Opinião

Desastre

*Capa: Mauricio Bento/Líder Esportes

No jogo de futebol, não há como garantir nada. Eis a graça do esporte, o imprevisível. Mas, dá sim para diminuir a margem de erro, eliminar o que é previsível. A receita do técnico Márcio Fernandes para enfrentar o Operário-PR, em Piracicaba, beirou o patético. Digna de treinador que não conhece ou não estudou o material humano que tem em mãos. Márcio Fernandes escalou o XV com nove jogadores que milagrosamente escaparam do rebaixamento para a Série A3 do Campeonato Paulista. Nove! O fracasso estava desenhado antes do apito inicial. A chiadeira nas arquibancadas do Barão da Serra Negra, ao saber da escalação, estava mais que justificada.

Márcio Fernandes, ninguém sabe o por quê, teima em formar o meio-campo ao redor de Robston, que não é volante e também não é meia, talvez não seja mais jogador. Em março, ele próprio disse que meditava encerrar a carreira, seus joelhos não suportavam mais. O XV, ninguém sabe o por quê, tirou Robston do desemprego e o treinador deu a ele a braçadeira. O capitão de verdade, aquele que nasceu no clube e conhece como funcionam os meandros da Silva Jardim, não teve o contrato renovado e estava longe dali; pelo menos, eu não vi o Clayton no estádio. Parêntesis. De um tempo para cá, o XV dificilmente preserva os atletas que têm boa influência no vestiário. Basta ver o que aconteceu com André Cunha, para não ir longe.

Do jogo contra o Operário-PR, cujo elenco é bem mais barato que o plantel do XV, como também são os de Brusque-SC e São Paulo-RS, dá para afirmar que o primeiro tempo foi uma ofensa ao futebol, e o segundo teve dez minutos de empolgação e 35 de lástima. A derrota em Ponta Grossa deixou o alento de que, pelo menos, a equipe de Márcio Fernandes havia criado oportunidades; o revés em Piracicaba foi um convite ao abismo. Quem sabe, um fim de ciclo. A iminente eliminação significa andar 15 anos para trás na história do clube, que naquela época batalhou como pôde para não fechar as portas, como não vai fechar agora. Tenho dúvidas, porém, se há frente de batalha suficiente para encarar uma nova empreitada: acostumada ao paladar gourmet, a cúpula terá de comer arroz e feijão requentado.

E de quem é a culpa? É dividida, mas não em parcelas iguais. Não dá em hipótese alguma para eximir a diretoria, que dirige o barco e aponta a direção. Não há como aliviar a crítica para Márcio Fernandes: confuso e incapaz de fazer a equipe que comanda apresentar o mínimo de organização, algo esperado de um treinador com o currículo que tem. Gravei o que ele disse na apresentação: ‘Os jogadores contratados terão meu aval’. No jogo contra o Operário, decisivo para o futuro do clube, o técnico escalou como titulares apenas Vinicius Simon e Robston (!) entre os reforços vindos para a Série D. No intervalo, tentou inverter os papéis e conseguiu alguma melhora; 15 minutos depois, matou o setor de criação ao sacar Gilsinho para a entrada de Frontini.

Jogador de futebol, disse-me uma vez um experiente cartola, precisa de algum motivo para correr. No XV, eles não têm motivo algum. Não há simbiose entre direção e elenco. É nítido. Há quem não saiba o nome do presidente e isso não é simples ironia textual. E quando as peças não se conectam, fica impossível montar o quebra-cabeças. Não adianta o salário em dia; jogador de futebol é uma tribo com leis próprias. Não vá de cantigas, que eles vêm de resenha. Dito isso, não dá para absolver quase ninguém: dos comprometidos e limitados, aos limitados sem comprometimento. O adjetivo derrotista, infelizmente, é padrão.

Vem cá: e o Beto Souza? É cada vez mais complicado defendê-lo no cargo de gestor de futebol. Da Copa Paulista para cá, fracasso atrás de fracasso. A sucessão de erros está escancarada, não dá para esconder. Em 2017, o planejamento para a Série A2 deu errado e quase acabou em tragédia com a queda para a A3. No Brasileiro, a manutenção no grupo de jogadores que nada agregam – para não dizer que o colunista se esconde em cima do muro, cito três nomes: Bruninho, Samuel e Zé Mateus, titulares ontem. O equívoco na transferência de Alex Willian com a janela fechada, então, beira o amadorismo.

No futebol, o XV continua sem rumo, segue sem saber para qual direção caminhar. Em 2015, o ex-presidente Rodrigo Boaventura, em artigo escrito para a Gazeta de Piracicaba, profetizou que em 2020, o clube disputaria a Série A do Campeonato Brasileiro. Na época, eu ri. De incrédulo. Infelizmente, o XV de Piracicaba é cercado de pessoas que o elevam a patamares em que nunca esteve, bem como é rebaixado a degraus que nunca frequentou. Resumindo: o XV é uma instituição que não sabe o lugar que ocupa. E se você não sabe sequer onde está, é quase impossível saber como e para onde ir.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do LÍDER

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