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CRM investiga morte; médicos negam ‘fatalidade’

Sindicância será aberta ainda esta semana; especialistas falam em 'paradoxo'

Nabil Ghorayeb, médico cardiologista
Nabil Ghorayeb é editor da Diretriz Brasileira em Cardiologia do Esporte e Exercício (Foto: Arquivo Pessoal)

O CRM (Conselho Regional de Medicina) vai investigar a morte de Canavarros, jogador do XV de Piracicaba que teve óbito constatado segunda-feira (1). A informação foi confirmada pelo médico Renato Françoso Filho, conselheiro responsável pela delegacia de Piracicaba, em entrevista ao LÍDER nesta quinta-feira (4). De acordo com ele, a sindicância será aberta ainda esta semana.

Ghorayeb e Françoso Filho preferem não utilizar o termo ‘fatalidade’ para descrever o ‘caso Canavarros’

No processo investigativo, será avaliado desde o primeiro atendimento, ainda no gramado do estádio Barão da Serra Negra, até a morte. As condições clínicas do atleta e as circunstâncias em que foi realizado o treino no último dia 25 de janeiro também serão analisadas. “O CRM tem a obrigação de investigar todos os casos que possam trazer algum tipo de dúvida ou suspeita de problema no atendimento médico. Em nenhuma hipótese imaginamos que tenha existido erro médico, mas precisamos verificar tudo”, disse.

FATALIDADE?

Em entrevista coletiva realizada segunda-feira (1) no Salão Nobre da Santa Casa, o coordenador da Unidade Coronariana do Emcor (Emergência do Coração), Humberto Passos, classificou a morte de Canavarros como “fatalidade” e disse que ainda “não há um diagnóstico preciso”. LÍDER entrou em contato com o cardiologista  Nabil Ghorayeb, editor responsável da Diretriz Brasileira em Cardiologia do Esporte e Exercício, que preferiu não adotar o termo ‘fatalidade’.

“Fatalidade é uma palavra imprecisa. Fatalidade é um terremoto, desabamento, um problema da natureza… A morte de um atleta é um paradoxo; isso precisa sempre ser investigado pelas autoridades médicas. O problema são os riscos. Ninguém morre do nada”, afirmou. Françoso Filho segue a mesma linha de raciocínio. “A morte súbita tem causas. O que aconteceu não foi acidental. Vamos levantar todos os fatos desde o atendimento inicial, inclusive feito por não médicos”.

TEMPERATURA

Ao contrário do que afirmou o médico do XV, Raphael Salvador, no dia seguinte ao mal-súbito sofrido por Canavarros, Françoso Filho e Ghorayeb dizem que pode haver, sim, relação entre a temperatura registrada nos horários em que os treinos são realizados e a fatalidade com o jogador. “Tem relação sim. O calor intenso provoca desgaste e existe a perda de eletrólitos em condições adversas de temperatura. É preciso considerar também hidratação e umidade do ar”, disse Françoso Filho.

Ghorayeb, que também cuidou do atacante Adílson, ex-XV de Piracicaba, foi além. “Há uma discussão no mundo inteiro sobre o assunto e a Fifa está preocupada com isso. Os estudos apontam que as atividades praticadas com temperatura igual ou acima de 32 graus, devem ser imediatamente suspensas. O sindicado dos jogadores fez um pedido para emissão do parecer técnico e quem se preocupou com isso é o Turíbio (Leite de Barros, fisiologista). Já foram feitas pesquisas, por exemplo, com cortadores de cana. Quando a temperatura externa chega a 32 graus, a interna alcança um número absurdo em quem faz atividades físicas com essas condições”, relatou o cardiologista.

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