esportes que ficam em evidencia acabam despertando mais interesse das pessoas, principalmente o judô, onde se pode observar a postura dos atletas perante a vitória e a derrota de uma forma muito clara, sem agressividade, sem comemorações ou comentários que agridam as pessoas. O atleta do judô é diferenciado em suas posturas e isso passa um bom exemplo que desperta o interesse, principalmente dos pais em colocar seus filhos em um esporte tão positivo. No judô, é muito exigido a disciplina e o respeito, e os atletas que não se comportam desta forma são severamente punidos.

Qual é o raio-X que você faz do atual quadro do judô em Piracicaba?
Infelizmente, algumas cidades estão mais preocupadas em ganhar os Jogos Regionais e Jogos Abertos para divulgar isso como um ponto positivo e, sendo assim, preferem contratar atletas já formados em centros de treinamento fora de sua cidade. Isso é o que está acontecendo com Piracicaba, pelo menos em relação ao judô. Isso é péssimo para os atletas daqui, porque sabem que por mais que treinem e tenham bons resultados, eles serão deixados de lado e um atleta de outra cidade ocupará o seu lugar defendendo Piracicaba. É isso que faz com que nossos atletas acabem lutando por outras cidades e conquistando títulos por elas, como aconteceu recentemente com o Giordano Martinelli, que sagrou-se campeão por equipes nos Jogos Regionais defendendo Campinas. Esses contratados nem passam pela cidade durante os ciclos de treinamento e, sendo assim, nossos atletas não tem nem a chance de treinar com eles para poder absorver os seus conhecimentos ou até mostrar que são tão bons quanto eles. Na minha opinião, deveríamos estimular os judocas de nossa cidade e contratar alguns pesos que não temos, mas que treinassem juntos com os nossos e, dessa forma, termos o engrandecimento de todos. Quando faltar dinheiro para as contratações, a quem vão recorrer para a disputa dos Jogos? Porque não criar uma equipe B que poderia ter ascensão para a equipe principal, caso fosse merecedor?

Do ponto de vista geral, qual é o legado que você imagina que os Jogos Olímpicos vão deixar para o esporte brasileiro e, particularmente, em Piracicaba?
Quando existe a realização de algo tão grandioso quanto a Olimpíada, existe também uma mobilização de todas as formas em torno do esporte. Isso é muito bom, porque mostra a todos o valor de se praticar um esporte, seja qual for, desde que bem praticado e bem orientado. Sendo assim, após a realização dos Jogos é normal que a população toda esteja mais consciente de como funciona cada esporte e com isso o estímulo para que mais pessoas pratiquem. Isso já é um legado. Mas, olhando por outro lado, se quisermos a melhoria do esporte de alto rendimento, temos que mudar a visão das autoridades brasileiras em relação ao esporte. Se o Brasil não for bem nesta Olimpíada isso chamará a atenção para o problema da falta de estímulo ao esporte no país e sendo assim os mandantes de nosso esporte terão que rever as suas posições e quem sabe melhorar em muito os cuidados com o esporte. Está na hora de as autoridades perceberem o quanto é importante a prática esportiva e quanto isso pode reverter na educação e na vida das pessoas, e assim levarem mais a sério algo tão valioso como o esporte.

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