Opinião

Discurso errado

Perguntei ao Ronaldo Guiaro, na coletiva após a derrota para o São Caetano, se os dois gols feitos pelo Gilsinho no segundo tempo não ‘mascararam’ uma atuação ruim do XV de Piracicaba. O técnico não concordou, ou concordou parcialmente, direito dele. Guiaro respondeu que o primeiro tempo foi ruim, mas disse que o XV foi bastante superior ao São Caetano depois do intervalo. O treinador avaliou que o adversário veio ao Barão da Serra Negra com a proposta de dar chutão. Não é possível que eu tenha visto o jogo que Ronaldo Guiaro viu.

O São Caetano controlou o jogo desde que o árbitro apitou. Bagunçado, o XV sofreu o primeiro gol porque Marcos Vinícius deu mole para Ermínio, o bom camisa 9 do Azulão. O segundo gol foi digno de corretivo: da direita, o lateral Alex Reinaldo virou o jogo ao colocar a bola entre os dois zagueiros do Nhô Quim e achou Paulinho Santos livre. O meia voltou a inverter o lado da jogada e enxergou Ermínio livre, que colocou a bola entre as pernas de Veloso. Um zigue-zague azul contra o estático e falho sistema de marcação alvinegro.

Antes do gol de Gilsinho, aos 18min, o São Caetano foi superior ao XV no segundo tempo. Na coletiva de ontem (17), Guiaro disse que havia visto o vídeo no vestiário e que o adversário não tinha criado nenhuma oportunidade. Discordo. O XV de Piracicaba foi ao ataque afoito, badernado e taticamente mal arrumado do meio-campo para trás. O vídeo que chegou a Guiaro foi mal editado: Carlão, camisa 11 do São Caetano, ficou cara a cara com Veloso duas vezes, e falhou em ambas. Na primeira, um toque por baixo do goleiro que lambeu a trave esquerda; na segunda, a tentativa de encobrir Veloso saiu pelo alto.

Os dois gols do XV foram fruto da individualidade de Gilsinho. O terceiro gol do São Caetano foi fruto de outra falha defensiva alvinegra. Na sala de imprensa, alguém disse que Veloso ficou pregado no chão quando deveria interceptar o cruzamento. De onde eu estava, não posso afirmar isso. Mas posso dizer que não dá para aceitar dois atacantes subindo contra apenas um defensor na pequena área. Cada vez que o XV é derrotado, as justificativas mais estapafúrdias são difundidas. Besteiras.

O XV de Piracicaba não está com salários atrasados e não está com o elenco rachado. O XV era e continua sendo limitado. É ruim, se preferir dizer assim. O problema de interpretação se dá pelo discurso: o clube vendia na véspera do jogo a ilusão do acesso, quando, na verdade, o planejamento e o investimento indicam claramente que a permanência é suficiente. Há quem diga que já caiu. Besteira também. Restam oito partidas. Seis, são contra times da metade da tabela para baixo. Dos seis, quatro são em casa. Dos dois jogos fora, um é contra o União Barbarense, que provavelmente estará rebaixado na penúltima rodada. Parece menos ‘impossível’, olhando assim.

Ontem, o XV de Piracicaba não perdeu para o São Caetano por nenhum motivo obscuro. O XV perdeu para uma equipe que é melhor. Ponto. Daqui para frente, e sem margem de erro, começa o campeonato que o XV de Piracicaba disputa de verdade: o da permanência. É o discurso que Ronaldo Guiaro terá de assumir.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do LÍDER

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