Corpo & Mente

Competitividade, vaidade e saúde

Competitividade, vaidade e saúde - Corpo & Mente

O corpo cumpre dois papéis essenciais em nossa própria humanidade. Em primeiro lugar, é nossa morada; simultaneamente, a base e o produto das funções fisiológicas. Por isso, entendemos que a boa saúde é importante para uma existência mais plena e livre de sofrimento, ao permitir experienciar o mundo de forma mais completa.

Morada e identidade não são conceitos 100% independentes

Ao mesmo tempo, é parte de uma identidade: a partir dele, podemos não apenas reconhecer um amigo ou familiar, mas também formar impressões sobre pessoas desconhecidas. Longe de serem superficiais, os julgamentos estéticos são fundamentais para as relações sociais, ajudando a imaginar características e qualidades não acessíveis aos olhos – com uma expressiva margem de erro, é verdade.

Essas duas funções – morada e identidade, saúde e estética – não são completamente independentes. Os padrões de beleza assumem traços específicos em diferentes culturas, mas sempre remetem ao que é considerado saudável. Para ilustrar: sociedades e períodos que sofreram com escassez de alimentos valorizam formas mais arredondadas; por outro lado, quando problemas de saúde relacionados à obesidade tornam-se comuns, a magreza ganha importância. Assim, aquilo que consideramos belo passa, em grande medida, pelo que entendemos ser saudável.

Isso leva a uma conclusão polêmica. Se aproximarmos beleza de saúde, entendemos que a vaidade é uma aliada nos cuidados consigo mesmo. De fato, o é. A crescente busca por atividades físicas, supervisionadas ou não, e programas de reeducação alimentar no Brasil é impulsionada, em grande parte, por razões estéticas – que também impactam positivamente a saúde.

Outro importante motor, o aumento do desempenho esportivo, também passa por uma forma elaborada de vaidade, a competitividade. Desde a Antiguidade, atletas são admirados por seus feitos e por seus corpos, como nos revelam as estátuas gregas. O desejo de superar aos outros e a si mesmo, fortalecendo uma identidade, também pode tornar a morada mais sólida.

IDENTIDADE

O belo passa pelo saudável; o desejo pela beleza (ou pela força) se realiza na saúde. Esse desejo, quando descoberto e adequadamente valorizado, é uma ferramenta preciosa para motivar mudanças de hábitos significativas. Basta atentar-se a um segredo.

A construção da identidade deve respeitar a morada. A competitividade e a vaidade devem impulsionar a saúde, jamais ultrapassá-la – sob pena de síndromes metabólicas, transtornos alimentares e outras graves complicações. Para tanto, é fundamental aprender a lidar com a ansiedade e aprender, apesar dela, que nenhum bom resultado virá de atitudes danosas.

Cassiano de Santis é psicólogo com formação em Terapia por Contingências de Reforçamento

Início