Atletismo

Da prisão ao pódio: a história de uma campeã

Helen passou fome, roubou e vendeu drogas; hoje é promessa do esporte

Helen Cristina Lopes Roque, atleta de heptatlo e atletismo de Piracicaba
Helen treina com a equipe de atletismo de Piracicaba no estádio Barão da Serra Negra (Foto: Líder Esportes)

Com o semblante aflito, Helen dá uma pausa no treino. É dia de entrevista. Na memória, ela parece não encontrar espaço para armazenar tantas histórias que viveu ao longo dos 21 anos que serão completados no início de abril. Debaixo de sol, lágrimas e suor se confundem no rosto de uma garota cujo passado se divide entre crime, drogas e prisão; mas de futuro promissor no atletismo. O presente confirma a tese: Helen Cristina Lopes Roque é a atual campeã dos 100 m com barreira e do heptatlo nos Jogos Regionais. De quebra, ainda foi medalha de prata nos 400 m com barreira defendendo a Piracicaba em que nasceu.

“Foi a maior alegria da minha vida. Eu treinei para ganhar e ganhei”. A evolução no esporte é constante desde 29 de março de 2013, um dia após sair da Fundação Casa, unidade de internação feminina da Mooca, em São Paulo. Em três anos, Helen saiu de 1min12s para 1min05s nos 400 m com barreira em pistas de carvão. Aprimorou também as provas de salto em altura, salto em distância, lançamento de dardo, arremesso de peso, 200 m livres, 800 m livres e 100 m com barreiras, todas elas válidas pelo heptatlo. Mas isso foi possível após um telefonema.

ANJO DA GUARDA

“Eu tinha o telefone da Mazé e nunca esqueci o número. Quando fui presa, perguntaram para mim se eu fazia alguma coisa aqui fora. Contei do atletismo e eles ligaram para cá. A Mazé disse que eu era uma atleta boa, que tinha potencial. Ela ficou muito triste quando soube que eu estava presa, mas falei para ela que eu iria sair. Agradeço muito a Deus por ter conhecido a Mazé, porque se não fosse ela, eu com certeza estaria perdida”, confessou Helen.

Maria José Ferreira, Mazé, é treinadora. Na época de atleta, fez parte de uma geração de ouro do atletismo local, ao lado de nomes como Aparecida de Fátima Adão, Denise Schiavinato, Maria Teresa Ferreira e Marlene de Lima. Helen atribui a ela o papel de ‘anjo da guarda’, responsável pelo fio de esperança que ainda mantém. “Já usei muita droga, principalmente cocaína. Minha mãe bebia, meu pai traficava. Tenho um irmão de 22 anos que é usuário de crack e está preso. A Mazé me fez acreditar que eu consigo melhorar se eu me esforçar”, contou. Quando estava presa, Helen falou ao telefone com Mazé, que pediu calma e disciplina. “Saí em uma quinta-feira. Na sexta-feira de manhã, procurei a Mazé. Ela não acreditou que eu estava livre. Pedi um voto de confiança para treinar”.

A fé e o esporte são as duas bases em que Helen se apoia para mudar

Helen começou a correr por acaso. Desde criança, ‘apostava’ corrida na rua de casa, de terra, com um de seus quatro irmãos – dois meninos e duas meninas. Certa vez, uma vizinha a aconselhou a ir ao estádio Barão da Serra Negra para participar da equipe de atletismo e encontrar algo ‘melhor’ para a vida. O primeiro contato com Mazé foi seis anos atrás, mas, com o tempo, Helen deixou o esporte de lado.

Bem antes de lidar com as sete provas do heptatlo, ela enfrentou problemas na própria casa: mãe com dependência alcoólica, pai e irmão mais velho envolvidos com drogas e presos, dez dias sem comer e duas semanas dormindo na rua… Helen ‘entrou no crime’ aos 16 anos. Foi quando ela começou a vender cocaína, crack e maconha. Mais tarde, roubou carros e motos. “Fui presa, fiquei 46 dias e depois saí. Mais tarde, a Justiça decidiu pela minha internação. Fiquei dez meses internada na Fundação Casa”, relatou. “Não sei explicar o que eu senti. Foi horrível, não recebi nenhuma visita, nenhuma carta de nada, nada, nada”.

Helen Cristina Lopes Roque, atleta de heptatlo e atletismo de Piracicaba

No ano passado, Helen foi campeã em duas modalidades durante os Jogos Regionais (Foto: Líder Esportes)

RECUPERAÇÃO

Em quase três anos de liberdade, Helen admitiu que fumou maconha algumas vezes. Ela garantiu que não usou outro tipo de droga, mas também disse que ainda não dá para se considerar totalmente livre. O atletismo é a válvula de escape. “Eu não sei que tipo de tratamento eu posso fazer, não tenho dinheiro. Preciso de ajuda, de uma palavra. Na ‘cadeia’, só pensava em esporte. Eu conversava com Deus todos os dias na cadeia e pedia a ele uma chance, pois acredito muito em meu potencial. Não posso desperdiçar o dom que Ele me deu”.

A fé é outra base em que Helen se apoia para enfrentar a vida. Evangélica, ela começou a frequentar os cultos dentro da Fundação Casa. “Uma vez, escutei forte dentro de mim: ‘Não desanime, estou contigo’. Comecei a chorar, acho que foi o Espírito Santo”, relatou. “Eu fecho os olhos e me imagino participando do Troféu Brasil. Porque eu não posso sonhar com Olimpíada? Eu sonho sim. Mas a minha maior vontade é ser uma pessoa melhor. Sabe, tem vezes que os policiais me reconhecem na rua, param e perguntam se estou bem. Dizem que estão torcendo muito por mim”, contou.

Hoje, Helen não sabe dizer qual futuro a espera. Mas tem certeza que não abre mão do atletismo, apesar das provocações de colegas do bairro em que mora. “Sabia que tem umas pessoas que diziam para eu parar de correr? Peguntam o que eu ganho ficando debaixo do sol, falam que eu não sou camelo para fazer isso. Mas eu finjo que não escuto. Minha resposta será quando eu estourar no esporte”, diz, convicta, sem se esquecer de devolver a provocação na última pergunta da entrevista. “Falaram que meu corpo está ficando feio por causa do esporte, você acredita? (risos) Eu me cuido, sou bastante vaidosa!”, disse Helen, pouco antes de voltar ao treino. Afinal, é na pista que estão guardados os melhores dias de sua vida.

Helen Cristina Lopes Roque, atleta de heptatlo e atletismo de Piracicaba

Helen supera barreiras: desejo de mudança e fé em futuro melhor por meio do esporte (Foto: Líder Esportes)

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