Opinião

Dia inesquecível

EUA, 23 de agosto de 1987. Final do basquete masculino dos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, entre os donos da casa e o Brasil. Ginásio lotado, com 16.408 torcedores na Market Square Arena, e todo o clima a favor para mais uma atuação de gala e a medalha de ouro para o invicto time norte-americano. Mas eles não contavam com Oscar e Marcel pela frente.

Eu tinha somente 14 anos na data desta final. Mas me lembro como se fosse hoje, 30 anos depois desta façanha inigualável na história do esporte da bola laranja. Os EUA nunca haviam perdido em seu território. Estavam soberanos naqueles Jogos e aquela decisão parecia ser apenas uma formalidade. Tanto que os organizadores sequer tinham levado o hino nacional brasileiro para o ginásio – após a vitória, o escrete verde-e-amarelo teve de esperar quase duas horas para a realização da cerimônia, pois tiveram de correr atrás do nosso hino (que vexame!).

Mas, não foi fácil. O duelo começou com os americanos massacrando os brasileiros. Em ritmo de treino, eles até ‘tiraram um pouco a mão’ no final do primeiro tempo e terminaram ‘somente’ 14 pontos à nossa frente (68×54). Mas algo iria mudar. E foi durante o intervalo. Marcel conta que, quando eles estavam voltando para o segundo tempo, viram várias pessoas levando carrinhos de bebida e comida para o vestiário dos EUA. Os brasileiros pensaram: “Já estão preparando a festa”. Isso encheu os atletas canarinhos de brio.

O início da etapa final, entretanto, seguiu o mesmo roteiro e os norte-americanos chegaram a abrir 24 pontos de vantagem. Seria o fim? Não para quem tinha Marcel e Oscar. Inspirados, começaram a ‘encestar’ da linha dos três pontos – regra que havia começado a valer quatro anos antes. Que lindo! Os americanos não acreditavam no que viam. O nosso Mão Santa fez nada menos que sete cestas de três pontos na etapa final e acabou o jogo com incríveis 46 pontos marcados. E o nosso coadjuvante mais protagonista da história marcou 31. Final: 120×115. Vencemos os ‘imbatíveis’!

Uma data para ficar marcada na história do esporte brasileiro. No dia seguinte, o The New York Times publicou uma foto enorme de Marcel comemorando a conquista. Algo impensável para os editores do maior jornal do planeta.

Três décadas depois, temos de reverenciar os nossos campeões. O Brasil fora bicampeão mundial (1959 e 1963), mas o título do Pan de 1987 não se compara a nada visto antes. Claro que essa épica conquista não resolveu os nossos problemas. Mas nos mostra que podemos superá-los quando temos gana, garra, vontade de vencer. Parabéns aos nossos heróis – Guerrinha (2 pontos na final), Marcel (31), Oscar (46), Gerson (12) e Israel (12). Depois: Paulinho Villas Boas (7), Rolando (0), Cadum (8) e Pipoka (2); técnico Ari Vidal. Mesmo três décadas depois, seguem nos emocionando.

Erivan Monteiro é jornalista e cronista esportivo

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