Aikidô

Abandono, fome e sonhos: a história de Daniel

Menino abandonado pelo pai se alimentava de farinha de milho; hoje, é faixa preta

Daniel Galvão, atleta de aikidô da Escola Aiki Kaizen
Aos 18 anos, Daniel Galvão tem a vida repleta de histórias de superação (Foto: Leonardo Moniz/Líder Esportes)

Daniel Galvão fez aniversário neste sábado. Chegou à maioridade. Há 11 anos, quando tinha apenas sete, estava com febre alta. O pai dele perguntou para a avó, que morava junto, quais remédios deveria comprar, pois iria à farmácia. Saiu e nunca mais voltou. Daniel frequentava catequese e, no Dia dos Pais, tinha a tarefa de desenhar um coração e pintá-lo de vermelho. Travou. Não conseguiu. De lá para cá, a história do menino é recheada de dificuldades e sacrifícios. Hoje faixa preta de aikidô, encontrou no sensei Roney Antonio Rodrigues Filho a figura paterna que nunca teve. Da arte marcial, fez o trampolim para transformar a própria vida.

“Lembro que recebi R$ 100. Eu estava muito feliz! Gastei tudo! Comprei uma pizza e alguns doces também”

“Quando chegou o Dia dos Pais, eu senti raiva. Nunca entendi porque ele fez isso comigo e a catequista ficou preocupada. Conversei com um padre e ele me levou para uma psicóloga. Nos encontrávamos na igreja para ela me ajudar a entender a ausência do meu pai”, relembrou. Em casa, havia mais problemas: o tio, alcoólatra, batia na mãe e na avó. Daniel se isolava. O relacionamento com a mãe nunca foi ideal. Ainda hoje não é. O aikidô, e em especial a Escola Aiki Kaizen, de Piracicaba, entrou na vida de Daniel há cinco anos. Indicação da psicóloga.

“Ela matriculou o filho dela no aikidô e gostava do trabalho feito pelo sensei Roney. Eu vim para cá também”, contou. Daniel combinou que frequentaria o local três vezes por semana, mas faltava às sextas-feiras. Levou ‘bronca’ e começou inventar histórias que logo foram descobertas pelo sensei. O castigo veio em forma de suspensão de 30 dias. A justificativa foi estampada em um documento: “Faltou com a verdade”. O recado fez o menino refletir. “Pensei em não fazer mais o aikidô, mas algo dentro de mim pediu para continuar. Minha avó foi quem mais me incentivou. Voltei a treinar certinho e fiz meu primeiro exame. Foi um dos melhores exames que fiz”.

Daniel Galvão, atleta de aikidô da Escola Aiki Kaizen

Daniel Galvão, durante o treinamento realizado na última quinta-feira (Foto: Leonardo Moniz/Líder Esportes)

Essa não foi a única reprimenda que o garoto levou do professor. Na época, ele admite que não compreendia os puxões de orelha. Hoje, Daniel os considera como conselhos valiosos. Mas, os problemas não se resumiam ao comportamento; a crítica condição financeira levou Daniel a pensar que não fazia parte do grupo que treinava com ele. “O pessoal estava sempre bem vestido e eu não tinha troca de roupa, não ia jantar com eles pois não tinha dinheiro. Foi uma barreira para mim. Com as conversas que o sensei teve comigo, melhorei bastante. Ele me disse que eu fazia parte do projeto dele”, afirmou.

Com o passar do tempo, Daniel ganhou uma oportunidade de prestar serviço para a escola, três anos atrás. Foi o primeiro salário que recebeu na vida. Ao falar disso, sua expressão muda. “Lembro que recebi R$ 100. Eu estava muito feliz! Gastei tudo! Comprei uma pizza e alguns doces”, relatou. Em casa, a economia andava tão mal que a água era cortada vez em quando. Diz ele que nunca passou fome. Será? “A gente só tinha farinha de milho e sal para comer de floquinho. Matava a fome”. O trabalho no aikidô se dividia entre a limpeza e a administração. Daniel tinha habilidade para vender o produto, ou seja, vender o aikidô.

“Meu pai saiu e não lembrava nem o meu nome… A discussão foi muito forte. Pedi apenas o mínimo de carinho”

“Tem uma cartinha que a gente entrega para as pessoas com as informações básicas do aikidô e eu comecei a estudar. Como as pessoas se sentiam bem atendidas e se interessavam, eu cheguei a ganhar um bônus! Fiquei muito feliz”. Aos poucos, a vivência trouxe maturidade a Daniel. Com isso, novas oportunidades surgiram. Atualmente, ele é faixa preta primeiro grau e já dá aula na escola. E conquistou um salário. Mas, claro, com 18 anos, ainda leva com ele o espírito de menino. “O aikidô ajudou muito a minha vida. É um caminho sem fim, uma ferramenta multiplicadora de vidas e de conhecimento. Você acredita que eu comprei um Xbox? Eu gosto de jogar futebol no video-game (risos)”.

A rotina de Daniel é simples: como tem as manhãs livres, dá uma força em casa e ajuda a cuidar da avó. Ele chega à escola depois do almoço e sai de noite, toma um banho, janta e assiste um pouco de televisão antes de dormir. O que ainda não é simples e provavelmente nunca será é a relação com o pai. Há pouco mais de um ano, Daniel conseguiu o endereço e decidiu visitá-lo. Com medo de não ser atendido, bateu palmas fingindo ser um colega de trabalho. “Ele saiu e não lembrava nem o meu nome… A discussão foi muito forte. Pedi o mínimo de carinho. Ele queria que eu esquecesse tudo e começasse do zero”.

“Meu pai disse que iria se aproximar, deixei meu telefone… e ele nunca me procurou. Infelizmente, meu pai e minha mãe não sabem a responsabilidade que é ter um filho. Hoje, eu busco a felicidade e sei que tenho muito a conquistar”, completou Daniel. Para ele, a próxima vitória será entrar em uma faculdade. O objetivo é dar uma vida melhor para a avó. “Quando meu avô morreu, ela passou muitas dificuldades. Chegou a pegar um copo de garapa e dar uma colherada na boca de cada filho para ‘matar a fome'”, disse. Na quinta-feira (13), quando foi realizada a entrevista, a avó dele descobriu um câncer no fígado. Dono de uma sabedoria aprendida com os ensinamentos do aikidô, Daniel não titubeou ao completar a conversa: “Meu sonho é cursar engenharia da computação e oferecer uma vida melhor para ela. É o que eu mais quero”.

Início